UPP: Prisões, assassinatos e revoltas

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UPP: Prisões, assassinatos e revoltas

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As Unidades de Polícia Pacificadora não param de receber investimentos do setor privado. Coca-cola, Souza Cruz, Firjan, Bradesco Seguros, Light, CBF e a empresa EBX do multimilionário Eike Batista, já investiram juntas aproximadamente 60 milhões de reais na militarização das favelas do Rio de Janeiro.

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Morador do Pavão-Pavãozinho exibe as marcas da tortura que sofreu

Uma generosa contribuição das transnacionais e da grande burguesia ao regime de exceção imposto pelo Estado nessas periferias. No morro Pavão-Pavãozinho, em Copacabana, depois do assassinato de um trabalhador por PMs da UPP, uma das testemunhas do crime foi ameaçada, presa arbitrariamente e torturada por policiais. No morro do Turano, zona Norte do Rio, um levante de moradores terminou com três policias feridos e treze moradores presos.

Muitos dizem que a propaganda é a alma do negócio. O governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, certamente é um dos que professam essa máxima.

Além do apoio incondicional que recebe do monopólio dos meios de comunicação, encabeçado pelas organizações Globo, o gerenciamento estadual gastou de 2007 a 2010 nada mais, nada menos que 420,1 milhões de reais dos cofres públicos com propaganda, segundo dados do Sistema Integrado de Administração Financeira de Estados e Municípios (Siafem). Desse montante, a maior fatia foi investida em propaganda das UPPs, de acordo com uma nota da Secretaria da Casa Civil do Estado ao jornal O Estado de S. Paulo.

Todos que conhecem a dura realidade de quem vive sob a militarização têm de convir que é preciso muita propaganda para esconder o que de fato está acontecendo nessas favelas. Além dos abusos físicos e morais de PMs das UPPs, a proibição de atividades culturais é, destacadamente, uma das imposições que vem revoltando os moradores desses bairros pobres.

Moradores se levantam

No morro do Turano, zona Norte da cidade, um ano após o início da militarização, a revolta dos moradores veio a tona na noite do dia 13 de agosto. Depois de uma cansativa semana de trabalho, cerca de 400 moradores se divertiam em um baile funk na quadra poliesportiva da favela, quando foram interrompidos por PMs da UPP. Truculentos como de costume, os policiais desligaram o som e disseram que a festa tinha que acabar, já que após às 22h vigora o toque de recolher em todas as áreas militarizadas.

Indignados, alguns moradores iniciaram um combativo protesto contra a proibição. Com paus, pedras e coquetéis molotov, um grupo de 30 jovens resistiu e entrou em confronto com os PMs da UPP. A tropa de choque foi chamada ao local e atirou bombas de gás, balas de borracha e spray de pimenta contra os moradores. Treze deles foram presos. Uma moradora e cinco policiais ficaram feridos.

Há cerca de um mês, fiz uma solicitação ao comandante das UPPs, coronel Robson Rodrigues, para que liberasse o horário do baile pelo menos às sextas-feiras e aos sábados depois das 22h. Desde a implantação da UPP, a população está vivendo oprimida. O lazer não está liberado. Se a comunidade está pacificada porque não pode ocorrer o baile? Até o culto evangélico já foi proibido pelos policiais depois da chegada da UPP, mas essa situação nós conseguimos resolver — disse o presidente da Associação de Moradores do Morro do Turano, Gilson Rodrigues.

Assassinatos e prisões

Na última edição de AND, uma de nossas reportagens denunciou o assassinato do jovem André Cardoso de Lima Ferreira, de 19 anos, por PMs da UPP do morro Pavão-Pavãozinho. Depois da morte do rapaz, moradores começaram a sofrer represálias dos policiais que o assassinaram e de seus comparsas. De lá pra cá, em várias ocasiões, jovens que conheciam o rapaz foram detidos e agredidos por PMs. No caso mais grave, uma das testemunhas da execução de André foi presa arbitrariamente, mantida encarcerada por uma semana e torturada por policiais. Nossa reportagem foi ao morro Pavão-Pavãozinho conversar com o rapaz que preferiu não se identificar.

