A desconhecida maravilha indígena

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A cada dia novas descobertas históricas e arqueológicas vêm comprovar o respeitável grau de conhecimento dos povos nativos do Brasil e da América do Sul. Ajudando a desmoronar a versão dos invasores brancos de então, e dos ideólogos imperialistas de hoje, de que a civilização, a ciência e o bem-estar chegaram às terras americanas com os europeus, e que os indígenas desta parte do chamado Novo Mundo — à exceção dos incas e outras poucas tribos — eram selvagens, pouco mais que macacos.
Um desses grandes feitos indígenas pré-colombianos, infelizmente pouco conhecido dos brasileiros, é o Caminho de Peabiru. Com mais de três mil quilômetros, o Peabiru foi a estrada transcontinental mais importante da América do Sul antes da chegada dos europeus. Ele ligava, segundo estudos, os Andes ao oceano Atlântico, servindo como ligação entre os nossos guaranis e os demais povos sul-americanos. Fascinante, misterioso, polêmico, tido como sagrado, o Caminho unia o litoral de Santa Catarina e São Paulo ao grande império inca no Peru.
Além de ser uma obra viária de grande competência, a existência do Peabiru revela, entre outras coisas, que os índios do sul do Brasil — ao contrário do que comumente se pensa — dominavam um conjunto de informações astronômicas sofisticadas, bem mais além do que as fases da lua ou a noção de dias e noites.
Buscando recuperar a memória de tão importante realização indígena e levá-la ao conhecimento de nosso povo, a reportagem de AND conversou com a jornalista e escritora paranaense Rosana Bond, correspondente do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo (IHGSP) em Florianópolis, e autora dos livros O caminho de Peabiru e A saga de Aleixo Garcia, o descobridor do império inca, além de pesquisadora do assunto há oito anos. Nesta entrevista exclusiva, ela afirma, citando o professor Samuel Guimarães que "se o Egito foi um presente do rio Nilo, a América do Sul foi um presente do Peabiru."

AND-O caminho de Peabiru foi descoberto recentemente?

Rosana Bond-Digamos que ele foi redescoberto recentemente. Depois de vários séculos quase esquecido, o Caminho começou a ser motivo de novas investigações na década de 90, quando surgiram os primeiros livros específicos sobre o tema.

Em 1996 saiu o meu, O Caminho de Peabiru, quando, com a ajuda preciosa do povo de Campo Mourão (PR), levantei o trajeto paranaense, paraguaio, boliviano e peruano da "estrada". Foi também nessa época que identifiquei o seu primeiro vestígio concreto, no município de Pitanga (PR), graças ao trabalho apaixonado de um funcionário local do IBGE, o sr. Clemente Gaioski.

Esse livrinho, escrito para as crianças de Campo Mourão, teve distribuição gratuita em várias cidades do Paraná e esgotou-se rapidamente.

Em 1997 Hernâni Donato, do IHGSP, lançou o seu excelente Sumé e Peabiru. E em 2002, Luiz Galdino publicou Peabiru — Os incas no Brasil.

A partir daí alguns outros pesquisadores têm igualmente se dedicado ao assunto. Mesmo assim, o Peabiru ainda continua fora dos nossos livros escolares. A louvável exceção foi a editora Ática, que no ano passado o incluiu num de seus paradidáticos de História, e também numa obra de literatura infanto-juvenil, da coleção Vaga-Lume, chamada Crescer é uma aventura, escrita por mim. Achei que seria bom para a gurizada conhecer uma história verdadeira narrada através das peripécias de um adolescente e uma tia meio maluca.

AND-O que era o Peabiru?

RB-Ele foi a mais importante via transcontinental da América do Sul pré-colombiana, segundo definiu Reinhard Maack, da Universidade Federal do Paraná (UFPR) em 1959. Era uma "estrada" indígena com um tronco e uma série de ramais, formando uma rede. O professor Samuel Guimarães da Costa escreveu nos anos 70, no jornal O Estado do Paraná, que "se o Egito é um presente do Nilo, a terra hoje paranaense é o legado de um caminho pré-histórico que se apagou na geografia da colônia". Vou um pouco além, acho que a América do Sul é que é o legado do Peabiru, não apenas o Paraná, ou Santa Catarina, ou São Paulo.

