UPP ataca moradores da Cidade de Deus e Morro dos Macacos

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UPP ataca moradores da Cidade de Deus e Morro dos Macacos

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Apesar da incessante campanha do monopólio dos meios de comunicação de apoio ao processo de militarização de favelas no Rio de Janeiro, moradores dos bairros militarizados seguem denunciando inúmeros abusos cometidos por policiais das Unidades de Polícia Pacificadora.

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Moradores revoltados viram carro em rua do morro dos Macacos

No bairro de Vila Isabel, zona Norte da cidade, moradores do Morro dos Macacos fizeram um combativo protesto na porta da 20ª DP depois que policiais da UPP tentaram acabar com uma festa dando tiros para o alto. Os estilhaços de um dos disparos teriam ferido cinco pessoas, entre elas uma criança de colo. Na Cidade de Deus, zona Oeste, o fotógrafo e morador Tony Barros flagrou o momento em que PMs da UPP acabaram com uma festa de carnaval, agrediram moradores e dispararam vários tiros para o alto.

No início de março, lamentáveis episódios envolvendo as Unidades de Polícia Pacificadora e moradores das favelas militarizadas revelaram o caráter fascista da ocupação policial permanente de bairros pobres e despertaram a revolta de suas populações. Os conflitos desmascaram, em um curto espaço de tempo, o “modelo de militarização” que Dilma Roussef prometeu implantar em todo o Brasil. Quando o assunto é UPP, diante da cortina de fumaça forjada pelo monopólio dos meios de comunicação, poucas pessoas tomam conhecimento do regime de exceção empregado pelos gerenciamentos de turno nessas favelas.

Na Cidade de Deus, no dia 9 de março, um baile de carnaval foi interrompido depois que policiais ordenaram que o som fosse desligado e começaram a atirar spray de pimenta contra a multidão que se divertia. Escondido atrás de um poste, o fotógrafo Tony Barros filmou a ação policial. As imagens mostram moradores indefesos sendo agredidos com golpes de cassetete e PMs, a todo momento, disparando tiros de pistola para o alto.

Câmera quebrada por PMs

No momento em que um dos policiais percebeu que estava sendo filmado, partiu para cima do fotógrafo, que o alertou: “Não vou dar a câmera. Sou Tony Barros, fotógrafo e jornalista”. Mesmo assim, o policial tomou o equipamento de Tony e jogou no chão. Contudo, o cartão de memória da câmera ficou intacto e as imagens foram divulgadas pelo fotógrafo no dia seguinte.

— O carnaval da Cidade de Deus estava muito bom para ser verdade, com várias apresentações de artistas da comunidade. Os moradores nem queriam sair da comunidade, muitas fantasias e muita alegria nos rostos dos moradores, mas no último dia aconteceu o inesperado — lamenta Tony.

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Revolta contra agressão policial na Cidade de Deus gerou protestos e deixou estragos nas ruas

A polícia veio com tudo para cima do som e das pessoas que ali estavam. Eu, Tony Barros, já estava saindo quando vi o tumulto de pessoas vindo em minha direção, e em seguida a polícia baixando a paulada nas pessoas. Fiquei encurralado registrando tudo que podia ver. Quando a polícia me viu registrando, veio na minha direção para tomar a câmera fotográfica. Eu me identifiquei, e nada adiantou: o policial meteu a mão em minha câmera — relata o fotógrafo.

Quando falei com o policial que ele havia quebrado minha câmera, ele disse: “Prova que eu quebrei”. A única defesa, tanto para eles quanto para o morador, é o registro que eu estou fazendo. No mesmo momento em que estava ali reivindicando o material, outros policiais chegavam como se tivessem vindo de uma partida de futebol, vibrando com o que fizeram: “Viu o que eu fiz? Peguei aquele!”; “Quebrei tudo!”. — denuncia Tony.

Saí dali desolado sem saber o que fazer. Depois só me restou pegar uma câmera de outra pessoa e fazer o registro de tudo quebrado, as cápsulas ao chão e tudo mais — conta, reiterando que o episódio do dia 9 de março é apenas um de muitos casos de abusos contra moradores da Cidade de Deus.

Combativo protesto

Menos de uma semana depois, no dia 13 de março, PMs da UPP do Morro dos Macacos foram  a um bar na esquina das ruas Silva Pinto e Corrêa de Oliveira garantir o arbitrário toque de recolher, acabando com uma festa dos moradores, que resistiram. Policiais então começaram a atirar e prenderam cinco pessoas. Outras cinco foram feridas pelos estilhaços dos tiros, entre elas uma senhora de 62 anos e uma criança de colo. Os presos foram levados para a 20ª delegacia de polícia e só foram liberados no dia seguinte.

Revoltados, cerca de 50 moradores foram para a porta da delegacia para protestar. Diante da indiferença dos policiais civis de plantão, moradores fizeram barricadas atravessando dois carros abandonados nas ruas Senador Nabuco e Souza Franco. A polícia foi chamada para reprimir o protesto, mas os manifestantes não saíram do local, dando início ao confronto. Pedras e paus foram atirados contra os policiais, que foram forçados a recuar para dentro da delegacia.

Eles atiraram na direção do bar, onde havia crianças, algumas de colo. Jogaram spray de pimenta em idosos. Têm vários moradores no hospital, atingidos pelos estilhaços. O policial que começou a confusão entrou no bar dizendo que só ia deixar a festa continuar se dessem 20 reais para ele. Eles acham que porque têm arma na cintura, farda, podem tratar a gente como lixo. Mas não podem, porque nós somos trabalhadores — diz uma moradora.

Eu corri para não me machucar, meu filho, mas um tiro acertou a minha perna — disse uma senhora, chorando.

Quando a UPP chegou aqui no morro, na inauguração, eles colocaram aquela música: “Eu só quero é ser feliz. Andar tranquilamente na favela onde eu nasci”. Mas era tudo mentira. A gente é oprimido e esculachado pelos policiais da UPP. Eles querem coca-cola de graça dos comerciantes, querem cobrar pedágio para o morador ir para casa. É tudo uma cambada de bandido fardado. Saiu o tráfico e entrou uma cambada de bandido fardado — protesta outra moradora.

Tem político corrupto, ladrão, estuprador por aí, mas eles não querem saber, só atacam quem é trabalhador, porque desses bandidos, eles têm medo. Comunidade, eles gostam de esculachar. Eles esculacham todos nós. Disseram que a UPP ia melhorar o morro, mas a nossa vida piorou depois que a polícia foi para lá — conclui.

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