Musica e poesia de pai pra filha

Musica e poesia de pai pra filha

Print Friendly, PDF & Email

Filha do poeta e compositor paraibano Zé Marcolino, um dos três autores preferidos de Luiz Gonzaga, Fátima Marcolino segue o caminho do pai e lança seu primeiro livro de poesias, A mesa da cozinha lá de casa, uma espécie de resumo dos diversos assuntos tratados entre amigos na mesa da sua cozinha. Compositora com obras gravadas por Maria da Paz e Irah Caldeira, entre outras, Fátima também cuida do acervo de seu pai.

— Tive a felicidade de ser filha do Zé Marcolino, um grande poeta e compositor, considerado como um gênio entre os amigos. Sempre o admirei muito e hoje, já com uma certa idade, tive a maturidade de reconhecer a grandeza da sua obra e cuidar do seu acervo, de tudo que fez e que tenho conhecimento — fala Fátima Marcolino.

— Escrevia muito sobre a natureza, apesar de não ter nem ideia do que era ecologia. Fazia canções belíssimas baseadas em pássaros, em pessoas, histórias e contos que ouvia na rua, tudo relacionado com as raízes nordestinas. Era muito sertanejo, nasceu em Sumé, no alto sertão da Paraíba e morou em um sítio até os 30 anos de idade, então falava daquilo que observava e vivia — conta.

— Também escrevia cordeis, tocava violão e pandeiro, chegou a tocar pandeiro em trios de forró. Tinha até um amigo que dizia: “Marcolino, você é um gênio”, porque ele realmente era. E olha que só tinha o primário, incompleto, feito no interior da Paraíba, lá no sertão. Foi criado no mato mesmo, e com 17 anos de idade já estava compondo e arquivando tudo no cérebro, porque não tinha gravador e nem exista celular naquela época — continua.

http://jornalzo.com.br/and/wp-content/uploads/https://anovademocracia.com.br/106/08b.jpg
Zé Marcolino (de bigode) ao lado de Mané Filó e Antônio Pereira

Luiz Gonzaga gravou 18 canções de Zé Marcolino, a maioria falando do nordeste, das coisas do sertão.

— Seu Luiz foi o primeiro a gravar músicas do meu pai, depois vieram: Dominguinhos, Genival Lacerda, Marinês, Irah Caldeira, Quinteto Violado, Santana, Alceu Valença, e outros, um mundo de gente. Gostava de fazer forró, marchinhas juninas, toadas, coisas nesse estilo — comenta Fátima.

— Conheceu Seu Luiz porque um amigo falou: “Ah, Marcolino, Luiz Gonzaga está em Sumé hoje, vamos lá pra você mostrar algumas de suas canções pra ele, porque eu acho que essas suas músicas são a cara da sanfona do Gonzaga”. Ele disse: “não vou nada, não está vendo que o Luiz Gonzaga não vai me receber?”. O amigo insistiu: “Vamos lá, vamos tentar” — relata.

 — Acabaram indo e naquele mesmo ano Seu Luiz gravou 6 canções dele. Na época era LP, quer dizer, um lado todo do disco só músicas suas. Seu Luiz gostava da linha que meu pai escrevia, e gostava muito dele como pessoa também. Inclusive com um ano que meu pai tinha falecido, fizeram uma homenagem para ele em Serra Talhada e seu Luiz veio. Já doente, subiu no palco de muleta, mas foi fazer sua homenagem — recorda.

Zé Marcolino faleceu em 1987, aos 57 anos de idade, vítima de um acidente.

Herdando arte

http://jornalzo.com.br/and/wp-content/uploads/https://anovademocracia.com.br/106/08c.jpg
Sala de reboco: Quinteto Violado canta Marcolino

— A influência de meu pai foi muito importante na minha carreira. Sou a mais velha de sete irmãos, então fui eu quem participou mais de perto da sua obra. Cansei de vê-lo compondo, era o meu brinquedo ouvir meu pai fazer canções — declara com alegria.

— Fui tomando gosto por isso, escrevendo algumas coisinhas, mas não mostrava por achar que não estava bom. Até que certa vez mostrei uma poesia para ele, porém, sem dizer que era minha: “pai me diz uma coisa, isso aqui tá bom?”. Ele disse: “Está muito bem feito, quem foi que fez?”. Eu digo: “fui eu”. Ele afirmou: “Pois está muito bom”. A partir daí perdi o medo e não parei mais de escrever — expõe.

— Hoje tenho algumas canções gravadas. Geralmente prefiro as parcerias, tenho música com meu irmão Bira Marcolino e com vários amigos. Esse ano a cantora Maria da Paz gravou duas canções nossas, que por sinal são lindas. Normalmente faço meus poemas e os parceiros criam musicalidade. Mas não faço poesia pensando em música, inclusive não toco instrumentos, depois é que ela vem — explica.

Fátima está lançando seu primeiro livro de poesias depois de mais de dez anos engavetado, como diz.

— Acredito que o tempo é esse mesmo, porque agora me sinto madura para lançar um livro e estou muito feliz com o resultado. É um livro pequeno, mas gostoso de se ler chamado A mesa da cozinha lá de casa. Aqui em casa na mesa da minha cozinha é onde surgem conversas, motivos, temas para diversas coisas — conta.

— Minha casa é muito visitada pelos artistas, por cantores, amigos que quando chegam aqui já chamo logo para a mesa da cozinha para tomar um café. E aí, nas conversas, vão surgindo ideias, novidades, causos, poesias e músicas. Gosto muito de contar histórias e o pessoal vem pra cá para ouvir as histórias do meu pai, da minha infância, das pessoas que convivi, muitos deles importantes músicos e poetas — continua.

— Então como a maioria das coisas do livro surgiram em conversas com amigos na mesa da minha cozinha, resolvi dar o título. São poemas, letras de músicas, alguns comentários de amigos sobre a minha pessoa mesmo, versos feitos para mim — acrescenta.

O livro de Fátima foi lançado em Caruaru, interior de Pernambuco, onde reside, no começo deste mês, no projeto Cantoria em Casa.

— É um show que acontece uma vez por mês aqui na cidade, no jardim da casa de um amigo. Entre outros, já participaram do projeto o Renato Teixeira, Pereira da Viola e Xangai, e eu lancei meu livro dentro de um show de Nando Cordel. Foi muito bonito mesmo — diz.

— Já tenho outros lançamentos programados em Caruaru e Recife, inclusive participei com o livro na festa do dia internacional da mulher, no Museu do Gonzagão, aqui em Caruaru, lançando meu livro lá. Mas a pessoa que não puder ir em nenhum lançamento e quiser adquirir o livro pode escrever para [email protected] que mando pelos correios sem nenhum problema — conclui Fátima Marcolino.

Ao longo das últimas duas décadas, o jornal A Nova Democracia tem se sustentado nos leitores operários, camponeses, estudantes e na intelectualidade progressista. Assim tem mantido inalterada sua linha editorial radicalmente antagônica à imprensa reacionária e vendida aos interesses das classes dominantes e do imperialismo.
Agora, mais do que nunca, AND precisa do seu apoio. Assine o nosso Catarse, de acordo com sua possibilidade, e receba em troca recompensas e vantagens exclusivas.

Quero apoiar mensalmente!

Temas relacionados:

Matérias recentes: