Manoel Coelho Raposo: Propagandista do socialismo

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Quando a reportagem de AND chegou à Forgrel, editora e gráfica de propriedade de Manoel Coelho Raposo, deparou-se logo na primeira sala com aquela figura franzina e inquieta que, ao telefone insistia com o seu interlocutor que conseguisse um exemplar de A Rússia na guerra e na paz de Anna Louise Strong e O poder soviético, de Deão de Chatembury, pois havia incluído nos seus planos a reedição destas importantes obras socialistas. Era ele, o Raposo, 70 anos, com a disposição de um jovem universitário.

Havíamos lido os comentários do escritor Cid Sabóia de Carvalho, que no prefácio de Cantos de rebeldia, amor e nostalgia afirmou: "Suas criações já nascem para serem pronunciadas, por certo por conta do temperamento rebelde do criador destes agradáveis instantes. Raposo tem alma de poeta e tudo nele conduz ao mundo da poesia. No entanto, é muito forte o filósofo que guarda em si, o político que lampeja, o orador pronto para eclodir e o teatrólogo que faz da vida um grande palco. É Tipógrafo, editor, alma de linotipista. Raposo tem afinidades incríveis com tudo o que se imprime. Nasceu para isso mesmo: escrever, editar, compor, fazer e refazer, construir e plantar sementes. Não sabe nem implodir nem explodir a cultura como fazem os neo-liberais. Está pronto a acrescer, acrescentar somar e ir sempre para rumos nunca imaginados."

Lemos também o texto do Escritor José Alcides Pinto que ao qualificá-lo de O poeta da liberdade, assim fundamentou: "Manoel Coelho Raposo é de uma dignidade a toda prova, e isso faz dele um intelectual raro nos dias de hoje. É que sendo um poeta genuíno e gerúndio, se identifica com o mundo e tudo que lhe cerca nessa dramática aventura de viver. Ele assume a adversidade e os perigos que por ventura cruzem seu caminho. É um homem destemido e que jamais fugiu da luta. Pelo contrário, prefere o desafio, seja ele qual for, cara a cara, frente a frente, venha de onde vier, trocando a espada pela pena, única arma que carrega como escudo e talismã em toda a sua vida. E por ser um guerreiro invicto nada teme. A tristeza não encontra espaço em seu caminho, a presença desta é substituída pela luta de classes, a luta popular."


"Muito jovem enxerguei nos livros
minha janela para o mundo"


A primeira impressão que tivemos diante de tantos elogios é que ali estava um caso de gentileza e um certo grau de exagero. Quando, porém, Raposo passou a nos relatar os mais de cinquenta anos de sua luta e convivência com o livro, chegamos a conclusão que os escritores estavam cobertos de razão.

Com os pés no sertão e o olho no mundo, Raposo nos recebeu com um cafezinho, sempre ao alcance de sua mão em uma garrafa térmica, a qual recorreu três ou quatro vezes durante seu depoimento.

Uma janela para o mundo

Como foi possível, nestes 70 anos de sua existência, manter uma relação tão intensa com o livro? Raposo coça a cabeça como quem remexe pastas no arquivo e fala: "Muito jovem, na pequena cidade de Crateús no sertão do Ceará, enxerguei nos livros a minha janela para o mundo, lia tudo que vinha às minhas mãos e como achava que os outros também deviam participar desse maravilhoso mundo da leitura criei uma pequena biblioteca, a qual mantinha graças a algum dinheiro apurado na venda de frutas nas ruas da cidade. De repente achei que somente ler era pouco, tinha que escrever, que passar a outros minhas impressões sobre tão variados temas e, aí pelos dezoito anos já participava de um concurso literário, tirando o primeiro lugar. Daí para frente nunca mais parei."