Eu acordei, escovei os dentes e desci para trabalhar. Quando cheguei na rua Sá Ferreira, uma policial me chamou e pediu para eu esperar que outro PM viria me identificar, porque tinha acontecido um assalto no local. Quando o PM chegou, já foi me algemando dizendo que fui eu mesmo que roubei um cordão de ouro de um turista. Quando chegou na 14ª DP, os policiais tiraram toda a minha roupa. Um deles veio, me deu um tapa na cara e me jogou no chão. Eu pedi para eles não me baterem, não me esculacharem, mas eles me deixaram lá no chão, de cueca. Perguntei para a delegada se eu podia colocar a minha bermuda, mas ela disse que não. Depois, me mandaram para a 20ª DP, no Grajaú. Lá, foi um massacre. Fiquei em pé por dias, sem dormir. Depois fui para o presídio de Água Santa, onde eles rasparam meu cabelo. Eu fiquei revoltado por estar pagando por uma coisa que eu não fiz — protesta o jovem.

Ele ainda conta que, dias antes de sua prisão, fora ameaçado por policiais da UPP enquanto bebia com amigos em um bar da favela.

—  Antes disso tudo acontecer, os PMs já tinham me ameaçado. Estávamos eu e uns amigos bebendo em frente a nossa casa, quando os policiais chegaram. Um deles falou para mim: ‘Tá me olhando por quê? Já morreu um. Pra morrer outro não custa’. Depois, um deles apontou pra mim e disse: ‘Cuidado, pois a sua batata já está assando’  — denuncia o rapaz.

Quando estivemos no local, fomos acompanhados pela militante da Rede de Comunidades e Movimentos contra a Violência, Márcia Honorato, que também integra a Comissão Auxiliar de Vítimas da Violência Policial. Ela acusa a justiça de demora na expedição do alvará de soltura da testemunha e enfatiza o verdadeiro caráter da Unidade de Polícia Pacificadora.

Para mim, esse foi um caso de retaliação à testemunha, porque esse menino consta nos autos como testemunha do assassinato do André e, por isso, os PMs tentaram desqualificá-lo. Cadê o cordão de ouro que foi roubado? Onde foi registrada essa queixa? O garoto entrou com cabelo e saiu careca. O garoto apanhou dentro da delegacia. Que delegada adjunta é essa que impetra uma prisão em flagrante pelo roubo de um cordão de 10 mil reais que não existe? Isso tudo é muito questionável para mim. Toda hora estamos tendo problemas aqui no morro Pavão-Pavãozinho oriundos de sequelas da UPP. Esse projeto das UPPs não serve para nada. É só para inglês ver — protesta Márcia Honorato.

Complexo do Alemão

Choque de ordem ataca comerciantes

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Camelôs da avenida Itaóca oprimidos pelo Choque de Ordem

Composto por 13 favelas, o Complexo do Alemão, na zona Norte do Rio de Janeiro, abriga milhares de comerciantes que, sem outras opções, trabalham como autônomos para garantir a sobrevivência de suas famílias. Na favela Nova Brasília, depois do início da ocupação do exército, centenas deles estão tendo suas vidas arruinadas por conta da ação do choque de ordem do prefeito Eduardo Paes. Há meses, os comerciantes da Travessa Guadalajara e da avenida Itaóca vivem apreensivos com as ameaças de demolição e a presença intimidadora de militares do exército. Nossa reportagem foi ao local ouvir os relatos das possíveis vítimas dessa iminente ação da prefeitura do Rio, que já fez vítimas no Complexo do Alemão.

É o caso do comerciante José Álvaro que, no ano passado, teve a sua barraca, no Calçadão da Nova Brasília, demolida pelo choque de ordem. Agora, que se estabilizou em outro ponto, mais uma vez o rapaz está sob ameaças dos tratores da prefeitura.

Derrubaram o meu trailler no Calçadão, sendo que lá não atrapalhava em nada. Mesmo assim, o prefeito derrubou e não nos deu nada em troca. A gente teve uma semana para sair. Com isso, eu fiquei cheio de dívidas e minha família teve que me ajudar, senão nem condições de colocar comida na mesa de casa eu teria. Esse choque de ordem é uma covardia muito grande que o prefeito faz com as pessoas que trabalham na rua, que têm disposição de encarar chuva, sol, fumaça de carro na cara, coisa que ele nunca fez na vida dele — protesta.

