Um milhão nas ruas do Rio

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Um milhão nas ruas do Rio

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Juventude resiste à violência do Estado

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Na última edição de AND divulgamos a manifestação do dia 17 de junho que, até então, havia sido a maior das últimas décadas na capital fluminense. No entanto, em 20 de junho a população carioca deu nova demonstração de energia e cerca de um milhão de pessoas foram às ruas.

Quando nossa reportagem chegava ao Centro da cidade em direção à Candelária, onde estava marcada a concentração, nos deparamos com uma multidão saindo do metrô, dos trens da Central do Brasil e dos ônibus com faixas, cartazes e cantando palavras de ordem. Cenas emocionantes que arrancaram simpatia de outras milhares de pessoas que estavam nos prédios do Centro e lançaram papéis pelas janelas, um tradicional gesto de apoio da população às manifestações de rua.

As diversas organizações presentes também levaram suas reivindicações que iam desde mais verbas para saúde e educação até a punição para corrupção, e palavras de ordem mais politizadas criticando os “governos” de plantão e suas medidas antipovo, exigindo o fim da violência policial contra o povo pobre, etc. Duas faixas assinadas pela Frente Revolucionária de Defesa dos Direitos do Povo (FRDDP) sustentavam: ‘Abaixo o Estado fascista e seus governos antipovo e vende-pátria!’ e ‘Viva a Revolução de Nova Democracia’.

A manifestação corria de forma tranquila quando um tumulto surgiu em frente à prefeitura, na Cidade Nova. A tropa de choque da PM iniciou as agressões contra os manifestantes. Daí pra frente armou-se a praça de guerra. Milhares de pessoas enfrentaram corajosamente a polícia. Diversas barricadas em chamas foram erguidas na Avenida Presidente Vargas. Dezenas de agências bancárias, grandes lojas, radares de trânsito e pontos de ônibus foram destruídos e incendiados pelos jovens.

As bombas lançadas contra a multidão eram jogadas de volta contra o choque e, num determinado momento, numa das cenas mais combativas já vistas no Rio de Janeiro, os manifestantes colocaram o famigerado ‘Caveirão’ da PM para ‘correr’.

Cerca de 4 mil bombas de gás (grande parte delas fora da validade) foram jogadas pela polícia, acabando com o estoque. Após a dispersão na Pres. Vargas, vários focos de protestos surgiram por todo o Centro. Na Lapa, houve novo confronto e pessoas que estavam no local afirmaram aos canais de TV e jornais que a polícia não distinguia quem era ou não manifestante. Bombas e balas de borracha chegaram a ser lançadas dentro de estabelecimentos comerciais ferindo várias pessoas. Cerca de 40 pessoas ficaram feridas, entre elas um policial e dois guardas municipais. Algumas delas foram levadas para o Hospital Souza Aguiar.

— A multidão estava caminhando em direção à prefeitura quando teve início o confronto. Muitas bombas foram lançadas contra os manifestantes, fazendo com que muita gente passasse mal. Depois, quando o ato acabou, os policiais iniciaram uma caçada pelo Centro. Na região da Lapa, o policiamento estava bastante reforçado e muita gente que não tinha nada a ver com o protesto também foi alvo do gás. Eu nunca tinha visto um confronto tão grande – relatou o estudante Emerson Oliveira.

No dia seguinte, o monopólio da imprensa e seus diversos canais vomitaram ódio contra os manifestantes repetindo, praticamente 24 horas por dia, as palavras “vândalos” e “pequeno grupo”, como se umas poucas pessoas fossem capazes de causar tamanho enfrentamento nas ruas da cidade. Quem lá estava conferiu que quem iniciou o confronto foi a polícia e que esses tais “vândalos” estavam aos milhares demonstrando sua raiva contra a repressão.

— Violência não gera violência? A polícia começa e a gente vai ficar tranquilo? Não vai fazer nada? Vai levar um tiro, vai chegar em casa, vai estar todo machucado e vai fazer o que? A gente não pode andar pra trás! Então, se a gente tem que revidar, é pedra na mão, a única ‘arma’ que a gente tem, pois ninguém aqui está com arma dando tiro na polícia… E a gente tem que revidar mesmo, porque se a gente não revidar, a coisa vai continuar do mesmo jeito, a gente vai sofrer a violência do mesmo jeito – disse outra manifestante ao repórter de AND, Patrick Granja, no vídeo que pode ser visto no link: https://anovademocracia.com.br/blog/?p=5800

Plenária decide rumos do movimento

Após esta grande prova de disposição da juventude carioca, uma plenária foi realizada no dia 25 de junho, no Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (IFCS) da UFRJ, no Centro da cidade, para planejar os rumos do movimento. Centenas de pessoas eram esperadas nessa reunião que, de fato, lotou e teve que ser realizada na praça em frente ao prédio. As decisões da plenária acertaram um novo protesto para o dia 27 de junho e outro para a tarde do dia 30 em conjunto com o Comitê Popular da Copa.

