Aldeia Maracanã resiste ao despejo

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Cacique Tukano teve importante papel na resistência

No dia 12 de janeiro, às 5h da manhã, cerca de 40 policiais da tropa de choque da PM do Rio de Janeiro cercaram o centenário prédio que, desde 2006, abriga a Aldeia Maracanã, na zona norte da cidade. No mesmo imóvel, em 1953, Darcy Ribeiro criou o primeiro Museu do Índio da América Latina. O espaço é Patrimônio Público Indígena desde 1865 e foi onde o Marechal Rondon inaugurou em 1910 o antigo Serviço de Proteção ao Índio (SPI), atual FUNAI. O prédio estava abandonado desde 1978, mas há seis anos indígenas de diversas etnias ocupam o local e criaram a Aldeia Maracnã, em defesa da preservação, da cultura e da memória dos povos ancestrais.

Desde então, o gerenciamento estadual tenta, de diferentes maneiras, expulsar os índios do local. O argumento atual é a suposta necessidade de demolição do prédio como parte das obras de reforma do estádio Maracanã, vizinho à construção. Segundo o gerenciamento Sérgio Cabral, o prédio seria um empecílho à mobilidade urbana, argumento contestado por vários urbanistas e outros especialistas no assunto. O cacique da Aldeia Maracanã, Doyethyro Tukano (*) conversou com nossa reportagem e explicou a importância do imóvel e do local para os povos indígenas.

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Nós estamos aqui frmes, fortes e vivos para mostrar a nossa cultura e a nossa história. Esse imóvel é um patrimônio dos povos originários, dos povos indígenas. Aqui tem todo o começo de uma história indígena. Os registros sobre a cultura do nosso povo começou nesse chão, que era habitado pelo povo Maracanã. Nós temos o estádio aqui ao lado que leva o nome desse povo que vivia aqui. Aqui no prédio, vivemos cerca de 50 indígenas de 20 etnias diferentes. Estão ameaçando desabar isso aqui para dois megaeventos. Depois que o Brasil foi escolhido para a sediar a Copa do Mundo, nós começamos a ser pressionados. Eles dizem que isso vai virar um estacionamento ou um shopping — conta.

A visão deles, comercial, não é a nossa visão. A Copa do Mundo vai acabar, são só 30 dias. Depois disso, vão esquecer de nós. Estão querendo esquecer a nossa história, esquecer as nossas memórias. Aqui tem muito sangue indígena derramado, nesse chão. Nós temos um imóvel que é o reflexo desses 512 anos de extermínio das populações indígenas nessa terra que se chama Brasil — conclui o cacique.

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A Aldeia Maracanã ficou sitiada pela torpa de choque da PM

Mesmo com todos os apelos de diversas organizações indigenistas e dos movimentos sociais, no dia 12 de janeiro, a tropa de choque do gerenciamento Cabral cercou o local com o objetivo de expulsar os índios e derrubar o prédio. Rapidamente, centenas de apoiadores — entre estudantes e trabalhadores — chegaram ao local para resistir junto aos índios que vivem na Aldeia. Com o portão que dá acesso ao local bloqueado pela polícia, as pessoas começaram a pular o muro para compor o movimento de resistência. Rapidamente, o gerenciamento estadual recuou e a tropa de choque deixou o local.

Dois operários que trabalhavam na obra do Maracanã e prestaram sua solidariedade aos índios foram demitidos ainda no sábado, dia 12.

Segundo informações dos adogados que assessoram o movimento, o despejo foi embargado por conta do não cumprimento por parte do Estado dos requisitos necessários para esse tipo de ação, como assistentes sociais, depósitos públicos para os pertences das pessoas removidas e uma nova alternativa habitacional. No dia 15, estudantes da UERJ organizados pelo Movimento Estudantil Popular Revolucionário, o MEPR, fizeram um ato em defesa da Aldeia Maracanã que saiu da universidade e terminou dentro da ocupação indígena.

Nos dias seguintes, o clima foi de apreensão no local. Indígenas e apoiadores do movimento seguem ocupando o prédio à espera de uma nova ação de despejo da tropa de choque da polícia militar a qualquer momento.

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(*) Tradução "nascido do primogênito", da etinia tukano, que habita a fronteira do Brasil com a Bolívia.


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