AND-Essa "estrada" realmente existiu?

RB-Há autores, entre eles Júlio Estrela Moreira (Caminhos das comarcas de Curitiba e Paranaguá) que negam a existência do Peabiru. Mas há outros que não opõem a menor dúvida. Partem de relatos feitos desde 1500.

Em 1555 o ex-adelantado (governador) do Paraguai, Álvar Nuñes Cabeza de Vaca, contava sua caminhada desde a Ilha de Santa Catarina, hoje Florianópolis, até Assunção usando "o caminho milenar feito por estes índios, o Peabiru...". Em 1612 o cronista Ruy Díaz de Guzmán falava também do Peabeyú, um caminho bem marcado. O padre Antonio Ruiz de Montoya, criador das reduções jesuíticas da região do Guairá (Paraná) escrevia em 1639 que viu "...um caminho que tem oito palmos de largura..."

Para Hernâni Donato, que considero o maior especialista brasileiro no assunto, não há o que discutir. "Dezenas de personalidades viram, usaram, testemunharam", assegura ele no seu Sumé e Peabiru.

AND-Por onde passava o Caminho e qual a sua extensão?

RB-A linha tronco tinha cerca de 3 mil quilômetros, ligando o Atlântico ao Pacífico, ou seja, ia do Brasil ao Peru ou vice-versa. Unia o litoral de Santa Catarina e São Paulo ao litoral peruano. No trajeto, o Brasil (Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Mato Grosso do Sul), Paraguai, Bolívia e Peru.

AND-E como se sabe que chegava até o Peru?

RB-Diversos pesquisadores, entre eles o arqueólogo Igor Chmyz, da UFPR, verificaram que curiosamente o Peabiru "entrelaçava-se" com as estradas construídas pelos incas. Além disso, as evidências sobre os contatos entre tribos brasileiras e os índios peruanos levaram à conclusão de que efetivamente havia um caminho terrestre fácil e conhecido. Sobre isso, há inúmeras histórias. Uma delas, interessantíssima, foi narrada em livro por Marcus Acquaviva, do South American Explorers Club: "Nossa galinha doméstica, introduzida no Brasil em 1502, pouco tempo depois cocoricava perante um assombrado rei peruano, que jamais tinha visto ave tão estranha!" Sem falar do anzol metálico, que tão logo chegou ao nosso país, foi levado rapidamente aos incas de Cuzco. E mais, levado com o mesmo nome tupi-guarani que recebeu aqui: pindá.

AND-É possível saber a rota exata do Caminho?

RB-Exata, não. Mas pesquisei diversas fontes, analisei semelhanças e diferenças e creio que, mesmo sem precisão, é possível traçar um roteiro entre o Brasil e o Peru. O trecho paulista, que começava em São Vicente e Cananéia, era muito importante. Histórico também foi o ramal paranaense de Campo Mourão, perto de onde há até um município denominado Peabiru.

Mas, como estou um pouco mais familiarizada com o ramal sul, aquele que começava em Santa Catarina, falarei apenas dele.

Partindo talvez do atual município de Palhoça (Massiambu) e Florianópolis, a trilha ia até Barra Velha, penetrando continente adentro no rumo do rio Itapocu. Cruzava o nordeste catarinense, passando possivelmente por Guaramirim e São Bento, e chegava ao Paraná.

Já dentro daquele estado, passava em Castro e seguia pelas cabeceiras dos rios Ivaí e Cantu. Chegava ao médio Piquiri, indo pela margem esquerda deste até cruzar o rio Paraná, acima de Guaíra. Havia outra passagem por Foz do Iguaçu, mas esta não era a original da linha tronco, segundo afirmaram Reinhard Maack e Jaime Cortesão. Atravessando o rio Paraná, estava-se no Paraguai.

A entrada do Peabiru na terra paraguaia se fazia por dois ramais. O primeiro era rio Mondaí-Assunção/rio Paraguai-Chaco. O segundo era rio Iguatemi-Alto Chaco-Porto Casado. Os dois ramais se juntavam no Chaco. O Peabiru, então, seguia o rio Paraguai ao norte até a serra de Santa Luzia.

Em Corumbá e Puerto Suarez, guinando a oeste, penetrava na Bolívia, passando por Cochabamba-Sucre-Potosí. Nesses locais existiam caminhos incas e era provavelmente ali que o Peabiru já se confundia com eles.

