No programa A Propósito #369, transmitido em 16 de julho pelo canal de AND no YouTube, o historiador João Cláudio Pitillo, o representante da Liga Anti-imperialista Internacional (LAI) – Seção Brasil, Wender, e o diretor-geral de AND, Victor Bellizia, discutiram como a articulação internacional convocada pelo país Estados Unidos (EUA) contra o chamado “ressurgimento da extrema esquerda” e a pressão do Pentágono pela militarização da América Latina integram uma política contrarrevolucionária preventiva destinada a conter o ascenso da luta revolucionária no subcontinente.
Assista ao programa na íntegra:
“Os ianques sentem a necessidade de uma política contrarrevolucionária preventiva. É disso que estamos tratando”, afirmou Victor Bellizia. Segundo o diretor-geral de AND, a referência de Washington ao chamado “Hemisfério Ocidental” demonstra sua preocupação em deter a instabilidade da velha ordem semicolonial e o perigo de subversões em seu autoproclamado “quintal”.
Para Victor, a iniciativa é séria e deve ser compreendida como uma política destinada a combater o movimento anti-imperialista e revolucionário, e não apenas como agitação eleitoral da extrema direita ianque. “Esse movimento revolucionário mundial não desapareceu. Não é um fantasma; é concreto e existe”, afirmou.
João Cláudio Pitillo – doutor em História, pesquisador do Núcleo de Estudos das Américas da Universidade do Estado do Rio de Janeiro e idealizador do canal Guerra Patriótica – relacionou a nova ofensiva à tentativa de recolonização do subcontinente. “O Brasil é a joia da coroa”, afirmou. Para o historiador, o País ocupa posição central por suas riquezas, matérias-primas e capacidade de sustentar a máquina do imperialismo. “A América Latina continua sendo um continente insurgente por sua própria natureza”, acrescentou Pitillo.
O representante da LAI afirmou que o chamado “terrorismo de extrema esquerda” é o nome empregado pelos imperialistas para criminalizar “a inevitável e justa rebelião das massas e dos povos oprimidos”. Segundo ele, a intensificação da exploração, da concentração da terra e da pilhagem imperialista tende a aprofundar as lutas operárias, camponesas, indígenas e populares.

EUA monta arquitetura internacional contra comunistas e anti-imperialistas
Em 16 de julho, o secretário de Estado ianque Marco Rubio reuniu representantes de 66 governos na chamada “Ministerial sobre o Ressurgimento do Terrorismo Político”. O chefe da diplomacia ianque nomeou diretamente os alvos da ofensiva: “anticapitalistas, anti-imperialistas, comunistas, anarquistas ou marxistas”.
Rubio classificou essas forças como uma “ameaça real e transnacional” e defendeu identificá-las, mapeá-las e reconstruir a arquitetura internacional de contraterrorismo para combatê-las. A reunião contou com dirigentes do FBI, do Departamento do Tesouro e da Casa Branca e tratou do intercâmbio de informações entre serviços de inteligência, da cooperação policial, do bloqueio de recursos e da classificação de organizações como “terroristas”.
A circulação internacional de propaganda e materiais de formação, o intercâmbio de informações, a movimentação de recursos e a participação de militantes em ações conjuntas foram incluídos por Rubio entre as atividades sob a mira dos aparatos repressivos. A formulação permite transformar propaganda política, formação, solidariedade e coordenação internacional em elementos de investigação e perseguição.
O representante do AND afirmou que a utilização simultânea de rótulos como “terrorismo político”, “narcoterrorismo”, “narcoguerrilha” e “crime transnacional” permite ao imperialismo diluir sua intenção real. Em vez de declarar abertamente uma guerra contra o anti-imperialismo de forma direta e absolutamente indubitável, Washington procura associar as forças revolucionárias e populares ao narcotráfico e a outras atividades criminosas. “Criminaliza-se o movimento e dilui-se a intenção real”, sintetizou o diretor-geral de AND.

