Cobras iluminam a música popular

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Cristiane Cotrim, cavaquinho; Ricardo Cotrim, percussão;
Pedro Pamplona e Thiago Queiroz, sopro; Pedro Mazilo, violão;
Melissa Ferraz e Pedro Miranda, percussão e voz formam o Cordão do Boitatá

Se por definição cordão quer dizer reunião de pessoas com a finalidade de se divertir e que acolhe todos que quiserem aderir, quase assim se pode afirmar que surgiu o Boitatá*. Um grupo de amigos, todos moradores do Rio de Janeiro, com um gosto em comum: músicas que não tocavam nas rádios e que tinham sido compostas muito antes deles nascerem. Eles explicam essa preferência pelo cuidado dos arranjos e a qualidade sonora dessas músicas mais elaboradas do que as atuais.

Em 1997, o grupo (mais precisamente o Cordão) resolve ir para a Av. Rio Branco, Centro do Rio, com a coragem de fazer um desfile totalmente acústico, cantando as marchas que ouviram em carnavais da infância com os pais ou na coleção de discos Marcus Pereira, que consideram uma de suas melhores referências. O desfile foi muito bem acolhido pelos foliões e se repete todos os anos, decorrendo daí o vasto repertório carnavalesco. Foi a partir dessa memória afetiva que surgiu a curiosidade para descobrir músicas menos famosas, como Iaiá Boneca de Ari Barroso, e conhecer melhor a obra de Pedro Caetano e Anacleto de Medeiros, por exemplo. Desenvolver um trabalho relacionado com os festejos populares — carnaval, festa junina e pastoril; festa da carne, da terra e do espírito, respectivamente — foi caminho natural que seguiu o Cordão, pela diversidade de informação musical surgida com o tempo, no interesse de quem busca nos mestres um mundo rico de informação.

Há três anos o grupo tem a formação atual — Cristiane Cotrim no cavaquinho; Kiko Horta no acordeom; Melissa Ferraz e Pedro Miranda, percussão e voz; Pedro Mazilo, violão; Pedro Pamplona e Thiago Queiroz no sopro e Ricardo Cotrim na percussão — o cordão já teve muitos outros que foram saindo, conforme o grupo se profissionalizava. É bom não confundir o Cordão do Boitatá com um grupo folclórico. É, sim, um super Regional com a possibilidade de montar várias formações — do grupo de choro à banda de pífanos — intercambiando instrumentos quando, por exemplo, num baião a musicista Cristiane tem a possibilidade de troca o cavaquinho pela zabumba.

Trabalhos atuais

Neste mês o Cordão se apresenta no Centro Cultural Carioca com folguedos festejando Santo Antônio, São João e São Pedro. Na abertura será apresentado o trabalho autoral do grupo — material do CD que está para ser lançado — seguido de baile com repertório que vai das mais tradicionais músicas juninas à Jackson do Pandeiro, Luiz Gonzaga, Dominguinhos, João do Vale e Sivuca, entre outros. Tudo para fazer o povo dançar.

No fim do ano o grupo monta espetáculo Pastoril baseado no Auto de Natal de Pernambuco, que surgiu na vida deles através da família do acordeonista Kiko Horta — que realiza esse pastoril há 30 anos com crianças e a folia de reis do morro Dona Marta. No ano passado os músicos representaram os cordões azul e encarnado do Auto, com bonecos mamelungos que uma amiga trouxe das terras pernambucanas.

Mesmo afirmando não fazerem pesquisa formal de repertório, têm grande acervo, pois bebendo da fonte de grandes mestres foram se aprofundando em ritmos pouco difundidos, como o jongo — com mestre Darci da Serrinha —, o carimbó, o maxixe, o bumba-meu-boi do Maranhão, a ciranda, o calango, além do choro, da marcha e do samba. Com trabalho tão rico não é de espantar que o trabalho autoral siga a mesma linha. No CD há marchas, choros e jongos de autoria dos integrantes do Cordão, que há considerável tempo já se dedica a apresentações mais formais, com shows de uma hora ou pouco mais, em teatro, com arranjos e estrutura mais elaborados.

Não encontram muita dificuldade para conseguir partituras de clássicos ou de músicas pouco difundidas, pois com o grande número de grupos, hoje, tocando choro e samba na noite do Rio, fica fácil fazer intercâmbio de material. No entanto, a melhor fonte, como o próprio grupo afirma, é a Oficina do Choro, onde Luciana Rabello, Maurício e Álvaro Carrilho servem de referência para os que começam a trilhar esse caminho. Todos os integrantes do Cordão consideram muito importante o trabalho da Oficina, que disponibiliza farto material impresso, incluindo da tradicional Casas Édson — editora do começo do século XX —, além de sonoro, registrado pela gravadora Acari e pelos os cursos que ministram na Lapa, tradicional bairro da boemia carioca.

As festas populares trouxeram para o Cordão do Boitatá experiência preciosa que agora exercem no trabalho de composição e arranjos, na competência instrumental e vocal, na disposição de estar sempre em contato com as fontes mais ricas de nossa música: a cultura popular.


* Boitatá: Figura da mitologia indígena representada na maioria das vezes por uma gigantesca cobra de fogo que ilumina e defende as matas. Somente em Santa Catarina Boitatá é representado por um touro de fogo.

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