Entre a guerra e a preservação

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No Iraque estão os locais identificados pela tradição como o Éden bíblico e o lugar de partida do profeta Abraão em busca da Terra Prometida. Entretanto, tal riqueza histórica não foi suficiente para impedir verdadeiros crimes cometidos contra esse patrimônio humano de tanto valor

Antes do início da presente agressão ao Iraque, muitos meios de comunicação veicularam a notícia do grande interesse, por parte dos Estados envolvidos no conflito, em proteger o patrimônio histórico-cultural do Iraque. Interesse apoiado em escala mundial. Foram estabelecidas comissões, ouvidos diversos especialistas e enaltecido um forte sentimento de preservação da cultura e das relíquias existentes no território iraquiano.

O Iraque se localiza numa região extremamente rica em registros arqueológicos que remontam à Pré-história e vão aos tempos islâmicos, passando por sumérios, babilônios, assírios e persas. Existem centenas de milhares de sítios arqueológicos, muitos já identificados e registrados, mas apenas uma pequena parcela explorada por campanhas arqueológicas oficiais.

A região que corresponde hoje ao moderno Iraque foi o cenário do surgimento dos primeiros esforços humanos para a domesticação dos animais e o empreendimento da agricultura há alguns milênios. Na região dos rios Tigre e Eufrates surgiram as primeiras cidades da história e, ao que tudo indica, a escrita — no sul mesopotâmico foram encontrados os primeiros registros escritos de que se têm notícia: tabuletas de argila com a escrita cuneiforme. Na região onde ainda há restos da Torre de Babel, também foram inventados a roda e o vidro, desenvolvidas a matemática e outras ciências legadas ao Ocidente. Por todo o país, observam-se importantes exemplos da arquitetura antiga e evidências de cidades relevantes para a história da humanidade, como Ur, Babilônia, Mosul, Nínive e Nimrud, entre outras.

No Iraque estão os locais identificados pela tradição como o Jardim do Éden bíblico e o lugar de partida do profeta Abraão em busca da Terra Prometida. Entretanto, tal riqueza histórica não foi suficiente para impedir verdadeiros crimes cometidos contra esse patrimônio humano de tanto valor. Não respeitando a integridade territorial nem o direito inalienável do povo iraquiano, a sua autodeterminação, as potências imperialistas — com o USA à frente — promoveram uma das mais odiosas guerras de agressão de nosso século. Buscando controlar as riquezas naturais da região, principalmente o petróleo, e afirmando a ferro e fogo sua hegemonia no Oriente Médio, o USA bombardeou, saqueou e destruiu casas, hospitais, escolas e muitos vestígios dos primeiros passos da humanidade.

Embora os saques, as depredações e as destruições de evidências e sítios arqueológicos não tenham começado durante essa guerra, muito do que ocorreu recentemente nos leva a reflexões sobre o sentido da arqueologia e de sua relação com o pleno e livre desenvolvimento da humanidade, até hoje emperrado por formas de organização social baseadas na exploração do homem pelo homem.

A utilização dos objetos como mercadoria ou peças de coleções privadas e museus, se confunde com os primeiros passos da Arqueologia como ciência. Antes dos estudos arqueológicos se estabelecerem como um dos meios para preservar o contexto, observar as peças como documento e estudá-las de acordo com metodologias e teorias, diversos sítios ao redor do mundo sofreram com os saques de material precioso, que posteriormente formou grandes acervos de peças descontextualizadas e valiosas para os colecionadores.

A Arqueologia possui uma sistematização de estudos que não serve apenas para demonstrar um rigor científico nos meios acadêmicos. Essa sistematização possibilita uma análise consistente de fontes que permitem transparecer o panorama cultural desenvolvido pelos seres humanos através dos tempos. A partir da observação do cenário natural, das relações entre paisagem, monumentos arquitetônicos e objetos produzidos, podem ser traçados diversos modelos de interpretação das culturas humanas desenvolvidas por todo o planeta.

