A vida documentada

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O maior documentarista brasileiro, Eduardo Coutinho fala do sucesso ininterrupto de Cabra marcado para morrer e expõe, de maneira concisa, seu modo de conceber o cinema.

Eduardo Coutinho é um dos mais importantes nomes do documentário brasileiro, com uma formação que passa pelo cinema, teatro e jornalismo. Trabalhou intensamente em diversas frentes da cultura nacional desde a década de 50. Foi revisor e copidesque da revista Visão, de 1954 a 1957, ao mesmo tempo em que dirigia no teatro a peça infantil Pluft, o fantasminha, de Maria Clara Machado. No período seguinte, seguiu para a França, onde ficou até 1960, estudando no Institut des Hantes Études Cinématographiques.

De volta ao Brasil, trabalhou como assistente de direção na peça O quarto de despejo, de Eddy Lima. Integrou-se ao Centro Popular de Cultura (CPC) da UNE (União Nacional dos Estudantes), e passou a trabalhar como assistente de direção na montagem da peça Mutirão em nosso sol, no núcleo de Chico de Assis, encenada durante o I Congresso dos Trabalhadores Agrícolas, realizado em Belo Horizonte em 1962.

Nesta mesma época, Coutinho passou a fazer parte de um projeto cinematográfico do CPC, chamado Cinco vezes favela, dividido em vários episódios, e foi gerente de produção do episódio Pedreira de São Diogo, dirigido por Léo Hirzsman.

Igualmente integrado no projeto UNE-Volante — uma caravana estudantil itinerante que percorria o país divulgando a cultura popular e documentando várias cidades do Brasil — o então jovem cineasta passa por Sapé, na Paraíba, e conhece Elizabeth Teixeira, viúva do líder da Ligas Camponesas, João Pedro Teixeira, durante uma manifestação em protesto contra a morte do líder camponês, assassinado poucos dias antes por causa de sua luta.

Filmando a luta camponesa

Bastante indignado com aquela situação, Eduardo Coutinho propõe ao CPC a realização de um longa-metragem de ficção sobre a vida de João Pedro, com um elenco formado por camponeses locais e pela própria Elizabeth. Começava assim o projeto de Cabra marcado para morrer, uma das mais importantes obras cinematográficas do Brasil.

"Cheguei na manifestação e a figura de Elizabeth me impressionou muito, por sua força e beleza. Naquele momento resolvi filmá-la. Foi a primeira vez que filmei em toda a minha vida, aliás, primeira e última, porque não sei manusear uma câmera, e tive que fazer isso naquele dia porque o fotógrafo ficou doente. Essas imagens, que não seriam usadas no filme de 1964, porque ele seria de ficção, pude aproveitar no documentário de 1984", diz.

Coutinho afirma que as filmagens em 1964 correram tranquilamente, sem nenhuma represália, até o golpe de 1º de abril. "O filme foi produzido pelo CPC e o Movimento de Cultura Popular de Pernambuco, com recursos do Ministério da Educação, porque aquilo que se tornou subversivo a partir de abril de 1964 era antes perfeitamente legal", declara.

Segundo o cineasta, havia ameaças dos latifundiários e da polícia contra os camponeses, mas essas não chegavam até sua equipe. Ele continua: "Quinze dias antes de começarem as filmagens houve um choque no campo, na zona de Sapé, entre camponeses e feitores representantes do latifúndio, no qual morreram onze pessoas, de ambos os lados. Por esse motivo, a zona foi ocupada pela polícia militar e se tornou impossível filmar lá. Fomos então para Galiléia, em Pernambuco, e trabalhamos tranquilamente por um mês e pouco, até o golpe", lembra. A decisão de deslocar a equipe para Galiléia não foi aleatória. Exatamente nessa cidade, anos antes, havia sido fundada a primeira Liga Camponesa do Nordeste, sendo a área adequada, portanto, às intenções dos realizadores de Cabra marcado para morrer.