Sempre que a prefeitura entra aqui, tem perseguição. Eu sou uma que sempre foi perseguida, mas sempre perseverei, porque eu dependo disso aqui para viver. A não ser que eles dêem outro ponto pra gente trabalhar. Porque eu não tenho marido, não tenho filhos, sou sozinha e não sou aposentada. É daqui que eu tiro o meu sustento. Sem contar com o dinheiro que eu já gastei nessa barraca. Isso era um traillerzinho velho, mas eu fui reformando e fazendo um negócio mais bonito para trabalhar. Agora eles chegam e dizem que vão demolir? — questiona a comerciante Ivanilda da Silva.

Além dos comerciantes, camelôs que trabalham na avenida Itaóca também relataram os ataques do choque de ordem que sofrem constantemente. De acordo com um dos vendedores, na semana passada, guardas municipais teriam roubado a mercadoria de quem trabalhava no local.

Quarta-feira passada, eles [agentes do choque de ordem] levaram a minha mercadoria toda. Levaram as frutas do rapaz aqui em frente, levaram as minhas verduras. Eles chegam com a polícia, saem metendo a mão e levando tudo. A gente está aqui para trabalhar. Para ganhar o pão nosso de cada dia. Eu acordo às 5h da manhã para armar essa barraca aqui. Se eles quisessem legalizar para gente pagar uma taxa, algo assim, nós aceitaríamos, mas eles não querem. Eu estou aqui falando com você, mas estou apreensivo porque eles podem chegar a qualquer momento. Do mesmo jeito que bandido corre da polícia, a gente tem que correr da prefeitura. Infelizmente, o meu sentimento é esse. Eu creio que esse prefeito está mexendo com muito trabalhador. Ele está mais preocupado com a Copa e as Olimpíadas do que com o povo que está na rua precisando trabalhar — denuncia o camelô Irinaldo Barreto.

O desabafo de uma moradora contra a militarização*

“O governo entrou no Complexo do Alemão, levantou questões de melhorias e nos disse que as obras do PAC abririam as portas do progresso ao nosso mundo. Mas já se passou tempo e, desde que o Estado tomou conta da nossa comunidade, muito se diz fazer. O teleférico está aí para trazer mais vida ao morro ou ao Estado? Trazendo lucro com o chamariz turístico para ver de perto, ou melhor, do alto, o grande conjunto de favelas que antes era dos traficantes e agora é dominado pelas forças armadas.

O que importa agora não são mais as grandes obras, os projetos da prefeitura ou os contratos milionários com bancos para se instalarem no Complexo, mas sim os direitos dos cidadãos que vivem aqui e que ainda passam por valas negras de esgoto a céu aberto. Sem contar com os pequenos comerciantes amedrontados com o choque de ordem. Afinal de contas, esse Complexo do Alemão é mesmo dos moradores que chegaram para morar numa época em que havia apenas alguns casebres por aqui e que tiveram seus filhos e netos e fizeram desse lugar o que ele é hoje?

Existe uma cúpula de pessoas mal intencionadas, liderada por muitos movimentos e partidos políticos, que ganham vantagens sobre os moradores que são leigos no assunto, desviando material de construção para fazer suas casas de veraneio na Região dos Lagos. Outros assumem a autoria de projetos pensados e pesquisados pelos jovens moradores do Complexo, que confiam suas ideias a essas pessoas. Além disso, tem gente aqui de dentro que trabalha no gabinete da prefeitura e chega aqui como se fosse autoridade, em carros com o emblema da prefeitura, fazendo pouco dos moradores e colocando seus parentes para trabalhar em projetos como a Clínica da Família, o Cine Carioca, e até nos quiosques construídos para trabalhadores que perderam suas lojinhas.

Durante os muitos anos vividos sob o domínio do trafico, não se viu tanta injustiça. Os moradores eram respeitados e nós não vivíamos com receio. Sabíamos quem era quem. Não havia domínio de partidos políticos, roubos, milícias, invasões de casas e saques por dependentes químicos e a ansiedade de viver sabendo que a própria polícia pode te matar ou te roubar. Não tínhamos dúvidas. Podíamos viver buscando cada um a sua melhoria. O que se vê agora é uma fábrica de impostos para o Estado. Um meio de muitos empresários lucrarem em cima da massa e ganharem verba do governo com projetos que nunca alcançam quem realmente precisa.”

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*Trecho da carta enviada pela comerciante e moradora da Nova Brasília, Viviane Ribeiro, à Agência de Notícia das Favelas, no dia 8 de agosto.

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