Não há o que negociar na Alca

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Há que denunciá-la, lutar contra ela e derrotá-la

Os principais elementos geoestratégicos que seguem sendo importantes para a segurança nacional dos Estados Unidos da América são: 1. Controle dos estreitos Atlânticos. 2. Uso do Canal do Panamá. 3. Uma rota sul segura em torno do Cabo de Hornos (tudo isto está dentro do cenário estratégico naval). 4. Segurança de que os países do hemisfério não sejam hostis a nossas preocupações de segurança nacional. Além do mais, que os recursos naturais do hemisfério estejam disponíveis para responder a nossas prioridades nacionais. Uma "doutrina Monroe" se querem.

Desde o longínquo 2 de dezembro de 1823, quando os EUA estabeleceram sua política para a América Latina, conhecida como Doutrina Monroe, jamais retrocederam em seu intento de considerar toda esta região como parte de seu território. Esta primeira estratégia vigorou por todo o século IXX. A reação dos povos latino-americanos a ela conduziu os EUA, a partir de 1898, a uma segunda estratégia, tristemente conhecida como "Big Stick" (grande porrete), que resultou em ocupações e invasões militares de inúmeros países da América Central.

Uma terceira estratégia é estabelecida em 1934, a da "Boa Vizinhança", e vai durar até 1945. Ao fim da II Guerra Mundial, com o equilíbrio de forças entre socialismo e imperialismo, os imperialistas, já sob hegemonia completa dos ianques, estabelecem uma nova estratégia que perdurou por quatro décadas conhecida como "Guerra Fria". Neste período os EUA, particularmente para América Latina, estabeleceram a "Aliança para o Progresso" com a qual aprofundou sua dominação semicolonial sobre a região através de golpes militares, intervenções e estabelecimento de regimes militares fascistas. Estes regimes passaram a expressar contradições com setores da burguesia nacional tendo relativo impulsionamento de suas economias através do aparelho estatal. A política de direitos humanos, de Carter, trata de remover os militares da administração dos países, encerrando um ciclo do seu controle sobre os países latino-americanos, correspondendo esta reestruturação do bloco de poder das classes dominantes locais com a reestruturação mundial do capitalismo.

Neste período, em que se estabeleceram estas quatro estratégias, os EUA levaram a termo oitenta ações armadas de grande envergadura, na sua grande maioria sobre países da América Latina. Isto é, mais de uma ação de agressão a cada dois anos, além das incontáveis conspirações, sabotagens, espionagens, assassinatos de mandatários, golpes de Estado, etc.

Terminada a "Guerra Fria", com o fim da União Soviética, é anunciada por Bush (pai) a "Nova Ordem Mundial" com a conformação de grandes blocos econômicos. É nesta quinta estratégia que agrava-se a crise do capitalismo mundial, aprofundam-se as contradições entre as grandes potências e que o liberalismo, tão exaltado nos anos anteriores, é substituído pela prática de delimitação de territórios cativos com a cobertura jurídica de tratados de verdadeira anexação. Estes tratados têm recebido nome de áreas de livre comércio. União Européia, do imperialismo europeu, principalmente alemão, Nafta (EUA, Canadá e México, em 1995) como preparação para Alca, passo seguinte para o controle completo de todo o continente americano pelo imperialismo ianque.

Os governos latino-americanos, dóceis gerentes do grande capital internacional, sempre promoveram todo tipo de crimes e violações dos interesses de seus povos e países. Só nas duas últimas décadas o volume de riquezas amealhado pelo imperialismo supera a soma de tudo o que foi surrupiado em todos os períodos anteriores. Mudanças na constituição e demais leis do país, ampla abertura dos mercados para os monopólios imperialistas, ampla liberdade para entrada e saída de capitais, violação sistemática de direitos dos trabalhadores, entrega das estatais, de fontes de matérias primas e do controle dos recursos naturais aos grandes monopólios, aprofundamento do monopólio da terra. No Brasil após 8 anos de FHC, o resultado é desastroso. A dívida do governo federal subiu de R$ 61,8 bilhões em dezembro de 94 para nada menos que R$ 626,3 bilhões em março de 2002. A dívida do setor público, que era em 94 inferior a 30% do PIB passou para 55% do PIB em 2002. O pagamento dos juros escorchantes da dívida, de lucros e amortização, totalizaram em 2001 a importância astronômica de 55 bilhões de dólares. O desemprego bate recordes a cada dia (é o mais alto desde 1985). O crescimento de 0,3% do PIB de abril de 2001 a março de 2002 mostra que o país não suporta uma política de saques tão violenta por muito mais tempo e, inevitavelmente, estamos caminhando para uma crise tão grave como a da Argentina.