Revolução Agrária está sob a mira da ‘Doutrina Donroe’
A ofensiva mundial ocorre poucos dias depois de o Pentágono apresentar aos governos latino-americanos a chamada “Doutrina Donroe”. Em conferência realizada em Cusco, no Peru, Washington pressionou os países do subcontinente a aproximar seus orçamentos militares de 3,5% do Produto Interno Bruto (PIB) e defendeu operações conjuntas, vigilância de fronteiras e intercâmbio de inteligência contra organizações classificadas como “narcoterroristas”.
No Brasil, os gastos militares correspondiam a aproximadamente 1,1% do PIB em 2025. Alcançar a meta exigida pelo Pentágono significaria mais que triplicar esse patamar. O ministro da Defesa do governo oportunista de Luiz Inácio (PT), José Múcio, participou da conferência e discutiu “respostas coordenadas” e cooperação militar com os demais governos presentes.

Victor Bellizia relacionou diretamente essas medidas ao ascenso das lutas revolucionárias no subcontinente. O diretor-geral citou a persistência da luta armada no Peru e na Colômbia, a agudização da luta das massas camponesas na Bolívia – que conduziu a um “processo acentuado de risco de guerra civil” – e os processos de resistência anti-imperialista presentes em diferentes países. “Aqui no Brasil, há uma verdadeira guerra camponesa pela terra, e eles também estão de olho nisso”, afirmou.
Ao sintetizar a posição de AND, Bellizia destacou que o ascenso da luta revolucionária se expressa no País principalmente “na persistência da Revolução Agrária”. “Não apenas em sua persistência, mas, como temos visto, no crescimento da luta revolucionária pela terra”, acrescentou.

O representante da LAI destacou que a concentração fundiária e a submissão da economia nacional ao imperialismo tornam a questão agrária um dos pontos centrais da luta de classes no Brasil. Segundo ele, Rondônia constitui um caso agudo, mas não isolado: as contradições se desenvolvem em Goiás, Mato Grosso, Maranhão, Pará, no Nordeste e nas lutas dos povos indígenas em todo o País.
Para o representante, cada tomada de terra que golpeia o latifúndio representa também uma derrota econômica e política para o imperialismo. A luta pela terra, afirmou, precisa desenvolver-se como parte da luta pela libertação nacional e pela destruição das relações de exploração que sustentam a dominação estrangeira.
Victor recordou que a Polícia Militar de Rondônia (PM-RO) já emprega contra a Liga dos Camponeses Pobres (LCP) os mesmos epítetos utilizados na política ianque, classificando camponeses como “guerrilheiros”, “facção” e “narcoterroristas”. Para o diretor-geral, a coincidência temporal entre a ofensiva internacional e a classificação de organizações brasileiras como “terroristas” demonstra uma preocupação particular com o Brasil.

‘O Brasil é a joia da coroa’
Pitillo afirmou que o Brasil é o país mais importante da América Latina para a manutenção da máquina imperialista. “A quantidade de riquezas e commodities produzidas aqui sustenta grande parte do planeta. O EUA pode aceitar muitas coisas, menos perder o Brasil”, declarou.
Segundo o historiador, a ofensiva combina a disputa pelo controle de mercados e matérias-primas com a articulação dos setores mais reacionários da política brasileira. O velho espantalho da “ameaça comunista” permite à Casa Branca mobilizar a extrema direita e interferir em questões cada vez mais internas aos países latino-americanos.
Pitillo classificou o processo como uma política de recolonização, apoiada no uso ostensivo do aparato militar, policial e de inteligência. Segundo ele, a Casa Branca tenta centralizar desde as grandes decisões estratégicas até a repressão cotidiana promovida pelos aparatos dos velhos Estados.
Para Pitillo, a política ianque tenta construir “uma nova internacional fascista”, uma rede internacional de perseguição, delação e cooperação policial situada acima das fronteiras nacionais. “Em termos simples, é a Casa Branca determinando como o guarda da esquina deve nos reprimir”, afirmou.

