Só a punição acabará com a tortura

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O recente suicídio de um jovem torturado pelo gerenciamento militar trouxe à tona a tortura continuada a que militantes e suas famílias são submetidos. A Comissão Nacional da Verdade foi criada para "promover a reconciliação nacional", o recente caso mostra que nenhuma reconciliação é possível com impunidade.

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Carlos Alberto foi torturado quando tinha 1 ano e 8 meses

O assassinato de Carlos Alexandre Azevedo não ocorreu no dia 16 de fevereiro de 2013.  Carlos foi torturado psicologicamente por 39 anos. As torturas físicas, em 1974, quando ele tinha apenas um ano e oito meses mostram a face mais horrenda do terrorismo de Estado, através do seu agente Delegado Fleury, que não poupou nem mesmo um bebê de ser seviciado.

Carlos Alexandre Azevedo era filho do jornalista Dermi Azevedo e foi preso em 14 de janeiro de 1974, no Departamento de Ordem Política e Social de São Paulo. Carlos foi preso e torturado juntamente com sua mãe, em São Paulo, e depois em São Bernardo do Campo, onde seu pai já estava preso.

Depois de conseguir liberdade, a família tentou recomeçar a vida. Carlos era técnico de computadores, mas nunca se recuperou das torturas e apresentava um quadro grave de depressão. Há cerca de dois anos havia sido reconhecido como vítima da ditadura e indenizado. Mas o fantasma das torturas ainda o perseguia. No dia 16, ele ingeriu uma grande quantidade de remédios e deu fim ao sofrimento que o afligia.

Nas palavras do pai "Como acontece com os crimes da ditadura de 1964/1985, o crime ficou impune. O suicídio é o limite de sua angústia".

E Carlos não foi a única criança torturada física e psicologicamente durante o regime militar. Ou será que não se pode chamar de tortura os filhos separados de seus pais durante a Guerrilha do Araguaia? Não é tortura ver seus pais levados por militares e seguir esperando seu retorno por anos a fio? Não é tortura não ter o nome do pai no registro de nascimento porque ele é um desaparecido político, como ocorreu com a filha do ex-deputado goiano José Porfírio de Souza? Não é tortura ter que conviver com as lembranças da dor e do "desaparecimento"?

Por isso não há possibilidade de perdão, reconciliação ou página virada enquanto os torturadores não forem julgados e condenados. 

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Empresários e regime militar

Um livro de registro de presenças foi encontrado num centro de repressão em São Paulo, em fevereiro deste ano. O livro registra a presença de empresários paulistas, dentre eles Geraldo Rezende Matos, da Federação das Indústrias de São Paulo (Fiesp), e um  ex-cônsul dos Estados Unidos. Há pelo menos oito livros similares, no qual figuram o nome de dezenas de empresários que se reuniam com o torturador Sérgio Fleury. Há indícios de que havia um setor específico de articulação entre militares e empresários paulistas, ligados à Fiesp.

Clero e regime militar

Os religiosos que apoiavam o regime militar também devem ter seus nomes revelados em breve. Já foram identificados vários colaboradores como o ex-arcebispo de Belém (PA), d. Alberto Gaudêncio Ramos; d. Geraldo Sigaud, de Diamantina (MG), e d. Antônio de Castro Meyer, de Campos (RJ), um dos fundadores da organização de extrema-direita Tradição, Família e Propriedade, a TFP.

Há indícios de que em São Paulo teria funcionado uma delegacia especial para acolher as denúncias feitas pela Igreja Católica.

Argentina

O torturador Gonzalo Sánchez, argentino radicado no Brasil, foi preso em Paraty, no dia oito de fevereiro. Ele está sendo acusado de crimes de lesa humanidade na Argentina e estava morando no Brasil há onze anos. Em 2005 foi declarado foragido da justiça argentina. Ele deve ser extraditado assim que o STF autorizar. 

Uruguai

O país que havia começado a julgar os criminosos do regime militar retrocedeu juridicamente. A Suprema Corte do Uruguai declarou, no fim de fevereiro, a inconstitucionalidade da lei que permitia os julgamentos dos torturadores do gerenciamento militar. Os casos que estavam sendo investigados correm o risco de ser encerrados e ficar impunes. O povo uruguaio respondeu saindo às ruas, no dia 25 de fevereiro, protestando contra a medida.


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