Interrompidas as filmagens com o golpe de 64, que reprimiu violentamente a organização camponesa e popular do Nordeste e do país, o filme foi dado por todos como perdido para sempre. Porém, em 1981, dezessete anos depois, Eduardo Coutinho decide retomar o filme, mas não havia nenhuma notícia sobre o paradeiro de Elizabeth Teixeira. "Consegui localizar seu filho Abraão e soube que ela estava viva e topava fazer o filme. Ele então me levou à cidade de São Rafael, interior do Rio Grande do Norte, onde Elizabeth estava morando", conta.

Recomeçados os trabalhos em 1981, somente em 1984 acabaram as filmagens, passando-se mais dois anos de trabalho até chegar a montagem final. O esforço de reencontrar todas as pessoas que estiveram presentes em 1964 foi longo, mas bastante proveitoso. Os filhos de Elizabeth estavam espalhados, os antigos líderes das Ligas Camponesas se mostravam retraídos. Mas, como resultado, obteve-se o perfil de toda uma época, que de modo extremamente lírico foi reconstruído através de imagens e depoimentos simples.

"A montagem do filme foi muito difícil para mim, porque tive que trabalhar com dois tempos históricos, com idas e vindas, passado e presente. Chamei o Eduardo Escorel, que é um grande montador, para trabalhar comigo, porque precisava de uma visão que não fosse a minha", confidencia, acrescentando ainda que o trabalho de Escorel foi essencial para que se conseguisse chegar ao resultado final do filme.

Obra-prima

Cabra marcado para morrer ganhou vários prêmios internacionais, entre eles: Tucano de Ouro no Fest Rio/85, Coral de melhor documentário em Havana, Festival Du Réel, em Paris, Festival de Berlim, Festival de Tróia em Portugal e Salso, na Itália.

Sobre Elizabeth, Coutinho diz que o Cabra fala muito mais do que ele possa dizer. Uma pessoa maravilhosa, que demonstrou ser forte e corajosa, tanto na primeira versão do filme, em 1964 — deixando seus filhos pequenos na Paraíba e se deslocando para Pernambuco, onde filmavam, sem temer represálias — quanto também na segunda versão, em 1984, quando saiu de onde estava vivendo clandestinamente, para revelar a sua história de vida. "É uma pessoa de quem gosto muito e agradeço por ter me dado a oportunidade de retomar sua história, a minha e a de um momento social", diz com carinho.

"Hoje praticamente só nos falamos por telefone. Quando vou à Paraíba nos encontramos, mas isso quase não acontece. Depois do filme a encontrei pessoalmente umas três vezes, sendo que em uma delas fomos juntos a São Paulo para participarmos de um programa de televisão e em outra ocasião fui a sua casa, em João Pessoa."

Preferência pelo documentário

Sua preferência pelo documentário surgiu quando realizou o primeiro: "Descobri que era isso que queria fazer na vida. Em geral, se começa fazendo documentário e depois vai para a ficção, mas eu fiz o contrário: comecei na ficção e fui para o documentário."

Com a interrupção de Cabra, em 1964, Eduardo Coutinho passou a trabalhar em vários projetos no campo da ficção cinematográfica. Escreveu o roteiro de A falecida e Garota de Ipanema, ambos de Léo Hirszman. Colaborou nos roteiros de Os condenados, de Zelito Viana; Lição de amor, de Eduardo Escorel e Dona Flor e seus dois maridos, de Bruno Barreto. Dirigiu O pacto, um dos episódios de ABC do amor; Faustão, inspirado na obra de Shakespeare, um filme que fala da luta de classes; e atuou como diretor substituto em O homem que comprou o mundo.

Em 1975 integrou-se à equipe do programa Globo Repórter, na TV Globo, onde trabalhou por nove anos, e teve sua primeira experiência como documentarista. Depois do sucesso de Cabra marcado, Coutinho abandonou o programa e passou a dedicar-se à produção de documentários em vídeo, como os médias-metragens Boca do lixo, sobre catadores de lixo; Santa Marta — duas semanas no morro, sobre a vida na favela Dona Marta, em Botafogo, Rio de Janeiro; Volta Redonda — memorial da greve, sobre as mortes de operários durante uma greve metalúrgica na Companhia Siderúrgica Nacional; O jogo da dívida, sobre dívida externa; A lei e a vida, abordando a questão do meio ambiente, e Romeiro do Padre Cícero, sobre romaria a Juazeiro.

