Chávez é ou não uma fraude?

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Hugo Chávez não apareceu em 1992, nem chegou à presidência da Venezuela em 1998, por obra do azar. O crescimento de 1992 revelou a existência, no modelo petroleiro prevalecente na Venezuela, de uma profunda crise capaz de sacudir as estruturas dominantes. E a vitória eleitoral de Chávez em 1998 nos indica como os sistemas capitalistas, ainda os dependentes, como o da Venezuela, são capazes de cooptar e aproveitar qualquer insurgente que não seja revolucionário.

O modelo petroleiro de crescimento capitalista vigente na Venezuela sofre, em 1983, um golpe mortal. Em fevereiro desse ano o governo venezuelano se vê obrigado a desvalorizar o bolívar, símbolo nacional de pagamento e a instaurar um controle de câmbio. A Venezuela era, até aquele momento, o único país latino americano que não conhecia o controle de câmbio introduzido por razões econômicas e cuja moeda nacional havia logrado ser mais forte que o dólar. Um só dado basta para comprovar a força do bolívar para aquele momento. Em 1900, oitenta e três anos antes, a cotação do dólar em Caracas era de 5,20 bolívares; para 1983, às vésperas da chamada Sexta-feira Negra, sua cotação era de 4,3 bolívares. Nenhuma outra moeda latino-americana conseguiu valorizar-se frente ao dólar como o bolívar, como provam estas cifras.

Na Sexta-feira Negra, 18 de fevereiro de 1983, introduz-se na economia venezuelana a desvalorização crônica do símbolo nacional de pagamento, como ocorria em outras nações latino-americanas desde muito tempo antes. Como bem se sabe, as desvalorizações e os efeitos de um reajuste econômico pesam sobre a classe operária, as classes médias e os marginais. Toda desvalorização da moeda interna é um imposto tanto mais pesado quanto mais insidiosa seja...

Chávez e os militares

As desvalorizações, que começam a se suceder desde 1983 em um país de proverbial estabilidade de câmbio até então, golpeiam com crueza tanto os militares de baixa patente como os marginais e os operários. Na Venezuela, a oficialidade do exército vem dos estratos mais humildes da classe média. Famílias deserdadas, sem recursos para enviar seus filhos para a universidade, optam por mandá-los para as escolas militares, onde têm ensino, alimentação, vestuário e alojamento gratuitos. Mas os militares, até chegar aos graus superiores da carreira, levam vida modesta. Não têm acesso aos frutos da corrupção que na Venezuela é endêmica e eterna, só quando alcançam os graus de coronel e general, já nos cumes da hierarquia, os militares mergulham nas águas deliciosas e proveitosas da corrupção.

Os sistemas capitalistas dependentes, como o da Venezuela, são capazes de cooptar e aproveitar qualquer insurgente que não seja revolucionário

A Sexta-feira Negra, e as desvalorizações que se seguiram em cadeia incessante, semearam o mal-estar entre os militares de baixa graduação a partir de 1983. Ali estão as raízes da insurgência militar de 4 de fevereiro de 1992, acaudilhada por Hugo Chávez. Foi a dramática advertência acerca da crise que vinha sofrendo o modelo petroleiro desde muito antes. Quando as crises saltam ao terreno militar é porque já despertaram a velha parteira da história, da qual falava Marx. O 4 de fevereiro foi o ápice do descontentamento e o canhonaço de um vulcão que entrava em erupção.

Chávez é cooptado

No momento em que Chávez, cabeça militar, irrompe aquele 4 de fevereiro de 1992, dentro da burguesia venezuelana há uma pugna crucial entre alguns estratos dessa classe. Deve advertir-se algo elementar, mas sempre suscetível de ser esquecido: nenhuma burguesia é homogênea ou monolítica, como tampouco o são as outras classes de uma sociedade. Em toda burguesia há frações ascendentes, estancadas ou declinantes, segundo o volume de sua acumulação de capital e os ramos da economia em que elas atuem.

Dentro da burguesia venezuelana, sobressaiam, em 1992, três grupos: Cisneros, Polar e Afonso Rivas. Os três tinham algo em comum, ainda que diferissem em numerosos aspectos. Os três haviam aproveitado a fundo, desde 1958, com o advento da democracia burguesa, a ajuda do Estado, retirando vantagens da influência oficial. Eram o setor satisfeito da burguesia. Outros setores ou frações burgueses vinham ascendendo, mas necessitavam da ação do Estado para chegar ao Himalaia da acumulação. Poderíamos simbolizá-los com um nome: Tobias Carrero, empresário do ramo de seguros que viu em Chávez o mesmo que Alejandro Armas e Luis Miquelena: a alavanca para acelerar a corrida pela primazia na disputa com seus rivais burgueses. Chávez abria a possibilidade para que estes círculos emergentes da burguesia se emparelhassem com seus adversários de uma burguesia mais tradicional.

