No berço do samba

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No berço do samba

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O projeto Berço do Samba de São Mateus reúne compositores, anônimos em sua maioria, moradores de São Mateus, periferia de São Paulo, que há anos realizam rodas de samba pelo bairro. No quintal da tia Cida, no boteco do Timaia, no quintal do Zezinho ou em qualquer outro ponto importante, eles se juntam para tocar e cantar o mais genuíno samba, e saborear os quitutes que lhes ajudam a inspiração.

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— O Berço do Samba de São Mateus nasceu dos encontros, constantes e sem compromisso, de amigos que moram nesse bairro da zona Leste de São Paulo, bem afastado do centro. Oficialmente passamos a existir em 2008, quando gravamos o disco, mas o pessoal já se reúne em rodas há mais de 20 anos, fazendo seus sambas nos quintais e também nas beiras de campo, nas partidas de futebol de várzea — conta Everson Pessoa, músico do Berço e um dos líderes do movimento.

— Entre os lugares mais tradicionais tem o quintal da tia Cida, que é filha do Blecaute e mãe do meu compadre Tocão, outra figura importante da área. Essa família de músicos é bem enraizada no bairro e foi lá no quintal da tia Cida que começaram as atividades do Berço. Outro local é o boteco do Timaia, que tem rodas desde 1992/93. Ele é muito conhecido aqui, e ganhou esse nome porque parece com o Tim Maia (risos). Tem também as rodas da Maria Cursi, uma rua daqui do bairro — relata.

O movimento que gerou o CD nasceu de uma composição de Éverson e seu irmão Yvson.

— A música diz que nós fomos criados no berço do samba de São Mateus. Daí surgiu a ideia, a história foi para frente. O disco reúne trinta compositores daqui, que fazem samba de uma linhagem muito especial. Nossa música tem uma ligação com os sambas da Portela, da Mangueira e das escolas de São Paulo. Temos influência do Cacique de Ramos, do samba de roda da Bahia, dos batuques de Pirapora, da música do interior de São Paulo, do Vale do Paraíba, e muitas mais.

  — Desta escola do samba nasceu um verdadeiro reduto de sambistas, gente boa mesmo. Isso aí está crescendo cada vez mais, a ponto de virar um espetáculo e ir longe. Recentemente estivemos cantando nosso samba em Nova Iorque. E o intuito desse projeto é justamente revelar esses compositores da periferia para o resto de São Paulo, do Brasil e do mundo. Fazemos uma música que está muito enraizada no Brasil, ela é muito forte e representa essa nação — conta Éverson, acrescentando que também tem influência do choro.

Nas letras, os sambistas procuram falar, entre outras coisas sobre o que acontece na periferia, o cotidiano do povo e alguns personagens famosos de São Mateus.

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Animada roda de samba no Boteco do Timaia

— Citamos São Mateus, a Vila Formosa, o Morro do Sabão, o Rato do Tubiacanga, o Timaia, o Mané e o Zezinho. A casa do Zezinho tem um dos primeiros quintais de samba daqui. O Jarrão, um dos compositores, lembra em sua música do samba e do churrasco no quintal do Zezinho. E fala que ‘lá tem camarão’. Isso é uma coisa que vivenciam: os caras saem para pescar, voltam com aquele monte peixe, e depois tem a peixada para a rapaziada cantar samba — fala.

— Falamos da Judite, uma figura engraçada daqui, e também do grande Tocão e da tia Cida, é claro. Tem até um samba que pergunta: ‘Cadê o Tocão dona Cida, cadê o Tocão? Oh, oh… cadê o Tocão?’ (risos). Meu compadre Tocão é um tocador de banjo, e uma das maiores referências do samba de São Mateus, porque já percorreu o Brasil com o seu instrumento. Entre outras, tocou ao lado e é parceiro de Almir Guineto — continua.

 Atualmente o Berço do Samba apresenta seus espetáculos através do Sesc. E as rodas de samba continuam.

— Isso é independente de carreira ou discos. É um encontro de vários amigos de muito tempo e pessoas que realmente fazem tudo pelo samba e cantam pelo prazer de cantar. Claro que profissionalizando também a coisa, porque muitos desses artistas acabam até vivendo da música, ganhando o seu pão. Nos shows infelizmente não dá para levar todo mundo que participou do disco, que foram uma trinta pessoas. Normalmente vão uns quinze — conta Everson.

No Berço e no Quinteto

Antes do nascimento do Berço, mas, em meio a muitas rodas, em 1999, Everson e seus irmãos, Yvson e Vitor, se juntaram a mais dois músicos e formaram o Quinteto Branco e Preto, que se apresenta só ou com o Berço.

— Além de nós três, o Quinteto tem o Magnu e o Maurílio. Eles são de Santo Amaro que, apesar de longe daqui, tem uma ligação muito forte com São Mateus. Conhecemo-nos quando tocávamos no bar Boca da Noite, no Bexiga, e resolvemos montar o grupo. O bar não existe mais — diz Everson.

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— Beth Carvalho é a nossa madrinha e depois se tornou madrinha do Berço também, inclusive gravou uma música no CD. Foi ela que começou a divulgar os trabalhos do Quinteto e do Berço. Veio aqui, conheceu nosso samba e se entusiasmou. Dormiu por aqui mesmo na maior simplicidade, na casa de um dos compositores. É uma pessoa e artista fantástica — elogia com alegria.

O Quinteto já gravou Três CDs, e está lançando o quarto no segundo semestre deste ano, chamado Resistência.

— Decidimos pelo nome para lembrar a resistência do samba e a nossa em particular. Simboliza todos esses anos lutando pela cultura brasileira. Além do nosso disco, estamos trabalhando em mais dois projetos: o primeiro disco da tia Cida e um DVD do Berço — avisa.

— Ela está escolhendo um repertório muito bacana. Até agora têm quatro músicas do Quinteto e duas do pessoal do Berço. O resto ela vai preencher com os compositores que sempre gostou. Então tem tudo para ser um trabalho maravilhoso. E é muito bonito ter um disco de resgate da memória da tia Cida, das coisas que ela já canta há anos — acrescenta.

— O Quinteto faz os arranjos e toca, enquanto tia Cida canta com a sua desenvoltura de sempre. Também deve sair no segundo semestre. Já o DVD do Berço ainda não temos uma data. Por enquanto é só um desejo, mas pode acontecer a qualquer momento — conclui Everson Pessoa.

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