A partir de Potosí, a estrada inca seguia pelo rio Desaguadero, ou por uma linha paralela mais ao norte. Alcançava depois o lago Titicaca, entrando no Peru. Contornava o lago pelo norte e sul. A bifurcação se unia em Cacha, voltando a ser uma via única.

Essa via rumava para Cuzco, a capital incaica. A partir dali havia várias opções para alcançar o Pacífico. As mais próximas eram as trilhas para o litoral de Tacna, Moquegua e Arequipa.

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AND-Como se sabe que o Peabiru passava por Santa Catarina?

RB-Porque desde o século XVI já se falava disso. Primeiro foi a expedição do português-catarinense Aleixo Garcia, que aproximadamente em 1523 saiu da Ilha de Santa Catarina, trilhou o Peabiru e descobriu os incas antes dos espanhóis. Aleixo foi o primeiro homem branco que andou sobre o Peabiru, pouca gente sabe disso. E também são poucos os que sabem que o império incaico não foi descoberto pelo espanhol Francisco Pizarro, como dizem os livros de História. E sim por esse desconhecido "brasileiro", náufrago, morador de Santa Catarina, chamado Aleixo Garcia.

Mas essa é uma outra fascinante história, que deixaremos para outra ocasião. Mais tarde, houve o relato de Cabeza de Vaca no seu Naufrágios e Comentários.

AND-E por onde cruzava essa trilha dentro do território catarinense?

RB-No momento é difícil dizer porque as informações são contraditórias. Em breve, se conseguir alguns recursos, devo fazer um levantamento histórico para tentar identificar corretamente o roteiro.

AND-O Peabiru não passava por Florianópolis?

RB-Ao contrário do que sempre se diz, ou seja, que o Caminho iniciava-se no rio Itapocu, em Barra Velha, acredito que a atual Florianópolis, a área do Massiambu e talvez até Laguna tenham sido atendidas pelo Peabiru.

É só uma hipótese. Mas há uma certa lógica em pensar o seguinte: se a história diz que eram os guaranis da Ilha de Santa Catarina e do Massiambu (município de Palhoça) que praticavam o Peabiru, guiando homens brancos ao Paraguai e ao Peru, por que esse Caminho começaria apenas no Itapocu e não na área da capital catarinense?

Embora haja indícios de que se fazia o trecho Florianópolis-Itapocu por mar, não se pode descartar a presença de uma via terrestre (Peabiru) por ali. A antropóloga e mestre em arqueologia Deise Montardo, da Univeridade Federal de Santa Catarina (UFSC), considera possível a ocorrência de uma trilha indígena entre Florianópolis e o Itapocu. E o geógrafo Augusto Zeferino, também da UFSC, fala claramente dos peabirus existentes na capital em sua obra Caminhos e trilhas de Florianópolis.

AND-O Peabiru era uma simples trilha aberta na mata ou possuía calçamento?

RB-Tudo indica que dependendo do terreno— selva, pântano, zonas pedregosas, etc.— o Caminho tinha características diferentes. O padre Lozano o descreveu de forma interessante: oito palmos de largura e forrado com uma grama miúda.

Moysés Bertoni, grande estudioso da cultura guarani, disse que esses índios semeavam suas trilhas com gramináceas de sementes glutinosas que grudavam nos pés e pernas dos viajantes. Assim, ao caminhar, ia-se multiplicando o plantio.

Há relatos de que certos trechos eram pavimentados com pedras, do mesmo modo que as vias incaicas. Donato menciona dois prováveis achados: um perto da aldeia de Meruri (MT); o outro a 50 km do rio Miranda (MS).

No norte de Santa Catarina há um trecho de escadaria de pedra, com mais de três mil degraus, em Garuva, antigamente chamada Estrada das Três Barras, mas sobre o qual não há confirmação de pertencer ao Peabiru. O padre Tarcísio Marchiori, antigo investigador de temas indígenas catarinenses, acredita que várias trilhas empedradas naquela região foram feitas por homens brancos a partir do século XIX, conforme cópias de ordens de serviço que tem em mãos.

AND-Que outras características tinha o Caminho?