Chávez e a esquerda cansada

Quando Chávez emerge do cárcere, em 1995, anistiado por Rafael Caldera, que havia tomado posse da presidência em 1994, há na Venezuela um arquipélago de grupos e personalidades de esquerda cansados de esperar o poder mediante a luta eleitoral, decepcionados com o papel de coadjuvantes na vida parlamentar, desmoralizados pela corrupção, que na Venezuela é universal.

Devemos dizer que na Venezuela é corrompida a sociedade antes que o Estado, nela radica a primeira fonte da corrupção e uma esquerda, ou toda a esquerda legal, termina se corrompendo. Para essas parcelas da esquerda já corrompidas, desenganadas ou fatigadas, em 1995, Chávez foi a estrela de Belém. Prometia tirar-lhes do papel de coadjuvantes da Ação Democrática ou da COPEI, Chávez prometia resgatá-los do pequeno pântano em que viviam com pequenos roubos, para levá-los a grandes roubos. Assim veio a possível vitória de Chávez, já possível em 1998. E correram a rodeá-lo. Como se pode ver, Chávez, no poder desde 1999, é produto de uma aliança tácita ou expressa entre certa burguesia emergente e os resíduos de uma esquerda já sem princípios nem dignidade. Desse híbrido nasce seu governo.

O campo internacional

No tempo em que vivemos, todo enfoque político que não contemple ou valorize a incidência do campo internacional sobre um país estaria viciado de nulidade absoluta. Ainda nos tempos do imperialismo clássico, quando o sistema internacional era tutelado pela Grã Bretanha, esse axioma era evidente. Hoje, é indiscutível. A crescente integração de todas as economias, já irreversível e a crescente gravitação dos pólos dominantes sobre a vida nacional torna quase nulo o Estado-Nação ou o mantém na medida ou até o ponto em que responda às necessidades do grande complexo internacional imperialista. Estes postulados, de recordação obrigatória quando se faz qualquer análise, resultam mais imperativos quando se trata de um país latino-americano e, por semelhança, caribenho, como a Venezuela, onde o império norte-americano tem seu backyard tradicional.

A única maneira de anular a ação, sempre funesta e tremebunda, do imperialismo consiste em liquidar as classes que dentro de cada país são cúmplices ou têm interesses afins com os do império norte-americano. Na Venezuela, Chávez não tem tocado num só interesse de tal tipo, nem ameaçado sequer a influência interna do imperialismo. A grande imprensa, a qual se refere Chávez em seus discursos internacionais, mostra que na Venezuela, ninguém sequer tem tentado uma revolução. Uma grande imprensa nas mãos de magnatas tradicionais, toda ela quer dizer que não tem havido mudança nenhuma no país. Na Venezuela de hoje, a incidência, mando e significação do contexto internacional imperialista não tem diminuído nada.

O desenlace

Chávez enfrenta a oposição conspirativa dos velhos troncos oligárquicos favorecidos pela AD e COPEI. Na aparência, a Venezuela de Chávez está em guerra civil. Isso não é certo. Para que haja uma guerra civil em nosso tempo é preciso que dos dois bandos políticos contrários em um país, um deles seja autônomo ou independente do imperialismo ianque. Nem Chávez nem a oposição são autônomos frente ao imperialismo. A ambos os maneja ou supervisiona a embaixada norte-americana.

Há um grupo de países amigos da Venezuela, promovido por Lula, e entre os quais estão os Estados Unidos, que vai arbitrar a situação venezuelana. Chávez terá, frente ao que resolvam ou que sugiram estes países, que ser compreensivo e respeitoso; do contrário, cai. Toda demagogia desse homem, todos os equívocos levantados por ele, todas suas miragens, nas quais caíram muitos esquerdistas do mundo, terão terminado.

Em meu povoado, nos Andes venezuelanos, uma senhora dizia: "O que é do padre vai para a igreja." Assim poderia dizer-se, parafraseando essa expressão, que o que é do império, vai para os Estados Unidos. Chávez foi sempre do império, ainda que aparentasse o contrário.

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