Urge romper com este modelo espoliador

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As privatizações no Brasil aconteceram em forma de um grande balcão de negócios, sem nenhuma preocupação com o funcionamento do setor. Isso é muito preocupante, principalmente para setores fundamentais como energia e telecomunicações". A declaração é do economista Ademar Mineiro, presidente da Associação de Economistas da América Latina e Caribe e técnico do DIEESE — Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Sócios Econômicos — Rio de Janeiro.

Nos anos 80, conforme Ademar Mineiro, quando se falava da América Latina referia-se basicamente a crise da dívida externa, presente em praticamente todos os países. Isso dava um sentido comum, não só aos governos da região que tomavam como principal questão de pauta, como aos movimentos sociais de campanhas contra a dívida externa, questionamentos de fundo monetário e Banco Mundial. Já nos anos 90, especialmente no começo, houve uma inversão do fluxo internacional de capitais. Capitais migraram em busca de valorização para as áreas periféricas, e a América Latina foi uma das regiões que se candidatou ao recebimento desses capitais, oferecendo várias vantagens para eles, entre desnacionalização e liberalização financeira, com entrada fácil de capitais.

Conforme Mineiro, sob o ponto de vista de valorização, os países da América latina, ofereceram os processos de privatização, que era uma forma desses capitais se valorizarem, menos pela idéia das empresas que entrariam e mais pelo movimento que se fariam em bolsas de valores, pois esses processos permitem manobras especulativas, subidas de bolsas, uma fonte de valorização e de atração para esses capitais especulativos.

"As privatizações no Brasil foram feitas sem nenhuma preocupação com o funcionamento dos setores. Vimos empresas internacionais entrando na privatização dos setores essenciais. Hoje já começa a ter, pois, os setores já começam a ficar complicados", declara.

O fato é que uma empresa dessas pode fazer uma chantagem para conseguir o que quer, alegando não mais investir. Isso seria uma preocupação para um país como o Brasil, pois hoje, quase toda parte das telecomunicações, e uma outra importante do setor de energia, estão controladas por empresas internacionais e, em alguns casos, nem empresas, mas aplicadores internacionais.

A imprensa tenta atribuir a questões locais e às vezes ironicamente ou cinicamente, atribuem o problema ao fato dos países, isoladamente, não avançarem o suficiente às reformas liberais, sendo que decorre exatamente das próprias reformas

O economista lembra que, como essas empresas tomam decisões em suas matrizes, que são em seus países de origem e não consideram as questões locais de desenvolvimento.

"Nos EUA, por exemplo, dentro do modelo de liberalismo, podemos ver que nos setores de infra-estrutura não existem empresas internacionais controlando".

Será que as empresas européias e japonesas não gostariam de entrar no mercado americano para ganhar dinheiro? Pergunta Mineiro, já respondendo que sim, mas, ressaltando que lá existem restrições essas operações. "As condições impostas por eles são tamanhas que tornam não atrativos os investimentos. Pois, são condições que visam garantir o mercado interno e objetivo estratégicos", diz.

"Por isso, são setores estratégicos e produzir petróleo, por exemplo, não é produzir banana, e energia elétrica não é produzir chuchu. São bens estratégicos para a economia, que só se percebe em um caso extremo como o apagão. Quando não tem banana e nem chuchu, podemos comer cenoura. Por mais que gostemos daquele produto podemos trocar. Mas, a energia já é uma coisa que não podemos trocar. Somos dependentes desta mercadoria. Sua capacidade de impactar outros setores é muito grande, porque pode parar o país de um momento para outro. Por isso, deve ser altamente regulado e o é em quase todos os países", adverte.

Os EUA, no ponto de vista militar, nunca estiveram em uma situação tão tranqüila, não tendo mais nenhum oponente. Estão em uma condição confortável, e sem adversários

Com a liberalização financeira, todos os países desregularam os seus mercados financeiros para facilitar a entrada e saída de capitais. Isso aconteceu do México à Argentina.

Ademar mineiro enfoca o período de 1994 até 98, quando aconteceu uma turbulência financeira, que não atingiu somente os países da América Latina, mas todo o mundo, passando pelos países asiáticos, Europa oriental e chegando até aos países do centro do capitalismo, com quedas nas bolsas de valores americanas e desvalorização das ações perto da bolha especulativa, e começou a faltar crédito dentro dos próprios países, com relação cliente banco, quanto mais para países distantes.

"A partir de 98, encurtou o dinheiro que vinha para a periferia do capitalismo como um todo, incluindo o Brasil, e complicou a vida dos países que optaram por modelos dependentes, de crédito fácil. Ou seja, empréstimos em bancos internacionais ou fundos monetários. Nos anos 90, 80% dos recursos que entraram na América Latina foi de 90 a 94. De 94 a 98 entrou somente 20%. A partir de 98, praticamente não entrou mais recursos", conta.

