O Rio Grande, no país Estados Unidos (EUA), é um canal de águas azuis brilhantes com margens dominadas por arbustos como o botão-de-ouro, sarandi e granjeiro, ervas como o capim-falso e grandes árvores, tipo o salgueiro e o ébano-do-texas. Há 13 mil anos, povos originários das Américas viveram ali e deixaram vestígios que são hoje estudados por arqueólogos. Agora, profissionais e povos indígenas correm contra o tempo para salvar os sítios em meio às obras da nova muralha anti-imigração de Donald Trump, que pretende atravessar toda a região.
“A construção da barreira fronteiriça está ocorrendo em várias etapas em diversos locais ao longo do Rio Grande, em todo o Texas”, diz à reportagem a arqueóloga Amanda Castaneda, do Centro Shumla de Educação e Pesquisa Arqueológica.
O registro arqueológico se trata de coisas como artes rupestres e artefatos de difícil preservação, como cestas e sandálias de palha e instrumentos feitos com madeira, que sobreviveram ali de maneira excepcional por conta do ambiente bastante árido do deserto que cerca o rio.
A destruição começa aproximadamente em El Paso, do Forte Hancock até o Parque Estadual Big Bend com a construção de uma muralha de 9,1 metros (m). “Do lado leste do Parque Estadual e por todo o Parque Nacional Big Bend, haverá uma combinação de barreira para veículos e ‘nova tecnologia e patrulhamento’”, complementa Castaneda.
Uma outra “barreira para veículos” de aproximadamente 1,5 m, estradas de patrulha e sistemas de apoio serão instaladas rio abaixo no Parque Nacional de Big Bend. “Nossa área de foco está incluída nesse projeto, principalmente no condado de Val Verde”, conclui a arqueóloga.

Mais de 2,5 mil sítios rupestres
Os sítios arqueológicos estão espalhados por toda a região. “Os sítios arqueológicos incluem acampamentos ao ar livre nas terras altas e nos terraços fluviais, além de sítios habitacionais em abrigos rochosos que apresentam excelente estado de preservação do material cultural”, detalha Castaneda.
No total, há cerca de 2.500 sítios arqueológicos já registrados ao redor do encontro dos rios Pecos e Devils com o Rio Grande. Somente no Condado de Val Verde há 350 abrigos rochosos com figuras animais, humanoides, formas geométricas e instrumentos de caça pintados de vermelho, azul e amarelo ou entalhadas na pedra.

“O estilo mais conhecido da região, o estilo do Rio Pecos, é uma tradição muralista policromática e complexa que contém registros sobre cosmologia, criação, mitologia religiosa, divindades e ancestrais”, relata Castaneda.
“A história cultural de Val Verde é tão significativa que, em 2021, o local foi declarado distrito arqueológico de importância histórica nacional”, diz a arqueóloga. A classificação, contudo, não é o suficiente para parar Trump. A obra ameaça destruir ou impedir o acesso a um terço das áreas arqueológicas.

Acesso à terra
Os sítios rupestres ajudam a entender melhor a história indígena da região e a reconhecer o direito dos povos no acesso à terra. “Existem muitos grupos indígenas atuais que possuem uma longa história no que hoje é o Texas, mas que não contam com reconhecimento federal nem com reservas, como acontece com outros grupos em todo o país”, explica Castaneda.
Os pesquisadores do Centro Shumla de Educação e Pesquisa Arqueológica estão lutando para aumentar a interação dos povos indígenas da região com os sítios arqueológicos. Os grupos Comanche, Lipan Apache, Jumano e vários outros que são agrupados sob o nome “Coahuiltecan” têem vínculos importantes com os registros rupestres; os Coahuiltecan são mais ligados às artes antigas, enquanto os outros se conectam aos registros mais recentes.

Além disso, a Dra. Carolyn Boyd já comprovou que o simbolismo das pinturas do estilo rupestre Rio Pecos está presente em crenças dos Huicol (ou Wixárika), que vivem no sudoeste do México, e nas mitologias dos povos falantes do Uto-Asteca. Recentemente, ela viajou para encontrar anciões Huicol no México. Os arqueólogos também conseguiram levar um líder do grupo para visitar sítios arqueológicos na região.

