Monumentos à nossa gente

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O artista plástico pernambucano Abelardo da Hora, há mais de 50 anos, vem retratando com rara sensibilidade a vida do povo brasileiro, unindo a paixão pela arte com as mais candentes aspirações de justiça e igualdade humanas.

Abelardo Germano da Hora foi um dos idealizadores do Movimento de Cultura Popular (MCP) nos anos 60, e continua sendo dos mais atuantes artistas plásticos de Pernambuco. Sua obra é muito extensa e várias das suas peças podem ser vistas em praças, avenidas e prédios públicos do Recife. Escultor, ceramista, desenhista e gravador, Abelardo nasceu em 1924, na usina Tiuma, no município de São Lourenço da Mata, onde seu pai trabalhava na produção açucareira.

Além de conceituado artista plástico (é considerado um dos mais importantes escultores da escola expressionista do país), Abelardo é também, desde muito cedo, um militante comunista, combatente da causa do povo. Ele chegou mesmo a ocupar cargos nas direções estadual e municipal do Partido Comunista do Brasil, durante as décadas de 50 e 60, em seu estado natal. O envolvimento permanente e profundo com a política as questões sociais exerceriam sempre influência marcante em toda a sua vida e obra.

O escultor iniciou seus estudos artísticos no Colégio Industrial Professor Agamenon Magalhães e depois ingressou no curso livre de Escultura na Escola de Belas Artes de Pernambuco, onde esteve à frente do diretório acadêmico, no ano de 1942. "Eu liderava um grupo de estudantes que resolveu sair dos espaços fechados para pintar a vida, deixar de lado os modelos de gesso para retratar a vida do povo e as paisagens pernambucanas", recorda. Foi assim que, ao pintar as matas do bairro da Várzea, em Recife, seu trabalho chamou a atenção do industrial Ricardo Brennand, que logo o contratou. Trabalhando com este empresário de 1943 a 1945, Abelardo realizou vários trabalhos em cerâmica, jarros florais e pratos com motivos regionais em relevo e terracota.

Monumentos

Nos anos de 1955 e 1956, Abelardo executou uma série de esculturas de tipos populares, tendo como fonte de inspiração a rica tradição da cerâmica popular nordestina. Muitas destas obras ainda podem ser vistas nas principais praças e parques da capital pernambucana: Os cantadores e o Vendedor de caldo de cana, no Parque 13 de Maio; O sertanejo, na Praça Euclides da Cunha e O vendedor de pirulitos, no horto florestal de Dois Irmãos. Além destas, há também o Monumento à restauração pernambucana, na Praça Sérgio Loreto; O pescador, na Avenida Caxangá; Monumento à convenção de Beberibe, na Praça da Convenção; Monumento à juventude, na Universidade Católica de Pernambuco, e o Monumento a Zumbi dos Palmares, na Praça do Carmo.

"A minha arte sempre buscou reproduzir a realidade da vida do povo, mostrar as condições de vida de nossa gente, seus gestos, sua riqueza, a beleza da cidade. Registrar o que se faz de bonito, mas também denunciar as injustiças, esfregar na cara das elites os males que elas cometem contra o povo trabalhador", diz. Abelardo revela que desde cedo os intelectuais ligados ao Partido Comunista elogiaram suas obras: "A adesão inicial do mundo intelectual à minha arte veio do Partido Comunista, através de pessoas como José Leite Filho, Pedro Renoir e David Capistrano."

Em 1945, Abelardo foi para o Rio de Janeiro, onde trabalhou num atelier improvisado na garagem da casa do artista plástico Abelardo Rodrigues. Em 1946, volta ao Recife e passa todo o ano de 1947 preparando sua primeira exposição de esculturas, que foi realizada em abril de 1948, na Associação dos Empregados do Comércio de Pernambuco. A exposição teve grande repercussão pelo conteúdo e forma, mas também porque foi a primeira exposição de esculturas realizada no Recife.

Prêmios e viagens

Entre os principais prêmios que o artista recebeu constam o Primeiro Prêmio de Escultura nos III e IV Salões de Arte Moderna, em 1940 e 1950. Durante os anos de 1957 e 1958 Abelardo da Hora expôs em vários países da Europa, na Mongólia, na Argentina, em Israel, na antiga União Soviética, na China e nos Estados Unidos, e sua obra está exposta em vários museus e galerias do mundo. "Outro dia um sobrinho descobriu que tenho uma escultura num museu da Tchecoslováquia, chamada Água para o morro, e aí me lembrei que em 1962 essa peça foi vendida para uma pessoa de lá que nos visitava."

É também de sua autoria o estandarte do Clube Vassourinhas, um dos mais tradicionais blocos de frevo do Recife. Uma de suas séries mais conhecidas é a coleção Meninos do Recife, 22 quadros em bico-de-pena que retratam as condições de vida das crianças pobres dos mangues e dos bairros populares da cidade, que tiveram os originais parcialmente destruídos pela polícia política dos militares durante a repressão que se seguiu ao golpe contra-revolucionário de 1º de abril de 1964. "Quando houve o golpe eu fui levado preso para a Casa de Detenção, na mesma cela de Gregório Bezerra, e vi as atrocidades que ele sofreu. E do meu canto, na cela, fiquei pensando aflito: se ele, com aquele corpo todo, sofreu essas barbaridades, o que será de mim, franzino desse jeito?!", lembra. Mas Abelardo sobreviveu e se manteve firme aos seus ideais, apesar de tudo. Seu antigo companheiro de cela e de partido já não vive mais, assim como muitos daqueles que lutaram por um mundo melhor.

