Uma conversa a três: Aznar, Bush e Néstor Kirchner

Uma conversa a três: Aznar, Bush e Néstor Kirchner

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Muito importante a revelação do canal argentino Urgente 24, que no dia 22 de agosto reproduziu a conversa mantida em 23 de julho por George Bush e Néstor Kirchner sobre o motivo da visita do mandatário argentino ao USA.

O assunto tem plena vigência no início de uma semana que se presume chave para os interesses da “utilities” estrangeiras — entre as quais se encontram, naturalmente, várias proeminentes empresas espanholas afincadas na Argentina, que esperam uma revisão das tarifas dos serviços públicos que prestam, congeladas há muito tempo.

O “cidadão K” tem recebido plenos poderes do Senado argentino para operar, ainda que o que possa fazer este homem — com as tarifas e com a própria Argentina — continue sendo um mistério.

Mas, voltemos ao encontro Bush-Kirchner, que é revelador das correntes subterrâneas que movem as relações entre países, das favoráveis consequências que para a Espanha têm o apoio à política ianque de luta contra o terrorismo — sendo o terrorismo o primeiro problema espanhol — e do escasso apreço que na Casa Branca têm populismos como o que pratica o “amigo K”.

Os pormenores da entrevista têm sido cuidados — por motivos desconhecidos, mas fáceis de imaginar — pelo adjunto ao presidente do USA para assuntos latino-americanos, Roger Noriega, em visita a Buenos Aires no final de agosto.

O conteúdo do diálogo foi lido, com pontos e vírgulas, na manhã do citado dia 22, pela rede Rádio 10 — que “coincidentemente” é controlada pela holding ianque Emmis Communications — e Urgente 24, que com a sagacidade que lhe é característica, imediatamente fez eco. Salvo erro ou omissão, nenhuma só referência a este diálogo apareceu nos meios de comunicação espanhóis.

As palavras de Bush são meridianamente claras em defesa dos interesses espanhóis na Argentina, e vêm demonstrar o grau de estreita e real amizade que hoje une George Bush e Jose Maria Aznar, ambos disposto a se mostrar diante de Kirchner como uma unidade indivisível. Detalhe: a entrevista durou 13 minutos e 36 segundos. Bush falou por 9:55 (tempo suficiente para ler a cartilha a seu convidado) e Kirchner 3:41 (balbucios incluídos).

Nas saudações protocolares se perderam 40 segundos!

Este é o trecho da conversa reproduzida por Urgente 24:

George Bush: Presidente, mandei chamá-lo pelo expresso desejo de meu amigo, o presidente Aznar, que ficou um tanto preocupado pelo efeito que teve sua recente viagem pela Europa, especialmente pelas dúvidas que suas palavras deixaram entre os empresários espanhóis durante sua visita a Madrid, que têm muitas inversões de capital em seu país.

Néstor Kirchner: Presidente, agradeço o convite. Minha viagem pela Europa foi exitosa. Assim como é certo que houve um intercâmbio de opiniões com empresários, não creio que estas diferenças são para tanto.

GB: Reitero que o chamei para manifestar-lhe que o presidente Aznar é meu amigo pessoal, além de amigo do USA, como ficou demonstrado no papel que a Espanha desempenhou nesta guerra no Iraque, e, se ele está preocupado eu também estou. Além disso, é importante que você saiba que todas as questões de Estado referidas à América Latina são de interesse do USA e de seus aliados, como hoje é a Espanha. Nos preocupam algumas questões pontuais, como a Colômbia, a Tríplice Fronteira ou a situação da Bolívia, pelo avanço da esquerda.

NK: Por isso não se preocupe, não sou de esquerda, mas peronista. Ademais, a esquerda latino-americana tem se modernizado muito ultimamente. Veja o caso do Brasil.

GB: Por isso não me preocupo. Com o presidente Lula estamos em um magnífico momento de nossas relações bilaterais. De fato, para nós, Lula hoje é o principal aliado na América Latina e um seguro de que a liberdade, o capitalismo e a democracia serão as idéias-força preponderantes na região.

NK: Presidente, meu país tem sofrido muito nos últimos anos, uma situação da qual está disposto a sair e eu estou convencido de que assim será. Para nós, é muito importante o apoio do USA neste processo.

GB: Desde agora, o apoio é total. Saiba você que o segredo do êxito não está tanto nos apoios internacionais que possa conseguir —muito importantes, por certo —quanto na habilidade dos dirigentes para conduzir a crise e no interesse de um povo para superá-la. Para o USA, a guerra contra o terrorismo significa uma nova batalha que devemos superar no definitivo caminho até a liberdade de todos os povos do mundo. Porque, como você, e nisto somos muito estritos, não apoiamos regimes nem governos que não proponham estes princípios básicos para o desenvolvimento humano.

NK: Na América Latina apoiamos também a luta antiterrorista. É um flagelo tremendo que os argentinos têm sofrido na própria carne e que não queremos voltar a padecer nunca mais. Saiba que tem um aliado para esta causa neste presidente.

GB: Obrigado por suas palavras. Estou seguro de que a Argentina retomará seu rumo rapidamente e que conseguirá superar esta crise. Espero que seu povo o acompanhe nesta difícil tarefa. Muito obrigado novamente por seu apoio e espero que goste de nosso país.

NK: Muito obrigado, presidente.


Toledo e Lula, aliança estratégica do imperialismo

Luis Inácio, o “bem amado” presidente do Brasil, chegou ao Peru (domingo, 24 de agosto), segundo a versão oficial para “estabelecer com seu homólogo peruano, Alejandro Toledo, uma aliança estratégica binacional. Nesse sentido, ambos subscreveram na segunda, 25 de agosto, os acordos de livre comércio, integração viária e vigilância da Amazônia. A visita de Luis Inácio também levantou o telón de um novo cenário: o ingresso do Peru no Mercosul”.

Luis Inácio chegou acompanhado de uma centena de empresários de seu país e, como havia dito à imprensa peruana, assinou um acordo com Toledo no qual ambos os países acordam em fortalecer o Mercosul. Conhecendo a política de Toledo (pró-imperialista e reacionária) e a de Lula (demagógica, mas tão de direita quanto a de Toledo), não cabe dúvida que esta aliança deverá favorecer a exploração do povo peruano e entregar maiores vantagens para as transnacionais imperialistas.

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