Teatro com garra e alegria

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Teatro com garra e alegria

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Há vinte e oito anos, esbanjando risos e despertando questionamentos no povo, o grupo de teatro de rua Alegria Alegria trabalha os aspectos da cultura popular do Nordeste, com textos que falam da luta pela terra, corrupção, escândalos políticos, exploração e tudo que oprime o povo. O grupo já percorreu praças, centros, periferias, bairros importantes e simples comunidades, como a de cortadores de cana, levando sua mensagem por várias cidades brasileiras e até para o exterior, não se furtando de ir ao encontro do povo.

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O Auto do Caldeirão conta a história do massacre de Santa Cruz do Deserto

O Alegria Alegria nasceu quando um grupo de atores de Natal, RN, resolveu se juntar e chegar mais próximo do povo, através de um grupo de teatro de rua.

— Saindo das amarras da ditadura, o espaço rua veio naturalmente como o anseio de uma liberdade sonhada. Um voo rumo ao infinito, a vontade de mudar as coisas, de chegar perto do povo falando não somente da nossa felicidade de estar ali, mas, alertando para a possibilidade de mudança, de uma sociedade melhor — conta Grimário Farias, um dos fundadores e líder do grupo que tem dez atores.

— Nossa inspiração e aprendizagem vieram dos mestres da cultura popular, a alegria do Boi Calemba, suas danças e música.

A forma de ocupar a roda foi apreendida dos famosos “homens da cobra”, que ocupavam as ruas vendendo suas meizinhas, com seus truques e traquinagens prendendo a atenção da plateia — continua.

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— Aliado a tudo isso tem a vontade de dizer coisas, de provocar a plateia, abrir ao máximo o espetáculo para que aquele que nos assiste sinta-se a vontade para intervir, fazendo seu comentário durante o espetáculo, e não somente ao final quando, geralmente, temos uma conversa com o público. Também tem a experiência dos contatos em festivais e encontros com pessoas como Amir Haddad, Lindolfo Amaral e tantos outros que se tornaram incentivadores e parceiros nessa aventura que é o Teatro de Rua — acrescenta.

O grupo trabalha textos de autores brasileiros, especialmente nordestinos, e algumas adaptações de clássicos mundiais, além de criar seus próprios textos, principalmente para intervenções em greves, manifestações e campanhas de apoio a alguma reivindicação popular.

— Fazemos um trabalho junto a sindicatos e associações, que começou dentro dos canaviais, em campanhas pelo salário dos cortadores de cana, e continua onde quer que possamos ir. Procuramos chamar atenção de todos para esse assunto e também nos apresentar nesses locais — comenta.

Lutas e espetáculos

— Nosso primeiro espetáculo foi As Aventuras de Pedro Malazartes, do dramaturgo natalense Racine Santos, que foi adaptado de folhetos de cordel. Conta a hilariante aventura de um anti-herói, sendo mudado durante os anos em que foi representado graças a participação do povo. A peça rendeu mais de 2.200 apresentações em todo o Brasil, Portugal e Chile — declara.

— Depois encenamos Os Cacos, falando de salários atrasados, reivindicando saúde, educação, justiça, criticando a corrupção e todas as mazelas da sociedade. Foi um estopim aceso que terminou por fazer surgir no Rio Grande do Norte um grande número de grupos teatrais de rua, o que acabou por se constituir num movimento denominado Escambo Teatral de Rua.

Escândalos políticos do governo levaram o grupo a investir em uma adaptação de O Inspetor Geral, de Gogol.

— Escancaramos as entranhas do poder com seus tipos trapaceiros e nojentos a enganar o povo com suas artimanhas. Nosso espetáculo atual, O auto do caldeirão, do dramaturgo cearense Oswald Barroso, traz um episódio histórico acontecido no estado do Ceará, com a participação de um grande número de norte-rio-grandenses — conta.

— Sob o comando do Beato José Lourenço, um bando de romeiros cuidava do sítio pertencente ao Padre Cícero e mesmo sem água, racionando a comida e trabalhando muito, o transformou num lugar produtivo ao ponto de chamar a atenção da burguesia, da Igreja e do governo, que temiam a formação de uma nova Canudos. Mostramos, aqui, a luta do povo por terra, trabalho e pão — continua.

— Uma pesquisa no local constata que 75 por cento da população eram de potiguares. Como tinha acontecido em 1935 o Levante Comunista em Natal, o governo do Ceará, com ajuda do Governo Federal, invade o Sítio Caldeirão por terra e pelo ar, mata, prende os sobreviventes, destrói e queima casas e plantações. Justificativa: eram todos comunistas fugidos de Natal. Foi a primeira vez que a Força Aérea Brasileira foi usada contra brasileiros, isso em 1936 — acrescenta.

O Alegria Alegria convive com várias dificuldades e o altíssimo preço dos aluguéis fez com que o grupo perdesse sua sede.

— Assim, escolhemos uma praça da cidade, num bairro de periferia e a ocupamos, denominando-a de “nossa sede”. Ali fazemos nossas apresentações. Até o momento, não fomos importunados, mas somos bastante “danados” para enfrentar os fiscais do poder e contamos com a ajuda das pessoas que nos assistem. Até porque o teatro de rua está sujeito ao sol, à chuva e a ira dos poderosos. Esses são nossos principais problemas — expõe.

— O desrespeito ao nosso trabalho por parte das “otoridades” é o que mais nos preocupa. Antes, os artistas tinham liberdade para ocuparem as ruas, hoje, está existindo um cerceamento desse direito com cobranças de taxas, e/ou até mesmo, pedidos de licença para as apresentações. A prefeitura de Natal, na atual administração do Partido Verde, tem ameaçado os artistas com tais cobranças, dizendo que é para que possam organizar melhor essa ocupação. Pura balela, o que querem mesmo é dificultar a chegada dos artistas até as praças e ruas — comenta.

— Nosso objetivo e planos para o futuro são lutar para conseguir a nossa sede, porque ter um espaço é importante para o nosso melhor desenvolvimento, continuar montando espetáculos, e por cima de pau e pedra invadir as praças e ruas com muita Alegria e Alegria — finaliza Grimário.

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