RB-O astrônomo Germano Bruno Afonso, do Departamento de Física da UFPR, notou que coincidentemente ou não, existiam diversas marcações astrônomicas, a maioria feita em pedra, ao longo do percurso do Peabiru.

Eram gravações rupestres e monólitos com orientação astronômica (indicando solstícios, equinócios, pontos cardeais e até constelações) que demonstravam um conhecimento bastante aprimorado.

Tais pedras, verdadeiras obras científicas, foram trabalhadas por índios brasileiros. Talvez pelos itararés, talvez pelos guaranis, não se sabe. Uma dessas peças de pedra, uma espécie de calendário solar, foi localizado pelo professor Germano em Mangueirinha (PR), numa zona que foi afetada pela usina de Segredo.

Outro conjunto enorme e interessante de pedras orientadas está em Florianópolis, na ponta catarinense do Caminho.

AND-O que significa o nome Peabiru?

RB-A palavra é de origem tupi-guarani e para ela há uma grande variedade de traduções. Há uma pequena lista: "Caminho forrado, entulhado"; "Por aqui passa o caminho antigo de ida e de volta"; "Caminho pisado, pegada do caminho, marca do caminho"; "Caminho ralo, caminho sem ervas"; "Caminho brando, suave"; "Caminho cujo percurso se iniciou"; "Caminho tortuoso, cheio de voltas"; "Caminho que leva ao céu, ou às alturas".

AND-E quem teria construído essa estrada?

RB-Os estudos não são conclusivos, há diversas teses. Citarei apenas três, que considero as mais notáveis:

1Caminho da Terra Sem Mal: Os guaranis, saídos do Paraguai, teriam se deslocado para o litoral catarinense entre os anos 1000 e 1300. O Peabiru teria sido aberto nessa migração, cujo objetivo seria a procura de um paraíso, a chamada Terra Sem Mal, Yvy marã ey.

"Crêem que (a Terra Sem Mal) está situada na direção leste, onde nasce o sol, e as migrações dos povos guaranis os levavam à sua busca naquele lado. Muitos chegaram à costa atlântica...", afirma o estudioso paraguaio Dionísio Gonzalez. A motivação religiosa teria transformado o Peabiru em algo sagrado para os guaranis.

2Caminho dos incas: A rede viária incaica no Peru, Equador, Argentina e Bolívia, com 16 mil quilômetros, era impressionante. Victor von Hagen, da Sociedade Geográfica dos EUA, que fez um levantamento completo daquele sistema estradal nos anos 50, chegou a compará-lo com a dos romanos: "(...) Conquanto não se possa negar a Roma seu lugar ao sol da civilização, os incas, que viviam num horizonte cultural neolítico, presos a instrumentos de pedra, conceberam um sistema de comunicação que se situa num ponto elevadíssimo em confronto com o romano."

Vários autores levantam a hipótese de que os incas teriam aberto o Peabiru. Romário Martins, Augusto Pinto, o Barão de Capanema e Caldas Tibiriçá supunham que os andinos desejassem ligar Cuzco ao Atlântico, dentro de uma concepção expansionista do império.

Luiz Galdino, autor de Itacoatiaras, uma pré-história da arte no Brasil e Peabiru — Os incas no Brasil e Hernâni Donato dizem que os incas podem ter estado em praias sul-brasileiras. Florianópolis (SC), Guaratuba (PR) e litoral santista incluídos. Sugerem que através do Peabiru, funcionários do soberano inca podem ter visitado S. Catarina, Paraná e S. Paulo, até com uma certa assiduidade, para avaliar a possibilidade de contatos comerciais. "Mera prospecção", diz Donato.

Galdino acredita que as viagens dos batedores incas ocorreram em época recente, pouco antes da vinda dos europeus, e eram realmente uma tentativa daquele império de colocar um pé no Atlântico. "Só que aqui a imensa confederação Carió (Guarani), no sul, e Tupinambá, de Cananéia para cima, botaram-nos para correr" — afirma ele, bem-humorado.