"Fui para Fortaleza e dentre os meus primeiros empregos trabalhei no jornal do Partido Comunista, O democrata, que tinha uma livraria que ficou sob a minha responsabilidade. Esta foi a grande oportunidade que tive, não só para aprofundar mais a minha ligação com os movimentos literários, como para descobrir toda a profundidade e amplitude do marxismo. Lia os Romances do povo e as obras de Marx, Engels, Lênin e Stalin. Também as revistas que chegavam da União Soviética e da China contendo as realizações socialistas. Tornei-me um estudioso e propagandista das idéias do socialismo e enquanto trabalhava na livraria já escrevia algumas coisas para o jornal sob o pseudônimo de Petrônio."

O vendedor de livros

"A realização do XX Congresso do Partido Comunista da União Soviética trouxe sérias repercussões sobre todos os partidos comunistas, levando-os a profundas crises. Com isto deixei a livraria do Partido e fui trabalhar por conta própria, transformando-me em vendedor de livros porta a porta. Lembro-me bem do primeiro livro que vendi, era o Cavaleiro da esperança, de Jorge Amado. Vendia muitos exemplares e fui me empolgando. Entrei em contato com a Editora Vitória e com a Editora Francisco Alves para revender os seus livros. A variedade de títulos era tão grande, que resolvi inventar uma estante sobre rodas com a qual circulava nas ruas de Fortaleza, e à noite ficava até às 24 horas na Praça do Ferreira, principal praça da cidade. Ali, durante todas as noites formavam-se vários grupos de discussão política em torno das idéias do socialismo. Surgiu, então, a idéia de fazer lançamentos de livros, e até noites de autógrafos, cuja mais expressiva que me lembro foi quando recebemos Jorge Amado, em que vendemos 840 livros."


"Tornei-me estudioso e propagandista
das idéias do socialismo"


"Assim nasceu a livraria Feira do Livro, que tornou-se, para a época e lugar, uma grande rede de livrarias nos estados do Ceará e Rio Grande do Norte. Éramos distribuidores das editoras Civilização, Vitória e São Paulo, portanto o maior distribuidor e vendedor de livros marxistas na região. Tudo isso durou de 1956 a 1964. Com o Golpe militar de 64 todo o acervo foi apreendido pelo Exército, eu fui para a cadeia e, além do prejuízo que significou o golpe para a luta do nosso povo, tivemos a irreparável perda dos livros."

O escritor

"No período da ditadura militar, as coisas ficaram mais difíceis — mas não era impossível se fazer algo. Resolvo então aprofundar-me na literatura e já em 1968 lanço o primeiro livro, Cantos para o bem dizer, e também começamos, junto com um grupo de intelectuais cearenses, a planejar a elaboração de uma revista de cultura que viria a ter uma grande repercussão nacional e internacional, sendo considerada, na época, a maior novidade fora do eixo Rio-São Paulo-Minas, chegando a ser indicada para estudo em universidades. A revista era editada em quatro cadernos: um de poesia, um de prosa, um de desenho e artes plásticas e o último de jornalismo cultural. Estes cadernos eram colocados em um saco plástico — daí o nome O saco. A revista tinha uma tiragem de seis mil exemplares e circulou por um ano com sete números. Infelizmente, devido a dificuldades políticas e econômicas, tivemos que suspender sua edição."

"Mas era necessário continuar a resistência e, na impossibilidade de fazer um jornal para o debate ideológico, tomamos a decisão de fazer um jornal denunciando as arbitrariedades da ditadura, inclusive no plano local, com matérias sobre as atrocidades praticadas pelo Centro de Operações Policiais da Polícia Militar do Ceará, que implicaram no seu desmantelamento. O Jornal — O popular — também teve que deixar de circular diante das dificuldades financeiras. Infelizmente, este é o preço pago pela imprensa independente."

Enquanto nadava contra a corrente, no canal da imprensa popular, Raposo escreveu uma dezena de livros cuja abrangência literária variava da poesia romântica e revolucionária aos ensaios de economia, sociologia e política.

O editor

Além dos seus próprios livros, Raposo editou um sem número de outros: "Sempre tive preocupação especial com escritores cearenses e com as obras da teoria do socialismo científico, assim como a literatura da luta revolucionária e da construção do socialismo, daí a nossa preferência pela edição ou reedição de tais trabalhos", concluiu.

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