A Arqueologia possui um papel relevante no cenário político, uma vez que seu conhecimento por vezes é utilizado para que sociedades atuais reclamem direitos territoriais ou de origem, a partir dos documentos e sítios evidenciados. Além disso, carrega em si a obrigação de divulgar e defender os patrimônios da humanidade e de compartilhar o conhecimento na forma da recuperação da memória, do patrimônio cultural e social, do resgate de heranças, tradições e origens de nossa cultura, próximas e distantes.

No entanto, muitos dos importantes objetos da antiguidade mesopotâmica foram revelados ao mundo através de escavações clandestinas, saques e pilhagens ocorridas há tempos, e que persistem até hoje. Como ocorreu em outras partes do mundo, peças arqueológicas relevantes dessa rica sociedade histórica fazem agora parte do acervo de muitos museus públicos ocidentais.

A região possui um longo histórico de destruição e pilhagem de seu patrimônio histórico. As explorações arqueológicas iniciais assemelhavam-se mais a grandes operações de butim. A finalidade principal era obter belos objetos de arte e descobrir textos importantes, sobretudo aqueles que tinham relações com a tradição bíblica. O resultado foi uma grande transferência de objetos e tabuletas para os principais museus das potências colonizadoras da Europa e para o USA.

Parte dos tesouros das tumbas reais de Ur, dos relevos palaciais de Kalhu (Nimrud) e da famosa biblioteca de Assurbanipal, em Nínive, encontram-se em Londres. Os touros alados de Khorsabad, a antiga capital de Sargão II, podem ser vistos no Louvre, em Paris, ao lado da estrela do código de Hammurabi. A Porta de Ishtar da Babilônia foi desmontada, tijolo por tijolo, e enviada quase inteiramente a Berlim. Durante a época de domínio otomano, as autorizações de escavação eram dadas mediante o envio de parte dos resultados para os museus turcos. É assim que, hoje, Ankara e Istambul têm grandes coleções mesopotâmicas.

Essa situação só começou a se alterar a partir de 1932, com a independência do Iraque e depois de uma lei de proteção do patrimônio nacional que determinou que todo material escavado ficasse no país.

É de grande relevância a preocupação que expressaram arqueólogos e pesquisadores da cultura iraquiana em relação à invasão militar do USA e a deflagração dos ataques contra o povo iraquiano, uma das inevitáveis causadoras de destruição de alguns monumentos e sítios arqueológicos. E é de maior importância o efeito que tais medidas causaram na opinião pública.

Entretanto, percebe-se que muito do que foi discutido antes e durante os conflitos parece perder um pouco a atualidade em "tempos mais calmos". As finalizações aparentes dos combates, que causam um afrouxamento parcial às vidas em perigo, podem acarretar possíveis estados de anarquia e criar cenários confusos de pós-guerra, ideais para os saques e pilhagens, um outro tipo de violência aos objetos expostos nos museus ou ainda presentes em seu contexto original, provocando mais danos às antiguidades ali expostas.

Pior ainda é o descaso. Um assunto tão importante como a preservação do patrimônio torna-se secundário, pois quando se fala em destruição do patrimônio histórico, as atenções concentram-se normalmente sobre os estragos imediatos da guerra.

Durante a Guerra do Golfo na década de 90, todas essas questões já foram experimentadas. Estabelecido o cessar-fogo, os danos e os saques a museus e bibliotecas se multiplicaram, em consequência de distúrbios internos. Durante esse período, cerca de 13 museus foram gravemente afetados. Nove deles necessitavam de restauração e os outros de reconstrução. Seis bibliotecas foram inutilizadas. Além disso, cinco museus foram completamente saqueados, e outros quatro de forma parcial.

