Portugal: 'Que se lixe a Troika! O povo é quem mais ordena!'

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Portugueses protestam em trinta cidades contra a Troika

Portugal foi palco, no último dia 2 de março, de uma gigantesca e retumbante manifestação do povo trabalhador. Eles se manifestaram contra o que já são três anos consecutivos de uma feroz contraofensiva da burguesia, dos banqueiros, da Europa do capital monopolista, da gerência títere local e dos oportunistas de toda ordem enfiados na política eleitoreira lusitana. Os políticos estão todos de braços dados para levar a cabo um sem fim de medidas antipovo que, juntas, somadas, entrelaçadas, atendem pela alcunha polida, pelo eufemismo de "plano de austeridade", mas que de fato constituem um arrocho sem precedentes ao mundo do trabalho, em Portugal como em outras nações da Europa.

Centenas de milhares de portugueses saíram às ruas de Lisboa e de outras cidades exigindo o fim da intervenção estrangeira no país. Além disso, pediram a demissão do "governo" pau-mandado, que atende a todas as requisições de penalização das massas trabalhadoras vindas do FMI e da União Europeia, em uma grande e coordenada manifestação de autoridade do povo levada a cabo sob a égide das palavras de ordem "Que se lixe a Troika! O povo é quem mais ordena!".

Participaram do gigantesco protesto do dia 2 de março diversas categorias de trabalhadores, com grande presença de profissionais de serviços públicos que têm sido alvos de graves ataques por parte da gerência portuguesa a serviço do FMI e de Bruxelas, nomeadamente trabalhadores da saúde, educação e transportes, além do proletariado em geral.

Portavam cartazes, faixas, gritavam palavras de ordem de teor classista e entoaram, em uníssono, a canção Grândola, Vila Morena, uma espécie de hino da Revolução dos Cravos de 25 de abril de 1974, que pôs fim ao fascismo salazarista em Portugal. A música vem sendo cantada em muitos protestos no território português, e já se transforma também no hino da luta dos portugueses contra os ditames da Europa do capital e do FMI, muitas vezes com seus versos amplificados pela voz da multidão insubmissa chegando a suplantar discursos de "autoridades" - calando, com o coro coletivo, a voz das mentiras e da empulhação.

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'Direitos conquistados não podem ser roubados'

Mas a luta do povo português contra o draconiano arrocho que se tenta empurrar goela abaixo dos trabalhadores tem sido muito mais ampla, prolongada, inquebrantável, repleta de nuances, ações, greves, embates com as forças de repressão, duelo de braços com patrões e enfrentamentos com os os covardes governantes.

Exemplo disso se deu uma semana depois, no dia 9 de março, quando uma grande manifestação dos trabalhadores dos transportes fez tremer as ruas de Lisboa em uma marcha altiva de mais de mil trabalhadores de empresas de transportes que percorreu o trecho entre o largo Camões e o Parlamento, fazendo ecoar pelo coração da capital portuguesa o coro: "Direitos conquistados não podem ser roubados".

A marcha de protesto foi o ápice de uma semana inteira de escalada da luta dos trabalhadores dos transportes de Portugal, quando se realizaram várias greves e assembleias de norte a sul do país, contra as privatizações, em favor do serviço público, contra a deterioração das condições de trabalho, contra as reduções salariais e o fim dos contratos coletivos de trabalho.

Os trabalhadores em luta levaram a cabo um importante esforço de propaganda classista, enfatizando junto ao povo português as consequências nefastas da venda das empresas públicas de transportes e das privatizações em geral: a escalada da redução dos direitos dos trabalhadores e a diminuição, sucateamento e encarecimento dos serviços públicos, porque quando privatizados passam a obedecer à lógica da empresa capitalista, e não à função de garantir à população direitos básicos como acesso digno à saúde, educação e ao próprio transporte coletivo.

'Democracia' que penaliza quem trabalha

O combativo português Alípio de Freitas (ver Box) ressalta a importância do povo nas ruas contra esta estirpe de "democracia" vigente, a do tipo que penaliza quem trabalha:

"O povo tem de sair de novo à rua. Não nos serve uma democracia que ande de braço dado com banqueiros corruptos e ladrões, não nos convém uma democracia que, com políticos a soldo e de saldo, usurpe os direitos do povo e destrua toda a sua esperança. Não nos convém uma democracia que se propõe matar de fome, desprezar e abandonar os seus velhos e convida os jovens a emigrar, para que as poupanças do seu trabalho, em terra estranha, sustentem os que cá ficaram por já não poderem emigrar. Não nos convém uma democracia onde a justiça e a iniquidade se confundem, onde a prepotência substitui a lei, onde se penaliza quem trabalha, quem é pobre, quem é jovem, quem é doente ou quem é velho. Não queremos uma democracia guardada, protegida e sustentada por mercenários. Queremos que as forças de segurança sejam constituídas por pessoas livres, cidadãos exemplares que defendam o povo e os seus legítimos interesses."

Arrocho rende 'parabéns' das agências de risco

Não faltam motivos que justifiquem a revolta e a rebelião. Imagine o povo português, que padece com uma das taxas de desemprego mais altas da Europa, que vive com o salário mínimo mais baixo de toda a zona do Euro, imagine esse povo passando pelas bancas de jornais pela manhã, quando as pessoas vão trabalhar ou procurar trabalho, e vendo, ao lado das notícias diárias sobre os detalhes das políticas antipovo que lhe castigam (reduções salariais, demissões sumárias, cassação de direitos duramente e historicamente conquistados por meio da luta do proletariado, privatizações e cortes de verbas para os serviços públicos fundamentais), a "boa nova" de que as agências internacionais de classificação de risco melhoraram a perspectiva para "investimentos estrangeiros" no país, em meio a comemorações dos gerentes locais de toda esta infâmia pelo resultados dos bons serviços prestados justamente aos maiores opressores da sua gente.

