Ollanta Humala e sua “grande transformação”

Ollanta Humala e sua “grande transformação”

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Artêmio recebe “visita” de Ollanta Humala no hospital

Foi no domingo, 12 de fevereiro de 2012, e o preso desfalecido só conseguia ver seus captores enquanto estava prostrado em uma cama com uma máscara de oxigênio no Hospital de Polícia de Lima. Com as mãos enfaixadas, bem como o peito ferido por uma bala também envolto em ataduras, tinha a seu redor seus vigias: três militares com uniformes rangers – estigma de seus mentores ianques – e duas pessoas de aproximadamente trinta anos vestindo jeans, um deles com colete com o logotipo de algum comando policial de elite. Todos os presentes naquele quarto têm olhares inexpressivos, alguns dirigidos ao ferido, outros à câmera fotográfica que disparava no momento e também houve as que estavam dirigidas a um “visitante ilustre”.

Este visitante veste jeans e camisa com mangas arregaçadas. O que mais se destaca nele é seu pequeno sorriso que contém uma euforia esquizofrênica enquanto observa o derrotado que, deitado e inerme na cama do hospital, crava os olhos em algum ponto qualquer do quarto, enquanto em seu corpo os efeitos dos fármacos se antecipam e aplacam seus alaridos.

Trata-se da visita de Humala ao quarto onde se encontra hospitalizado Florindo Eleuterio Flores Hala, conhecido como “camarada Artêmio”.

Este personagem foi associado com o Partido Comunista do Peru, que durante décadas se manteve clandestino nas selvas do Alto Huallaga, sem maior norte político e com múltiplas acusações de ter combinado suas práticas guerrilheiras com o narcotráfico.

De todos os ângulos, assistimos a um fingido quadro vitorioso, onde Humala assume a hipócrita atitude do magnânimo, do vencedor com rosto humano, que respeita a vida do vencido, quando na verdade só busca a foto derradeira para o marketing político, a pose de um forçado momento épico, tal como fez em Madri ou Davos semanas antes.

Há muito que o Huallaga deixara de ter alguma séria proposta revolucionária frente ao Estado peruano. Portanto o quadro antes descrito tratava-se apenas de uma derrota militar que referendava uma velha derrota política. Mesmo assim, tudo serve para Humala, que necessita de popularidade, porque está muito fresco na memória a grande sacudida e expulsão de todas as suas pulgas vindas da esquerda caviar peruana, de toda esquerda de ONGs.

Por obra e graça de seus assessores ligados ao PT do Brasil, contando com a aprovação de Luiz Inácio da Silva e Dilma Roussef, agora Humala se pavoneia pelo mundo inteiro como personagem moderno que defende a economia de mercado, que suplica aos capitais transnacionais que venham e invistam no Peru. Oferece todas as garantias para que desenvolvam todos os projetos extrativistas que lhes apeteçam e põe a sua disposição toda a água, os solos, os minerais e o gás do país.

No início de dezembro de 2011, Humala convidou ao Peru representantes do grupo de imprensa Prisa, que publica o jornal El País da Espanha, que nunca havia emitido nem um milímetro de opiniões elogiosas sobre esse personagem quando havia surgido como candidato presidencial.

Naquela época, para todos os meios de comunicação, Humala era um tipo perigoso, um inimigo da propriedade privada, pró-estatista, nacionalista, um caudilho de passado militar muito próximo de Hugo Chávez, Evo Morales e Daniel Ortega.

No fim de janeiro de 2012, Humala devolveu a visita, foi a Madri e prometeu ao rei da Espanha respeitar todos os investimentos espanhóis. Foi recebido com uma parafernália impressionante por El País. O jornal desempoeirou o jornalista Juan Luis Cebrián, há muito dedicado a tarefas administrativas do grupo Prisa, para entrevistar Humala.

O jornal misturou a recepção com fanfarra de Humala com outras notícias sobre o Peru durante toda a semana, sobre gastronomia peruana ou sobre o suposto crescimento do país. Na realidade, pareciam anúncios publicitários e não notícias. Paralelamente, as rotativas do grupo Prisa imprimiram um enorme dossiê sobre o Peru, com distribuição gratuita com El País, no dia 22 de janeiro. Essa publicidade paga com juros às atuais lisonjas do outrora meio de comunicação adversário de Humala.

Depois do lobby midiático, Humala foi a Davos, na Suíça, buscar capitais transnacionais. Em troca, prometeu dar todas as facilidades para que explorem os recursos naturais peruanos. Pelo visto, a “grande transformação” prometida por Humala não era a de um país inclusivo com um governo que pensa em melhorar a situação das grandes maiorias empobrecidas peruanas, mas a de transformar seu discurso estatista em outro abertamente neoliberal, vendendo sua alma ao próprio diabo.

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