Tom da Bahia e a “nossa Grande Família”

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Tom da Bahia e a “nossa Grande Família”

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A famosa dupla Tom e Dito é autora da música-tema do seriado A Grande Família, da Rede Globo (e batalha na justiça para receber pelos direitos autorais), além de incontáveis sucessos em versões próprias e nas de artistas consagrados. Tom recebeu na sua casa a reportagem da AND, para uma animada conversa.     

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De espírito irrequieto, Antônio Carlos dos Santos Pereira, o Tom da Bahia — maestro, cantor, compositor, arranjador e multi-instrumentista — é um turbilhão de criatividade.

Vive literalmente mergulhado na música. No mesmo quarto onde dorme, convivem violões, baixo, piano, teclado, cavaquinho e uma infinidade de instrumentos de percussão e de diversos efeitos sonoros, ademais da parafernália eletrônica que completam um verdadeiro estúdio de gravação.

Do som do seu computador do estúdio nos faz conhecer seus novos projetos ainda inacabados. Tom está aprimorando seu próximo CD, que traz antigos sucessos rearranjados e músicas inéditas, composições próprias, só e em parceria. Revela-nos seu jeito de gravar: valendo-se da sua maestria num sem-número de instrumentos, ademais da bela voz, sozinho vai registrando cada faixa. Qual refinado artesão, vai montando sua obra: instrumento a instrumento, som a som.

Soteropolitano em Mi Menor

Com o entusiasmo de um garoto, pega o violão, vai lembrando suas canções, e nos conta um pouco da sua vida:

— Desde moleque, sempre tive vocação para música, minha mãe gostava de cantar (até hoje Dona Edith, com seus 95 anos, continua cantando) e um tio tocava pandeiro e esse foi o meu primeiro instrumento. Todo ano, durante a festa da lavagem do Bonfim, em frente da igreja se reuniam jovens, adultos, turistas. As pessoas levavam tamborins, atabaques… e ali me encontrei certo dia com um amigo que trazia o seu violão. Ele fez o acorde Mi Menor, me emprestou o instrumento e repeti o acorde. Ao ouvir o som que eu tinha conseguido reproduzir, senti uma emoção tão grande que nesse momento decidi que queria ser músico.

— Cheguei em casa e pedi a meu pai que me comprasse um violão. Éramos pobres, meu pai funcionário público e minha mãe professora, a vida era difícil. Mas eu insisti tanto que acabou comprando. Era um violão muito humilde, todo pintado, mas eu lhe peguei muito amor. Aprendi rapidinho e comecei a ser requisitado para fazer serenatas e acompanhar os seresteiros. Certo dia, estando com os amigos, depois de tocar fomos dar uma passada num clube e deixei o violão no carro deles. Ao voltar, vimos que o carro tinha sido arrombado e o violão roubado. Caí no choro. Tinha 15 ou 16 anos. Mas o pessoal ficou tão sensibilizado com a minha tristeza que se juntou e foi a uma loja das boas e adquiriram um violão maravilhoso de jacarandá, que conservo até hoje. Depois, fiquei sabendo que a compra tinha sido feita no crediário. Só deram conta de pagar umas duas prestações. Eu não tive culpa, nem sabia, mas a loja acabou indo à falência — relembra com humor.

Vieram diversas apresentações em rádios e TVs locais de Salvador, porém a consagração seria no Rio de Janeiro: A notável participação do Inema Trio composto por Toninho (Tom), Expedito Machado de Carvalho (Dito) e Douglas Rocha no programa da TV Tupi “A Grande Chance”, de Flávio Cavalcanti, que era uma coisa séria, sem jabás nem maracutaias, com julgadores capacitados, lhes possibilitou projeção nacional. O Inema Trio, junto com outros nove artistas iniciantes, venceu o Festival A Grande Chance, de 1968, interpretando a composição Upa Neguinho. Então surgiram os convites para gravar, fazer shows, etc. O problema era que para seguir a carreira, deviam se mudar definitivamente para o Rio e o Douglas, por causa da sua família, desistiu e acabou voltando para Salvador. É então que nasce Tom e Dito. A dupla se consagra rapidamente. São convidados a se apresentar nos programas de maior audiência da TV, gravam oito LPs e vários compactos. É neste período extremamente prolífico que compõem seus grandes sucessos. Muitos deles virariam clássicos nas vozes de grandes artistas como Alcione, Tamba Trio, Doris Monteiro, MPB4, Jair Rodriguez, Dudu Nobre, Jorginho do Império, Antônio Carlos e Jocafi…

No início da década de 80, Dito decide voltar para Salvador, desfazendo-se assim a dupla. Então Tom assume o nome artístico de Tom da Bahia, iniciando a carreira solo e compondo em parcerias eventuais. Entre seus novos trabalhos, se destaca um CD lançado recentemente pela Academia Brasileira de Letras, com poemas de Machado de Assis e música do Tom.

Direitos autorais da Grande Família

— Se você perguntar, as pessoas vão dizer que A grande família é do Dudu Nobre. Compusemos essa música em 1972, ele nem tinha nascido. É muito injusto a gente não receber um centavo pelo uso da nossa obra passando toda hora na TV. Mas, pior do que isso é a maldade de apagar teu nome. Eu sei que tenho um lugar na história da música brasileira e eles estão querendo tirar isso de mim e do Dito. A grande família é nossa! Arranjaram um papel dizendo que tínhamos vendido essa obra e outras mais para uma gravadora que já fechou. Nem eu nem o Dito nunca assinamos um contrato desses. Isso é falso — desabafa indignado.

A luta é dura, já que a Globo conta com um batalhão de advogados. Porém, Tom não desanima e nos mostra o documento obtido ante o ECAD, certificando seus direitos.

Rapidamente se recompõe e retorna ao seu bom humor habitual. Afinal, logo vai partir para fazer o que mais gosta:apresentar-se ante o público para cantar. Atualmente toca a noite no Restaurante Arosa, em Copacabana, e prepara o lançamento do seu próximo CD.

Contato para shows pelo telefone (21) 9879-0268

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