Tocador e artesão de viola

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Tocador e artesão de viola

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Compositor, violeiro e artesão de violas e outros cordofones, Levi Ramiro mistura em suas canções elementos que formam a música brasileira e valores da cultura caipira, a poesia e a simplicidade da vida na roça. Natural de Uru, interior de São Paulo, tem sua trajetória marcada inicialmente pelo violão, com o qual fez suas primeiras composições e participou dos primeiros festivais, e pela viola, que adotou há mais de quinze anos, absorvendo todo seu universo cultural, que veio de encontro com suas raízes musicais e culturais interioranas.

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— Saí cedo da roça, aos oito anos de idade, indo morar em Campinas. Porém, lá tive contato com uma dupla que tocava caipira, mas no violão mesmo, que começou a me ensinar os primeiros acordes. Nessa época estava com treze anos de idade. Depois comecei a me interessar por música popular brasileira de uma forma geral, saindo um pouco desse universo da música raiz — conta Levi.

— Comecei a tocar violão em um barzinho de Campinas, e fui entrando no mundo dos festivais, inclusive ganhando alguns, ainda com o violão. Em 1995 adotei a viola como instrumento, influenciado pela música do Dércio Marques, Elomar e outros no estilo que muito aprecio. E isso ampliou muito meu trabalho de composição — acrescenta.

Levi diz que o fato de ter largado o violão para tocar viola está ligado à possibilidade que o instrumento tem de novas descobertas.

— A viola é um cordofone de origem árabe, que chegou no Brasil pelos portugueses, se fixando na zona rural, mas acabou expandindo sua área de atuação. Hoje ela toca na mão de chorões, de músicos com formação erudita, e outros. Ela não é tão dogmática quanto o violão, que tem uma escola. É um pouco mais livre — explica.

— Além de ter um timbre maravilhoso, é um instrumento incrível e com inúmeras afinações, e cada uma possibilita a pessoa se encontrar com o instrumento de uma forma diferente. Eu mesmo toco em três afinações. E através das suas diferentes afinações, timbres e outras possibilidades, surge uma imensa vontade de tocar. Então é um perigo a pessoa que toca outros instrumentos se aproximar dela, porque geralmente larga para tocar viola (risos) — brinca.

Levi Ramiro tem um trabalho autoral, com cinco discos gravados, em que a viola é a espinha de tudo.

— Tanto minhas composições instrumentais como canções, é uma mistura de música popular em geral e a música regional. Tenho músicas falando da terra, da natureza, da vida e de drama pessoais também, sempre com aquela cara regional caipira. Gosto também de trabalhar em parceria com os companheiros que vou conhecendo pelo caminho — comenta.

— Meu mais recente trabalho é Trilha dos Coroados, um disco temático e todo instrumental. Li algumas coisas sobre a construção da ferrovia aqui na região de Baurú. Na época ocorreu um grande genocídio indígena, e com esse tema gravei o disco. Inclusive Trilha dos Coroados é um nome popular entre nativos que moravam aqui, os caingangues — expõe.

Levi mora atualmente em Pirajuí, na região Baurú, interior paulista, por uma questão de escolha por uma vida mais tranquila, e sai pelo Brasil com apresentações solo, em duo, trio ou o que mais pedir o momento.

— Odeio o estilo de vida dos grandes centros. Mas não tenho uma vida exatamente rural, na roça mesmo, moro em um pequeno distrito. Porém os trabalhos acabam sendo nas grandes cidades. Normalmente os lugares que mais me apresento são as unidades dos Sescs e alguns teatros, além das festas folclóricas e os projetos, como o ‘Encontro de Violeiros’. Mas acho que está precisando surgir mais programas de música de qualidade, tanto no rádio como na televisão — declara.

— Temos alguns ótimos, como o do Luiz Rocha, na TV Câmara, da Inezita Barroso e do Rolando Boldrin, na TV Cultura, no qual já me apresentei umas duas vezes, e do Geraldo do Norte, da Rádio Nacional do Rio, que é um grande amigo. Porém, ainda são poucos diante da quantidade de gente produzindo música boa no país. É muito importante surgir novos espaços para divulgar nosso trabalho, além da internet que tem servido muito nesse sentido — afirma.

Fabricando seu próprio instrumento

Levi participou do primeiro grande ‘Festival de Música Instrumental para Viola’, 2004, ficando entre os dezesseis finalistas. No ano seguinte foi selecionado no projeto ‘Rumos Musicais’, com material registrado em CD e DVD. Em 2008 participou do primeiro Seminário Nacional de viola Caipira, e em 2009/2010 se apresentou como anfitrião no Circuito Syngenta de Viola Instrumental, circulando por várias cidades do país.

Além da música, ele desenvolve a atividade de artesão de instrumentos musicais, já que não gosta que o chamem de luthier, nome dado aos fabricantes de instrumentos.

— Não me considero um luthier mesmo, porque não fabrico viola para vender em grande escala e nem dentro de padrões. Faço instrumentos com material reciclado, um trabalho mais inventivo. Por exemplo, pego uma cabaça e transformo numa viola. E nada padronizado, primeiro faço e depois vejo o que vai dar. Daí nasce o que tiver que nascer (risos). Então podem dizer que sou um artesão de violas e outros cordofones. Ou melhor, que sou um músico que fabrica instrumentos musicais quando tem um tempo vago — define Levi.

— Agora estou trabalhando bastante também como diretor de estúdio. Já dirigi três discos e estou terminando agora o CD de uma dupla do interior. Também tenho ministrado oficinas de música e fabricação de instrumentos. E continuo me apresentando por toda parte como violeiro, e compondo músicas e letras, sendo que prefiro mais fazer música, porque acho que flui melhor em mim — conclui.

Levi Ramiro já ministrou várias oficinas de fabricação e toques de viola pelo país, principalmente São Paulo, Bahia e Minas Gerais, tendo como destaque a oficina “Fabricação da viola brasileira feita com cabaça”. Para entrar em contato com o artista: [email protected]

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