A luta pela preservação
“Há muitos grupos que estão acompanhando essa situação, e o mais ativo deles é um movimento popular chamado ‘No Big Bend Wall’”, diz Castaneda. Informações sobre o grupo podem ser vistas aqui.
Os membros do No Big Bend Wall (“Não ao muro do Big Bend”, em tradução literal) atuam como observadores no local, registrando todas as informações do avanço das obras no Parque Nacional de Big Bend e disponibilizando-os em gráficos na Internet.
Ao mesmo tempo, eles formam uma coalizão de donos de terrenos no local, por meio da qual prestam assessoria jurídica e apoio à comunicação frente às ameaças das obras. “Essa situação reuniu pessoas de todos os tipos em todo o oeste do Texas para lutar por valores comuns de conservação e proteção dessa paisagem especial”, conta Castaneda.
Os arqueólogos, por sua vez, auxiliam os moradores e povos indígenas no que podem e trabalham na documentação dos registros rupestres, visando criar um grande acervo digital.
O povo sabe que, se o projeto for concretizado, nada de bom virá dele. No Arizona, encostas de montanhas foram destruídas por explosões, os corredores de migração dos animais foram interrompidos e os sítios culturais foram destruídos; em Intaglio, uma parte das obras destruiu a metade inteira de um sítio arqueológico.

Outras obras realizadas entre 2017 e 2021 na fronteira EUA–México explodiram uma área de sepultamento indígena e causaram alterações nos cursos de água, entre vários outros atos de degradação dos recursos naturais e locais de importância cultural, segundo dados de 2023 do Government Accountability Office (GAO), um órgão de fiscalização do próprio Congresso ianque. Na época, o governo instalou 730 km de barreiras.
A destruição só foi possível pelo descumprimento repetido de leis ambientais e de proteção histórica. Recentemente, uma dispensa assinada em fevereiro de 2026 permitiu o descumprimento de 28 leis, entre elas a Lei Nacional de Preservação Histórica, a Lei de Proteção dos Recursos Arqueológicos, a Lei de Proteção e Repatriação de Túmulos dos Povos Originários e leis de proteção da água, do ar e de espécies ameaçadas. Uma nova dispensa, assinada em junho, atingiu inclusive normas de proteção dos parques nacionais e áreas selvagens.
O que ocorre no Texas é, portanto e mais uma vez, a luta dos interesses dos imperialistas contra os interesses do povo, que tem em si a causa progressista da humanidade. A coalizão No Big Bend Wall identificou cerca de 330 proprietários atingidos somente ao longo de um trecho de 281,6 km; dezenas deles passaram a receber informações e apoio do movimento para enfrentar as tentativas de aquisição ou desapropriação de suas terras.
A resistência busca lições em outras lutas que já ocorreram por ali. Na primeira administração de Trump, a resistência no oeste do Texas conseguiu adiar o projeto de construção de um grande muro na fronteira. No sul do mesmo estado, a resistência de moradores, as disputas sobre o traçado e os processos de desapropriação fizeram com que a aquisição das terras para a muralha levasse de 21 a 30 meses – contra cerca de 12 meses em outras regiões.

No Big Bend, uma petição contra a muralha na região ultrapassou 100 mil assinaturas em abril deste ano. Em 14 de agosto, a organização indígena People of La Junta for Preservation, ligada à comunidade Lipan Apache, ingressou na Justiça para paralisar as obras no Parque Nacional de Big Bend, alegando ameaça irreparável a sítios arqueológicos e locais tradicionais. Três dias depois, após a divulgação de imagens de escavadeiras abrindo terreno no parque e o crescimento dos protestos, a própria Patrulha de Fronteira anunciou uma suspensão temporária das atividades de construção dentro do Big Bend para reavaliar o projeto.
A ocupação é importante e se refere à outra lição: a de que a luta popular na defesa da ciência e dos recursos naturais pode se fortalecer muito pela união com outros grupos populares. Isso pode se intensificar pelo contato com a vastidão de movimentos anti-imperialistas e de imigrantes que lutam incansavelmente contra a muralha e outros ataques do governo imperialista do EUA.
Tudo depende, assim, dos rumos da luta popular, determinados pelas escolhas de seus soldados imediatos na arena da luta de classes.