Também realizou os longas O fio da memória, sobre o negro na história brasileira; Santo forte, sobre religiosidade popular; Babilônia 2000, com depoimentos de moradores do morro da Babilônia (Rio), sobre novo milênio, e Edifício Master, o seu mais recente trabalho, sucesso de público e crítica, que revela o conteúdo de um prédio de 276 apartamentos conjugados, em Copacabana (Rio).

Para realizar esse filme, Eduardo Coutinho, alugou um apartamento no prédio e todos os dias, subiu e desceu alguns andares em busca de seus personagens. "O objetivo do filme não é mostrar Copacabana, e nem dizer que o bairro é um inferno ou paraíso do mundo. O importante é entender que aquele edifício não é específico do bairro, mas de qualquer metrópole no mundo inteiro, onde a solidão, violência e todo tipo de pressão da grande cidade aparecem embutidas na vida de seus moradores. O prédio poderia estar localizado em Moscou, Buenos Aires, Paris, Cidade do México, por exemplo", explica.

Revelando a alma popular

O trabalho de Eduardo Coutinho é caracterizado pela profundidade e sensibilidade com que aborda problemas e aspirações daqueles que quer mostrar, seja no sertão ou em grandes favelas. A vida cotidiana do povo é sua matéria-prima. "Os documentários são feitos para que as pessoas se projetem neles, assim como o fazem nos filmes de ficção. Tento fazer trabalhos que sejam o mais próximo possível da vida humana, para que o expectador possa entrar dentro do filme e habitá-lo", conta.

Coutinho espera que seus filmes sejam uma revelação para quem vai ver, ensinando de uma forma indireta, sem que tenha sido feito com a intenção de ensinar. Para ele, uma mulher como Elizabeth Teixeira não está em seu documentário para ser uma professora, mas tem uma vida, uma história de lutas e sofrimentos. "Muitas vezes a força da vida de uma pessoa vale por cinquenta outras dando aulas e explicando", afirma.

"O filme Santa Marta, por exemplo, mostra o cotidiano de favelados que convivem com violência dentro e fora de casa. Seus personagens falam mais do que milhares de reportagens sobre isso, que aparecem na televisão. Eles têm liberdade para dizer o que pensam, sem a preocupação dos documentários educativos, como programas de governo, que são feitos para falar bem de algo", acrescenta. "Ao filmar, tento tirar o máximo possível a minha intenção político/ social individual, para deixar os expectadores livres para julgar, porque acredito que quando uma pessoa vai ver um filme, leva toda uma carga cultural, de preconceitos, de conselhos que carrega em si, e essas coisas vão influenciar na maneira como assimilará o conteúdo. Espero que vendo os meus filmes, tenha visões, revelações, de que eventualmente o que pensa sobre determinada situação não está tão certo", acrescenta.

"Não quero mudar ninguém e sim mostrar o que existe, o imaginário popular, para que possa conhecer e conhecendo, possa tentar mudar alguma coisa, porque ninguém pode mudar nada, sem conhecer o que já existe. A denúncia, por exemplo, não é o meu ponto de partida, mas se o filme for bom, ele é uma boa denúncia, caso contrário, não adianta nada. Acredito que um filme tem que ter qualidade dramática e estética, para que a mensagem e a denúncia valham a pena porque, caso contrário, a obra dura dois ou três dias e é jogada fora", continua.

Coutinho crê também na necessidade de separar as denúncias que aparecem diariamente nos jornais, de algo que seja duradouro. "Se o filme não dura, não me interessa, porque nós não duramos. Acho que o Cabra, por exemplo, dura e durará. Daqui a dez anos alguém vai ver o filme e o Brasil está lá", finaliza.

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