Apesar de a plenária estar composta também por estudantes independentes, algumas organizações oportunistas, como PSTU, PSOL e PCdoB, estiveram na mesa e tentaram manobrar as decisões de acordo com seus interesses. Burocratizaram e prolongaram os debates, visando com que as pessoas aos poucos se retirassem e sobrassem apenas seus militantes para votar as propostas. Mas não conseguiram seus intentos completamente e foram desmascarados pelas massas.

As decisões da Plenária foram:

Ato no dia 27: concentração na Candelária e marcha até a Fetranspor (Federação das Empresas de Transportes), passando pela Cinelândia.

Ato no dia 30, na final da Copa das Confederações, à tarde, saindo da Praça Saens Peña, na Tijuca, rumo ao Maracanã. PSOL, PSTU e outros grupos defenderam a realização de outro ato pela manhã, o que foi aceito com a condição de que a manifestação da manhã se mantivesse mobilizada para o protesto da tarde.

Na mesma plenária foram rejeitadas inúmeras propostas de reivindicações feitas pelo oportunismo e logrou-se certa unidade em torno de três pautas principais: tarifa zero, desmilitarização da polícia e liberdade para todos os manifestantes presos.

Dia 27: mais luta!

Em 27 de junho, a manifestação prevista reuniu cerca de 10 mil pessoas e voltou a ocupar o Centro. Dessa vez, amedrontados com a fúria popular, as “autoridades” deslocaram para essa região da cidade um enorme aparato policial. Em cada quarteirão, bem como na Candelária, Cinelândia e ruas adjacentes centenas de PMs estavam a postos com escudos.

O ato saiu da Candelária pela Av. Rio Branco indo em direção à Cinelândia, cercada por policiais na frente, atrás e dos lados, fora os PMs à paisana, infiltrados entre os manifestantes.

Chegando à Cinelândia, os carros de som de sindicatos e siglas oportunistas estacionaram e conclamaram para o encerramento da manifestação, contrariando o que havia sido decidido na plenária. Confrontados, justificaram-se dizendo que “manifestantes radicais criariam tumulto”.

Diante de tamanha desfaçatez, a massa rejeitou, mais uma vez, a direção oportunista dizendo que “o povo é quem comanda!” e continuou a marcha, deixando pelegos e traidores falando sozinhos.

Manifestantes também levaram suas mensagens de repúdio ao massacre levado a cabo pela Polícia Militar no Complexo da Maré poucos dias antes da manifestação. Numa grande faixa da Rede de Comunidades e Movimentos Contra a Violência podia-se ler: “A polícia que reprime na avenida é a mesma que mata na favela”.

Por que protestam?

Nossa reportagem também conversou com o professor de História da rede estadual do Rio de Janeiro, Filipe Proença, presente na manifestação de 20 de junho:

“Como professor de História e participante das lutas contra o aumento desde 2007, na época militando no MPL-RJ, não poderia ficar indiferente às recentes mobilizações. Participei do ato e pude perceber a forma como Estado usa seu aparato para reprimir as manifestações populares. Estive lá e vi, a polícia iniciou do nada um confronto. Os manifestantes caminhavam e quando chegaram às portas da prefeitura começaram a ser atacados com bombas de efeito moral e gás lacrimogêneo. Depois foram cenas de verdadeiro terror, os manifestantes encurralados até a Central e as luzes da Av. Pres. Vargas foram apagadas.

A mídia fala muito em vandalismo, mas o que eu vi foi uma reação da juventude, que foi covardemente agredida e encurralada pela PM. Quando imigrantes franceses ou jovens das periferias de Londres se revoltam, a imprensa não cessa de falar em revoltas populares. Quando acontecem aqui, essa mesma imprensa fala em ‘vandalismo’ e ‘baderna’. Vandalismo é o que os governos vêm fazendo com os trabalhadores, com a saúde, educação. Em especial a repressão vândala que tem se dirigido contra os mais pobres e moradores de favelas. Não podemos esquecer que essa é a mesma polícia que mata nas favelas e periferias da cidade, a mesma polícia herdeira da ditadura militar. O Estado brasileiro sempre tentou resolver a questão social como caso de polícia. Depois ocorreu um verdadeiro estado de sítio do Centro do Rio até o bairro das Laranjeiras, quando a PM cercou universidades e evacuou quase todos os bares com o uso da violência, usando até mesmo armas letais.”

Ao longo das últimas duas décadas, o jornal A Nova Democracia tem se sustentado nos leitores operários, camponeses, estudantes e na intelectualidade progressista. Assim tem mantido inalterada sua linha editorial radicalmente antagônica à imprensa reacionária e vendida aos interesses das classes dominantes e do imperialismo.
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