Mesmo sem relações duradouras, as idas e vindas de guaranis e incas pelo Peabiru deixaram vestígios de uma certa influência cultural. Tenho pesquisado algumas coisas. Por exemplo:

  • Na astronomia: os meses do ano são relacionados à lua (jassy, em tupi-guarani e killa, no idioma quíchua, praticado pelos incas).
  • Na estatística: o ainhé (cordão de cipó guarani) é semelhante ao quipu (cordão com nós, dos incas, usado para contagem).
  • Na música: grupos guaranis adotaram a flauta de pã dos Andes.
  • Nas armas: a macaná guarani (clava, borduna) é muito parecida com a maqana dos incas.
  • Na denominação de fauna, flora: sara (espiga, em guarani; milho em quíchua); cui (animal roedor, nos dois idiomas); jaguar, jaguara (felino, nos dois idiomas); mandioca (guarani) e ioca ou iuca (quíchua), suri (ema, nos dois idiomas).

3Caminho de São Tomé: Segundo essa versão, o caminho teria sido aberto por São Tomé, apóstolo de Cristo. A passagem de Tomé pela América foi bastante mencionada a partir do século XVI. Entre os depoimentos estão os dos padres Montoya, Lozano, Manoel da Nóbrega e da Newe Zeitung Ausz Persill landt (Nova Gazeta da Terra do Brasil, 1508).

A versão corrente é a que um homem branco, barbudo, trajando um camisolão — identificado como o apóstolo — teria chegado ao Brasil "andando sobre as águas". Chamado de Zumé, Sumé ou Pay Sumé pelos índios, esse personagem teria falado de um deus único e transmitido aos nativos uma série de conhecimentos.

Em sua peregrinação, teria percorrido trechos do Brasil e ido rumo ao Paraguai e ao Peru, abrindo então o Caminho de S. Tomé (Peabiru). Em terras paraguaias foi chamado de Sumé. Saindo dali, a figura teria continuado a abertura do Caminho até os Andes, onde foi chamado de Kon Illa Tijsi Viracocha — também conhecido por Kon Tiki e Viracocha.

Donato frisa que o fascínio por Tomé-Sumé-Viracocha fez com que Villa-Lobos compusesse a sinfonia Sumé-Pater Patrium.

Para Donato, é possível que esse homem branco, identificado como o apóstolo Tomé, na verdade fossem várias pessoas e pertencessem ao grupo do monge Brandão, que saiu da Islândia no século XII e retornou para lá narrando sua passagem por um distante paraíso terrestre, talvez a América.

Segundo Sérgio Buarque de Holanda em seu Visão do Paraíso, a devoção suscitada pela descoberta do Caminho de São Tomé na América no século XVI foi tamanha que quase desbancou o de Santiago de Compostela: "Pouco faltaria, em verdade, para que não apenas na Índia, mas em todo o mundo colonial português... essa devoção tomasse um pouco o lugar que ...tivera o culto bélico de outro companheiro e discípulo de Jesus, cujo corpo se julgava sepultado em Compostela."

AND-Ainda existem trechos do Peabiru?

RB-No Brasil, praticamente não sobrou nada. A ocupação do território pelas lavouras e cidades fez a trilha desaparecer. Há apenas uns poucos vestígios em Pitanga (PR). Nos anos 70, o professor Igor Schmyz localizou um pequeno trecho de um ramal em Campina da Lagoa (PR), mas este, segundo ele, foi destruído pela atividade agrícola pouco tempo depois.

Os governos e as classes dominantes, nestes 500 anos, têm se lixado para o patrimônio arqueológico do país. Ainda mais se esse patrimônio envolve a memória indígena. Nos demais países da América Latina ocorre o mesmo. A maior parte do acervo pré-colombiano da nossa América foi rapinado pelos imperialistas europeus e dos USA. Primeiro eles destruíram tudo o que puderam; depois, o que sobrou levaram para os seus ricos museus.

A parte física, — ruínas de cidades indígenas, templos, estradas, etc. — só recebe (alguma) conservação quando gera dinheiro. Caso de Machu Picchu no Peru, Teotihuacán no México, ou a Ilha de Páscoa no Chile. O resto está caindo aos pedaços. As importantíssimas e ainda não decifradas inscrições (itaquatiaras) nas pedras de Ingá, na Paraíba, estão indo para o beleléu.

As centenas de sítios rupestres de Florianópolis, ligados ao Peabiru, nunca foram tombados — o primeiro tombamento foi feito há apenas três anos e beneficiou somente a Ilha do Campeche. Essas pedras sofreram uma destruição bárbara e só agora devem ter uma pequena parte protegida num parque.

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