Mineiro compara o modelo dependente, dólar fácil, que no caso da Argentina aparece com mais clareza, aos casos de dependentes de droga, porque como um drogado se acostuma com algo que lhe dá uma boa sensação, mas causa muitos danos, assim também o país se acostuma uma situação que vai comprometer a sua capacidade produtiva e lhe empobrecer.

"Com o crédito fácil, fica barato comprar produtos importados, viajar para o exterior, enfim, se integrar nesta modernidade que especialmente a classe média gosta tanto, mas, por não ser uma situação comum, principalmente pelo fato do dólar para ser produzido moeda forte custar trabalho e os diferenciais de produtividade entre os países do centro e os da periferia do capitalismo ser muito grande, faz como se a sociedade desses países como um todo, inclusive o excluído estivesse subsidiando esta boa vida", afirma.

Para ele, toda a sociedade de alguma forma paga esse modelo que atende uma parcela pequena da população. A montagem do modelo em cima desse crédito internacional fácil é muito negativa. Pois apesar de ser algo financeiro, se adapta a estrutura da economia. Com isso, o país vai desmontando coisas que produzia antes e acostumando uma parcela da população com uma riqueza que não é real, enquanto empobrece essa outra parcela que está subsidiando tudo.

Casos parecidos, cada um com a sua particularidade, segundo o economista, aconteceram por toda América Latina, em países que também se acostumaram com uma relação de moeda favorável, para comprar produtos importados e viajar para o exterior.

"Na verdade a crise dos países da América Latina, como Argentina, Equador e Venezuela, apesar das suas particularidades, decorre da adesão deste modelo que é um modelo irreal. Modelo de crédito fácil de um lado e de dependência de outro. Quer dizer, como voluntariamente os países tivessem optado por essa dependência", garante.

Para ele, a imprensa fala da crise de cada país da América Latina como algo isolado, como se a culpa dos males fosse a não adesão completa ao modelo de crédito internacional fácil, quando na verdade foi o próprio modelo que gerou a crise. Quando faz isso, reforça o modelo geral, impedindo que se crie um ambiente político e não um ambiente de opinião pública, que favoreça se resolver os seus próprios problemas.

Resolver os problemas significa romper com esse modelo irreal. Para onde ir já é uma outra discussão a se travar

O economista atenta para o fato de que o FMI e o Banco Mundial são agências que operam dentro deste modelo de dependência. "Eles têm um grande papel de formulação, mas não podemos esquecer que essas agências são instituições que o poder adquiri por cotas, ou seja, quem coloca mais dinheiro tem mais poder e quando se tem que tomar uma decisão, o poder depende de quanto cada um tem de cotas da sociedade", fala.

Os principais cotistas são os governos dos bancos centrais, dos principais países capitalistas do mundo. Os países chamados imperialistas ou dominantes, e Mineiro lembra que a dependência dos países é em relação ao sistema financeiro como um todo. "Neste, os Estados Unidos têm um grande peso, mas não podemos esquecer dos países europeus. É uma espécie de dependência que a América Latina tem com os países capitalistas como um todo", argumenta lembrando que uma boa parte dos recursos e investidores que entraram em países da América Latina, neste período, foram europeus.

O efeito 11 de setembro

Ademar nos relata que ao longo de 2001 aconteceu uma desaceleração na economia norte americana desacelerando. O governo americano tentou tomar uma série de medidas para ativar a sua economia.

"A situação política era instável naquele momento. Tinham um governo e um executivo eleitos por WO, em última instância decidida a eleição na justiça. Situação de empate e questionável por qualquer dos lados. No congresso havia divisões, com democratas tendo maioria no senado e republicanos na câmara, coisa inversa do que tinham antes. Instabilidades no legislativo e também no executivo com um governo fraco, até o 11 de setembro", explica.

No meu ponto de vista foi extremamente útil ao governo americano, ao estabelecimento do poder atualmente nos EUA. Porque tinha um executivo frágil que passou a ser forte a partir de 11 de setembro

"Não sei qual foi à intenção do atentado, mas acredito que acabou sendo muito útil para os americanos. Pois, resolveu o debate parlamentar de como se tinha que fazer o incentivo da economia pela velha questão, muita a gosto dos republicanos, de aumentar os gastos militares", conclui.

'O EUA hoje, no plano internacional, não tem um adversário a altura. Qualquer um que resolva enfrentar, com ou sem ajuda do resto do mundo. Isso ficou bem claro no caso do Afeganistão, quando foi mais arrogante do que no do Iraque. Naquela ocasião, esperou o conselho de segurança da ONU o apoiar formalmente. Já neste, deixou claro que com qualquer decisão da ONU iriam invadir e bombardear. Estão em uma situação totalmente cômoda e apesar disso, o 11 de setembro justifica um discurso, no interior dos EUA, de que precisam investir em armas, na área de segurança, porque estão em uma situação frágil", finaliza o economista.


O economista Ademar Mineiro é presidente da Associação de Economistas da América Latina e Caribe e técnico do DIEESE — Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Sócios Econômicos — Rio de Janeiro

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