É ultrajante, mas não se pode dizer que não faz sentido: especialmente neste cenário de aprofundamento da crise geral dos monopólios, uma nação em condições semicoloniais no contexto da divisão internacional do trabalho (como é Portugal hoje, mais que nunca) é tanto mais bem avaliada e classificada pelas instituições do sistema internacional de exploração do homem pelo homem competentes para este fim ao passo que leva às últimas consequências o arrocho e a opressão ao mundo do trabalho, em benefício do capital agonizante.

Mas que se lixem as agências internacionais de classificação de risco! Que se lixem o FMI, o Banco Central Europeu e os patifes da Comissão Europeia, com todo o seu corolário anticrise e seus estratagemas para disfarçar a própria ruína e os esforços para dar fôlego às empresas e aos bancos por meio da degradação geral das condições de vida dos povos e de ataques sistemáticos ao mundo do trabalho. Que caiam por terra e paguem por seus crimes! Que vão parar, a burguesia, os banqueiros e os oportunistas, na lata de lixo da História! Que se lixem! "O povo é quem mais ordena!".

E não me venham os 'democratas bunda suja'!

Análise de Alípio de Freitas, membro do Conselho Editorial de A Nova Democracia, sobre o atual momento de intensas lutas populares em Portugal em defesa dos direitos do povo e da nação e contra a intervenção antipovo do FMI e da União Europeia no país. No último dia 17 de fevereiro Alípio completou 87 anos de idade. A publicação desta que é também uma homenagem à luta corrente do povo português é a homenagem de AND a mais este marco de uma vida dedicada às causas do povo e da democracia verdadeira.

Sou abertamente favorável a todas as manifestações em que o povo expresse a sua vontade. Ninguém, quer se trate de organizações ou pessoas, expressa hoje em Portugal a vontade do povo. Nem os partidos políticos, qualquer deles, nem a Igreja, nem um cidadão ou um grupo de cidadãos organizados se pode armar em representante ou porta-voz do povo. Mas é bom que se comece a pensar nisso. Sempre haverá cidadãos descomprometidos com o pântano em que se transformou a vida política portuguesa, sempre haverá alguns cidadãos cujo presente e passado os credibiliza para a urgente tarefa de tirar este país da servidão. E não me venham os "democratas bunda suja" que por aí se acotovelam dizer que o meu apelo à organização e ação do povo, tendo à frente quem o ajude na tarefa de construir outro país, tem cheiro de totalitarismo ou coisas que tais. Disso e de falsas democracias como esta em que vivemos e que não passa de um pântano fétido, disso entendo eu, que durante uma boa parte da minha vida estive exilado, vivi na clandestinidade, fui combatente revolucionário, sobrevivi à tortura e somente ao fim de dez anos de vários presídios fui posto em liberdade. É esta memória de mais de sessenta anos que se cravou em mim como uma cicatriz profunda, que me ensinou a "livre pensar", estar atento ao que se passa no mundo e sempre presente em todas as manifestações, apesar da minha cegueira quase total. Portugal não precisa de mudanças mais ou menos coloridas como aquelas de que os papagaios da Assembleia da República tanto palreiam. Não. Portugal precisa urgentemente de resgatar as promessas de Abril que, mal despontaram, logo começaram a ser roubadas pelos ladrões do costume. O 25 de Novembro foi o ato final de uma revolução que não houve e o primeiro da tragédia em que hoje estamos mergulhados. Por quê? Porque o Presidente da República e o primeiro-ministro saíram como exilados de luxo para o Brasil, os ministros desapareceram do país sem que ninguém os incomodasse e foram viver de rendimentos no estrangeiro, os membros da PIDE foram soltos sem julgamento e mais tarde alguns deles foram condecorados por serviços prestados à nação, os banqueiros, capitães de indústria e latifundiários acoitaram-se em países vizinhos e no Brasil, para depois regressarem e serem indenizados por perdas que nem haviam tido, no Ministério de Negócios Estrangeiros, que durante a ditadura serviu como agente da propaganda fascista nas colónias de imigrantes portugueses, não houve um único saneamento, os juízes e os tribunais plenários, que agiram como juízes torcionários do poder fascista, passaram diretamente desses tribunais para os tribunais comuns em todos os níveis. Ninguém foi responsabilizado ou condenado por qualquer crime cometido contra o povo. Seria um rosário imenso enumerar tudo aquilo que a Revolução de Abril não fez, vá-se lá saber porque razões, mas serviu para organizar a contrarrevolução.

Provavelmente a maioria daqueles que organizam todas estas lutas que se veem por todo o país e que escolheram Grândola, Vila Morena como seu grito de guerra nem sequer eram nascidos no 25 de Abril. Pouco importa. Eles ouviram o apelo da história e do povo. E ainda bem, porque se eles não tivessem ouvido esse apelo, Portugal e os portugueses possivelmente passariam à história das coisas não acontecidas, que uma bruxa má chamada Troika teria feito desaparecer num golpe de mágica.


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