Quase a totalidade das peças tiradas do Iraque — tabuletas de argila, marfins, utensílios de metal, manuscritos islâmicos coloridos, jóias, moedas de ouro e prata, estátuas, cerâmica e esculturas em pedra e marfim — foram parar no mercado clandestino de obras de arte. Em 1994, especialistas de todo o mundo, incluindo vários ianques, reunidos em Bagdá, lamentaram o dano ao patrimônio histórico e disseram que devido à guerra foram tirados dos museus iraquianos pelo menos 3.500 peças previamente catalogadas.

É, entretanto, nos acontecimentos corriqueiros, que não dependem necessariamente de um contexto conflituoso, que ocorre o maior desrespeito à cultura passada. O mercado negro e os traficantes de antiguidades produzem grande parte das perdas dos artefatos, uma vez que muitos objetos e textos conhecidos dos especialistas e do público provêm de escavações clandestinas. O tratamento dos artefatos como mercadorias valiosas se traduz em violência ao patrimônio, como qualquer outro meio destrutivo. A transferência de objetos para outros territórios a fim de protegê-los pode constituir uma forma de preservação, ainda que arriscada. E, finalmente, os acervos em museus públicos que, aparentam a princípio uma forma ideal de preservação e divulgação, podem fornecer o campo ideal para a destruição em massa dos artefatos. Assim aconteceu nos saques ao Museu Nacional de Arqueologia de Bagdad, de onde retiraram mais de 100 mil peças, dando continuidade à pilhagem histórica que se repete ciclicamente no que foi antigamente a Mesopotâmia.

A importância do patrimônio histórico iraquiano excede as fronteiras do país; os objetos e textos que o compõem são fundamentais no esclarecimento de questões cruciais para o entendimento do passado de toda a humanidade. O território do Iraque corresponde, grosso modo, ao que podemos chamar efetivamente de "berço da civilização". Isso significa que o que resta hoje no território iraquiano, na forma de milhares de sítios arqueológicos, é um material insubstituível no estudo de alguns dos mais relevantes processos de transformação na história da humanidade.

Mas a preocupação em preservar o patrimônio cultural, seja no Iraque ou em qualquer outra parte do mundo, não deve ser um assunto de temporada.

As leis relacionadas ao cuidado com o patrimônio histórico e arqueológico são comumente violadas. Para o caso do Iraque, foi citada a Convenção de Haia — "Convenção para a Proteção de Bens Culturais em Caso de Conflito Armado" — de 1954, que proíbe o ataque a locais culturais e religiosos. Porém o USA nunca ratificou o acordo, assim como seu principal aliado, o Reino Unido, significando que, do ponto de vista do direito internacional, não têm nenhum compromisso com a questão, permanecendo "desobrigados" da preservação desse patrimônio. Existe apenas um poder moral nas leis sobre conservação e proteção da herança cultural em caso de conflito.

Entretanto, a legislação que versa sobre a proteção e as penalidades aplicadas aos violadores, acaba sendo desconsiderada por sentimentos de urgência com o cuidado ao presente. São comuns os questionamentos sobre a validade da preservação do passado em relação às dificuldades e realidade atuais. Numa lógica mais prática, de que vale preservar acontecimentos passados se não existem condições de preservação da vida no presente?

O trabalho arqueológico associado a pesquisas e projetos de caráter sócio-econômico permite que as sociedades relacionem-se ao meio, através de frentes de trabalho, do turismo e da educação. O estudo arqueológico proporciona a verificação do valor patrimonial que, uma vez reconhecido, necessita da atuação da sociedade para sua preservação e divulgação.

Na realidade, o que somos e sabemos é fruto das gerações passadas. Nada mais correto do que dar o devido valor à produção dos homens do passado para compreendermos os acontecimentos do presente, uma vez que compreender o passado é uma forma de conhecermos as leis que regem o desenvolvimento da sociedade, podendo — a partir destes conhecimentos — agir e transformar a realidade que nos rodeia.


*Carolina Kesser Barcellos Dias — Historiadora e Mestranda em Arqueologia Clássica pelo Museu de Arqueologia e Etnologia da USP.

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