Por toda América Latina o resultado é exploração e opressão sobre os povos, aumento colossal da miséria e da concentração de renda, a falência das pequenas e médias empresas, a penetração de grandes monopólios que se engalfinham pelo controle econômico e político da região. É com o preço do atraso dos países latino-americanos que os EUA conquistaram sua supremacia mundial. E é sobre esta base caótica e tormentosa, em que os povos da América Latina brigam desesperadamente pela sobrevivência, que os EUA querem impor, a todo custo, sua área de livre comércio, a Alca. Além do controle cativo de todo este fabuloso mercado, de abundante e barata mão-de-obra, querem o monopólio do gigantesco manancial de matérias primas onde se destaca a Amazônia, fonte de diversidade de recursos estratégicos.

Da exploração e domínio desta base material depende a manutenção da supremacia dos EUA no mundo. E de outro lado, da oposição a este domínio depende o futuro dos 500 milhões de latino-americanos.

Mercosul já nasceu morto

O Mercado Comum do Sul, Mercosul, foi uma iniciativa dos grandes capitalistas locais, principalmente do Brasil e Argentina, que buscavam, no mesmo conceito de área de livre comércio, reunir melhores condições para negociar com as potências imperialistas. Sob a capa de integração regional e de proteção dos interesses nacionais na "inserção na economia globalizada", estas grandes empresas, sócios menores dos grandes monopólios internacionais, se beneficiaram, num primeiro momento, com os créditos fáceis para as privatizações, incorporações e fusões e alimentavam o sonho de crescimento em um mercado livre subcontinental.

O imperialismo europeu, sabendo-se alijado da América Latina com a implantação da Alca, atuou ativamente no processo de desnacionalização, chamado de privatização, na aquisição de empresas e bancos estatais, e tratou o Mercosul como um instrumento para rivalizar com os ianques. A retórica adotada por FHC de críticas pontuais à ação dos EUA combinada com acenos à Europa não é nada mais que a continuação da tradicional política do Itamarati de insinuar entendimentos com potências imperialistas de segunda grandeza na expectativa de obter melhor tratamento com os norte-americanos.

Mas o Mercosul já nasceu morto, pois nem sequer conseguiu sobreviver à primeira das frequentes crises que sacodem os países da região. Os governos dos países que o compõem não têm força e nem condições de sustentar minimamente uma política de confronto com os EUA. A ação do FMI na crise da Argentina é a mais clara resposta dos ianques. Eles jogaram para a quebra de empresas e bancos no intuito de arrebatá-los dos monopólios argentinos ou de seus concorrentes europeus. Só com a privatização do Banco Nación, prevista no acordo com o FMI, eles açambarcarão 20 milhões de hectares das melhores terras da Argentina, que estão hipotecadas nesta instituição financeira.

As medidas recentes do governo dos EUA de sobretaxar o aço e de subsídios aos agricultores ianques deixam claro de que livre comércio falam as potências imperialistas. Na verdade essas medidas já são a vigência da Alca. Pelo grau de sua crise, o imperialismo assume aberta e descaradamente a defesa de seus interesses hegemônicos. E como, cada vez mais, se esgotam os instrumentos econômicos e comerciais que o imperialismo pode usar para impor seus interesses aos países da América Latina, a solução avança a passos largos para o terreno militar. Campanhas contra as drogas, e contra o terrorismo não são mais que pretexto para que os ianques lancem suas hordas para posições estrategicamente distribuídas nos países do continente. Já controlam a Base de Lançamento de Alcântara, no Maranhão, implantaram as bases militares de Manta, no Equador; El Chapare, na Bolívia; Terra do Fogo, na Argentina e implementam o Plano Colômbia como justificativa para intervenção direta no conflito interno daquele país e com isto, pela guerra, controlar militarmente toda a região amazônica. No Peru, a recente viagem de Bush serviu para definir as operações ianques a partir do combate à guerrilha e a ampliação da militarização de toda região fronteiriça amazônica.

A Doutrina Monroe e seu "América para os americanos" resultou como a mãe de todas as estratégicas do imperialismo norte-americano. Neste sentido a Alca não é ainda o ideal de dominação dos ianques, mas representa a base sem qual não podem os EUA, nas condições da crise do sistema imperialista mundial, alcançar sua desejada "supremacia infinita". A Doutrina Monroe, levada às últimas consequências, quer dizer "o mundo para um punhado de monopolistas ianques".

Estamos diante de uma situação sem precedentes na história mundial. Como necessidade inegociável para a supremacia imperialista ianque, a Alca não pode ser derrotada com estocadas cavalheirescas das negociações que propõe a burguesia e governos submissos nem pelas caricaturas de mobilização popular, conciliadoras de partidos eleitoreiros, com seus "plebiscitos", "defesas do Mercosul", etc. Ela só poderá ser derrotada em uma luta empreendida pelo povo latino-americano, um combate palmo a palmo com o inimigo, até desenvolver-se para formas superiores. Em essência a Alca já está em curso e ela é a base material do conflito prolongado na nova etapa que se abriu na luta de emancipação das nações e povos latino-americanos. A Alca é, ao mesmo tempo, veneno e remédio. Ela é determinante para a manutenção e expansão da supremacia ianque mundial; simultaneamente é a base para a união dos povos latino-americanos para sua emancipação e verdadeira integração.

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