Da ‘Operação Condor’ à ‘guerra às drogas 2.0’
João Pitillo relacionou a ofensiva atual à Doutrina de Segurança Nacional, à Escola das Américas, à Operação Condor, à chamada “guerra às drogas” e ao Plano Colômbia. A continuidade fundamental, afirmou, encontra-se na subserviência dos velhos Estados latino-americanos e na incorporação de doutrinas repressivas ianques às polícias e Forças Armadas locais.
Segundo o historiador, a chamada “guerra às drogas” não alcançou seus objetivos declarados na Colômbia. Seu objetivo real era controlar o país e impedir uma vitória da insurgência. A política que agora se anuncia seria uma “guerra às drogas 2.0”, com maior emprego dos aparatos militares e policiais na vida cotidiana e na perseguição política.
Pitillo destacou ainda a integração de sistemas sionistas de vigilância e repressão às polícias latino-americanas. Para ele, o sequestro doutrinário das Forças Armadas e dos aparatos policiais permite que a política estadunidense seja aplicada diretamente no interior de cada país.
A tentativa de criminalizar o antifascismo também revela o conteúdo da ofensiva. “Ser antifascista passa a ser crime e, automaticamente, o fascismo se torna uma doutrina protegida, porque seus opositores são classificados como inimigos”, afirmou Pitillo.

‘Ressurgimento da extrema esquerda’ admite fracasso do período pós-Guerra Fria
Victor Bellizia afirmou que a própria expressão “ressurgimento da extrema esquerda” constitui uma admissão de fracasso do imperialismo. Nas décadas de 1980 e 1990, o imperialismo anunciou que a revolução proletária, o socialismo e o comunismo haviam perdido qualquer importância histórica. Décadas depois, Washington volta a apresentá-los como uma ameaça efetiva.
“Agora, 30 ou 40 anos depois, reaparecem dizendo que a ‘extrema esquerda’ é uma ameaça. Isso é uma comprovação e uma admissão de fracasso completo”, afirmou. Segundo o representante de AND, a reunião expressa o encerramento da época da ofensiva contrarrevolucionária geral, durante a qual a propaganda imperialista difundiu que o comunismo, o socialismo e o anti-imperialismo haviam acabado.
Bellizia afirmou que a extrema direita utiliza a histeria anticomunista para arregimentar apoio social e justificar políticas fascistas e de extrema direita. Porém, sua ascensão também ocorre quando a revolução e a instabilidade da velha ordem voltam a se colocar na ordem do dia.
O diretor-geral citou a persistência das guerras populares, a reorganização do Movimento Comunista Internacional e a fundação de organizações internacionais revolucionárias e anti-imperialistas. Para o AND, as lutas revolucionárias deixaram de ser tratadas pelo próprio inimigo como fenômenos encerrados no passado e voltaram a ser reconhecidas como perigo presente. “É um período histórico extraordinário, e isso precisa ser levado em conta”, afirmou Bellizia.

‘Precisamos unir os povos em um grande movimento anti-imperialista’
Wender afirmou que a criação da Liga Anti-imperialista Internacional representa uma vitória da organização e da coordenação internacional das forças que combatem o imperialismo. Segundo ele, núcleos da LAI surgem no próprio EUA, na Europa, na África, na Ásia e na América Latina. “Enquanto eles tentam formar uma internacional fascista, precisamos unir os povos em um grande movimento anti-imperialista”, afirmou o representante.
Para a LAI, as políticas contrainsurgentes podem intensificar investigações, vigilância, prisões, perseguições e intervenções no curto prazo. Entretanto, não possuem condições de alcançar êxito estratégico, porque a intensificação da opressão aprofunda as contradições que produzem a rebelião das massas.
O representante advertiu que a repressão não deve ser subestimada. A nova arquitetura poderá legalizar e ampliar mecanismos já empregados contra organizações revolucionárias, movimentos populares e forças anti-imperialistas. Por isso, defendeu o fortalecimento de organizações independentes das massas, capazes de enfrentar o imperialismo e os velhos Estados.
Em nome de AND, Bellizia sintetizou que a ofensiva possui duas dimensões inseparáveis: serve à agitação ultrarreacionária e busca preparar instrumentos concretos de repressão diante da decomposição da hegemonia mundial única ianque. “Isso ocorre particularmente no chamado ‘Hemisfério Ocidental’, na América Latina, diante do ascenso da luta revolucionária”, afirmou.
Para AND, o fim do período pós-Guerra Fria, admitido por Antony Blinken em 2023, possui um duplo significado: encerra-se a época em que o imperialismo ianque exercia uma hegemonia mundial única inquestionável, e termina o “período em que as lutas revolucionárias eram tratadas como se já não fossem fenômenos do presente”.
