Piratas europeus saqueiam mar da Somália

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Piratas europeus saqueiam mar da Somália

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A Guarda Costeira é formada por voluntários, e negociou o resgate do cargueiro MV Faina com seu proprietário no Panamá

Um relatório publicado no último mês de fevereiro pela organização Global Policy Forum traz novos elementos sobre o fato já registrado por outras fontes, e solenemente ignorado pela ONU e pelo monopólio internacional dos meios de comunicação, de que os mais de três mil quilômetros da costa da Somália, na região do Chifre da África, patrulhados por uma frota militar capitaneada pelas potências que estão ali a pretexto de combater “piratas”, e uma das mais ricas zonas de pesca do mundo, é alvo sistemático de pilhagem por parte de grandes empresas do ramo pesqueiro da Europa e da Ásia, que se aproveitam de que há mais de duas décadas o país não tem um governo efetivo, nem tampouco uma marinha capaz de vigiar suas águas territoriais.

Os autores do relatório, Suzanne Dershowitz e James Paul, mostram que os navios de pesca estrangeiros atuam em larga escala no litoral da Somália, em detrimento dos pescadores locais, que enfrentam escassez de peixes, enquanto os estrangeiros vêm ganhando milhões de dólares por ano com as vendas de atum, tubarão, lagosta e camarão capturados ilegalmente.

“Cerca de 700 embarcações estrangeiras operavam nestes águas em 2005, e muito bem armados […]

A população da costa da Somália não vem enfrentando apenas as dificuldades de um longo período de conflitos e de grave seca; ela tem sido privada também dos recursos naturais necessários para sua subsistência e abastecimento. Os peixes capturados por navios estrangeiros, uma fonte de alimentos e proteína para as pessoas que vivem na costa ou perto dela. O desaparecimento de populações inteiras de peixes por causa da atuação de barcos pesqueiros estrangeiros é algo particularmente grave no momento em que as agências humanitárias da ONU têm falado da fome na Somália como ‘a mais grave crise alimentar do mundo’”.

Além disso, diz o relatório, os grandes pesqueiros estrangeiros levam a cabo ataques contra os pescadores somalis, com registros de destruição de barcos e até de assassinatos. Quando alguns no país se organizaram e criaram a Guarda Costeira Voluntária da Somália para se defender de toda esta rapina e violência, tomando navios e exigindo resgastes compensatórios para os crimes do “Ocidente”, as potências chamaram-nos de “piratas”.

O incidente de Faina

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O relatório da Global Policy Forum cita um episódio que ficou conhecido como o incidente de Faina. No dia 25 de setembro de 2008 a Guarda Costeira Voluntária da Somália interceptou na costa do país um cargueiro ucraniano chamado MV Faina. Os “piratas” anunciaram que haviam encontrado um carregamento de 33 tanques T-72 soviéticos e uma quantidade considerável de armas e munições que tinham como destino Mombaça, no Quênia.

Os militantes da Guarda Costeira Voluntária da Somália chegaram a ser perseguidos pelo destroyerde bandeira ianque USS Howard e pelo cruzador, também do USA, USS Vella Gulf, mas escaparam. Depois, conseguiram negociar um resgate de US$ 3,2 milhões com o misterioso proprietário da carga, sediado no Panamá. Depois, o MV Faina seguiu seu curso a caminho de Mombaça.

Segundo informações vazadas junto com os documentos diplomáticos do USA tornados públicos pela organização WikiLeaks, os tanques e o resto dos armamentos que foram desembarcados do MV Faina seguiram de trem para a cidade de Juba, no recém-criado país Sudão do Sul, onde há sangrentas disputas por território, tudo sob as vistas grossas dos capacetes azuis da ONU. O Parlamento queniano chegou a pedir explicações sobre o destino final da carga, mas o governo do Quênia se recusou a dar informações.

O chamado “incidente de Faina”, com um carregamento de contrabando de armas cruzando o chifre da África sem ser incomodado pelos destroyers e cruzadores das potências, também mostra, junto com as informações sobre a pesca ilegal e sobre o despejo de lixo tóxico das potências nas águas territoriais alheias, qual é o real propósito da presença de uma frota internacional de patrulha nos mares da Somália.

Este propósito não é outro senão, além de garantir o sossego do vaivém legalizado de mercadorias nos termos do comércio internacional imposto pelo “Ocidente” às miseráveis nações africanas, escoltar os verdadeiros navios piratas que singram aqueles mares, protegê-los das ações de objetivo compensatório para a Somália da parte da Guarda Costeira Voluntária daquele pobre país.

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