Hoje o artista mora e trabalha no bairro da Boa Vista, centro do Recife, onde se dedica à conclusão do Monumento ao frevo, escultura com sete metros de altura, exibindo quatro figuras humanas (dois passistas, uma passista e um porta-estandarte segurando o estandarte do Vassourinhas), cada um com mais de dois metros de altura em bronze e granito e que deverá ser exposta numa das avenidas da cidade.

Movimento de Cultura Popular em Pernambuco

Numa época de intensa movimentação na vida brasileira — que contava inclusive com significativo avanço das Ligas Camponesas, principalmente nos estados de Pernambuco e da Paraíba, e em que a juventude e os intelectuais assumiam posições em favor das reformas estruturais, com intensa atividade de militância política e cultural — foi fundado no Recife, a 13 de Maio de 1960, o Movimento de Cultura Popular.

O MCP teve como objetivo básico difundir as manifestações da arte popular regional e desenvolver um trabalho de alfabetização de crianças e adultos, buscando elevar o nível cultural dos alfabetizados para melhorar sua capacidade aquisitiva de idéias sociais e políticas e ampliar a politização das massas, despertando-as para a luta social, conforme dizem os manifestos da época. O trabalho era feito através de apresentação de espetáculos em praças públicas, organização de grupos artísticos, oficinas e cursos de arte, exposições, edições de livros e cartilhas, alfabetização em escolas instaladas em locais públicos, etc., e era coordenado por artistas e intelectuais como Abelardo da Hora, Germano Coelho, José Cláudio, Aloísio Falcão, Paulo Freire, Ariano Suassuna, Hermilo Borba Filho, Francisco Brennand, Paulo Rosas, Anita Paes Barreto, Luiz Mendonça, Norma Porto Carneiro Coelho, entre outros que apoiavam o governo de Miguel Arraes na prefeitura do Recife (1960-1962), e, posteriormente, no governo do estado (1962-1964).

A sede do MCP ficava no Sítio de Trindade, localizado na Estrada do Arraial, bairro de Casa Amarela, o mais populoso da cidade. Abelardo da Hora nos conta que a idéia do Movimento surgiu com um projeto criado por ele na década de 50, quando fundou e foi presidente da Sociedade de Arte Moderna do Recife, onde implantou diversos cursos de iniciação às artes: "Na época consegui uma sala emprestada no Liceu de Artes e Ofícios e passei a ensinar aos jovens interessados em artes plásticas. Depois convidei o maestro Geraldo Menuchi para ensinar música e o diretor Luiz Mendonça para ensinar teatro." A iniciativa passou a ser chamada de Universidade Popular de Arte e, em seguida, com a sua expansão e profissionalização dos alunos, passou a chamar-se de Ateliê Coletivo de Arte Moderna do Recife.

Abelardo da Hora recorda: "O prefeito Miguel Arraes afirmou que a Prefeitura apoiaria a idéia e que, a partir daquele momento se chamaria Movimento de Cultura Popular." Nascia assim uma das mais importantes iniciativas político/culturais da época.

Como um de seus fundadores, Abelardo idealizou e coordenou a construção dos Centros de Cultura Popular em cinco bairros operários do Recife — Várzea, Casa Amarela, Iputinga, Beberibe e Torre — e que ainda hoje estão de pé. São construções simples dotadas de um salão, praça com brinquedos infantis, quadra de esportes e sanitários. Os Centros levavam ao povo dos bairros peças de teatro, cinema, música, orientação pedagógica, jogos infantis e educação física, além da biblioteca popular e de grupos de análise de programas de televisão, incentivando ainda a criação de grupos de vizinhos para lutar pela solução dos problemas locais.

Em 1963, o MCP contava com 201 escolas; 19.646 alunos; um Centro de Artes Plásticas e Artesanato; 452 professores e 174 monitores ministrando o ensino correspondente ao primeiro grau, supletivo, educação de base e artística; uma escola de motoristas-mecânicos; vários espetáculos teatrais; uma galeria de arte e os cinco Centros de Cultura Popular. Além da intelectualidade pernambucana, o Movimento tinha o apoio de várias organizações, como a UNE (União Nacional dos Estudantes), nesse tempo uma referência obrigatória do movimento estudantil.

Dado o seu pioneirismo, o movimento inspirou projetos semelhantes em outras regiões do país, como os CPCs da UNE (Centro de Cultura Popular) e a Campanha De pé no chão se aprende a ler, no Rio Grande do Norte, entre outros. Todos na luta pela construção de uma cultura nacional, popular e democrática. Apesar de sua força, o golpe militar de 1964 interrompeu suas atividades. Porém, não conseguiu destruir o sentimento e a ânsia de saber, a cultura do povo trabalhador do Nordeste e de todo o Brasil.

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