Índios convertidos em interventores sionistas

A- A A+

Quando uma delegação de rabinos viajou a Lima para converter um grupo de índios peruanos ao judaísmo, colocaram somente uma condição: venham e vivam conosco em Israel. Quando esses novos judeus chegaram ao país foram levados diretamente, em ônibus, a assentamentos nos territórios em disputa. Como eles estão indo?

Em uma escola de estrutura pré-fabricada, no assentamento cisjordaniano de Alon Shvut, há algumas dúzias de pessoas sentadas, cantando uma popular canção hassídica: "Todo o mundo é uma ponte muito estreita e o principal é não ter medo." Cantam com sentimento, ainda que a maioria não entenda uma única palavra da canção. Como é costume nas escolas religiosas, a classe está dividida em uma seção para homens e outra para mulheres. As mulheres usam chapéus e as cabeças dos homens estão cobertas por casquetes feitos de tecido. Tanto os homens quanto as mulheres têm traços de indígenas sul-americanos.

Quase sem que se note, um novo tipo de judeus está nascendo nos assentamentos. Judeus que certamente estão unidos a Israel e a tudo o que é israelense apenas por uma ponte muito estreita. Ainda não visitaram Tel Aviv ou Haifa, e nunca ouviram falar de Degania, o primeiro kibbutz, ou de seu vizinho, Kinneret. Miki Kratsman, o fotógrafo e eu tivemos o privilégio de ser os primeiros judeus seculares que conheceram. No entanto, estão convencidos do sentido histórico de seu direito a este país.

"Somos de origem índia", diz Nachshon Ben-Haim, anteriormente chamado Pedro Mendoza, "mas no Peru, nos Andes, não resta cultura indígena. Todos se transformaram em cristãos, e por isso fizemo-nos judeus. Nós também éramos cristãos e íamos à igreja".

O milagre da criação dessa comunidade de novos judeus tem que ser creditada — ou debitada — inteira e exclusivamente na conta do Grande Rabino de Israel. Por ordem do grande rabino asquenazi, Israel Meir Lau, uma delegação de rabinos viajou ao Peru. Durante suas duas semanas no país, converteram 90 pessoas ao judaísmo, a maior parte delas de origem indígena.

"Encontramos um pequeno rio entre Trujillo e Cajamarca e todos foram imersos nele. Levamos um grupo de Lima para imergir no oceano e então tivemos que voltar a casar em uma cerimônia judia, segundo a halajá (lei religiosa judia)", diz o rabino Eliyahu Birnbaum, juiz do tribunal de conversão e membro da delegação.

Emigração a Israel

Os rabinos converteram somente aqueles que se disseram dispostos a emigrar imediatamente a Israel. "Impusemos essa condição porque nas áreas remotas em que viviam não havia possibilidade de se respeitar as regras do kosher e era importante assegurar que eles viveriam em um ambiente judeu. Na realidade, a condição não era necessária, porque de qualquer modo eles estavam imbuídos de tal amor pelo país de Israel, que é difícil descrever," diz o rabino David Mamo, presidente adjunto do tribunal de conversão.

"Vendo seu entusiasmo pelo país de Israel compreendemos que a conversão fazia parte de um processo completo incluindo a aliya (emigração a Israel), de maneira que lhes dissemos: do mesmo jeito em que vivem em uma comunidade aqui, vocês poderiam unir-se também a uma comunidade em Israel," diz Birnbaum. "O rabino Mamo e eu vivemos em Gush Etzion (um grupo de assentamentos ao sul de Belém) e acreditamos que, quando se trata de assentamentos orientados à uma comunidade, não há nada que se possa comparar com Alon Shvut e Karmei Tzur (ambos em Gush Etzion), que disseram estar dispostos a absorver os novos imigrantes."

Os 90 novos imigrantes, incluindo 18 famílias, foram levados diretamente do aeroporto aos dois assentamentos. Leah Golan, diretor do departamento responsável pela imigração na Agência Judaica diz: "Nós, como Agência Judaica, trazemos a Israel todos aqueles que tenham sido apontados como tendo direito à aliya, — quer dizer, todos aqueles que tenham sido reconhecidos como judeus pelo grande rabino ou pelo Ministério do Interior."

"Geralmente, os imigrantes em potencial estão em contato com os nossos emissários da aliya e recebem informações muito confiáveis sobre as possibilidades de alojamento, emprego e educação em Israel. Mas no Peru não temos um emissário: só há uma pequena comunidade judia de umas três mil pessoas, de modo que só temos um escritório em Lima que é atendido por uma mulher local. Assim, a Agência Judaica não teve nada a ver com a decisão sobre onde esses novos imigrantes iriam morar ou que tipo de trabalho iriam fazer. Todas as decisões a respeito foram aparentemente tomadas pelos rabinos." Teoricamente os novos judeus tinham a opção de unir-se à comunidade judia no Peru, mas essa foi eliminada.

"Como falar sem ofender a ninguém?", diz Birnbaum. "A comunidade em Lima consiste de uma certa classe sócio-econômica e não os queria porque são de um nível inferior. Havia uma espécie de acordo de que, se fossem convertidos, não seriam agregados à comunidade de Lima, assim, não sobrou outra alternativa senão estabelecer a condição de que emigrassem a Israel."

Os novos judeus não encontraram dificuldades similares nos assentamentos, onde foram integrados sem problemas. "Agora, graças a Deus, vivemos no lugar por onde andou o patriarca Abraham, o judeu número um," diz Ephraim Perez, que até bem pouco tempo, em Trujillo, Peru, era conhecido como Nilo.

Descendentes de Colombo

Acontece que, para eles, o Peru também tinha um antigo antepassado judeu próprio: "É sabido que Cristóvão Colombo era judeu", diz Batya Mendel que era cidadã peruana e tinha o nome de Blanca. "E já que ele esteve no Peru, ali nasceram muitos judeus."

Colombo judeu? "Sempre falam a seu respeito no Peru, que visitou muitos lugares no Peru e deixou sangue judeu por todas as partes," diz Mendel. "Há também muitas seitas cristãs que obedecem aos mandamentos desde então. Quando éramos cristãos, também observávamos todo tipo de mandamento, tais como Pascha [sic] e Shavuot."

Assim, são realmente de origem judia? "Não, no Peru todos são uma mescla de nativos com todo tipo de conquistadores, porém houve muita influência judia através dos marranos (judeus que viveram durante a Inquisição espanhola, mantendo secretamente a sua fé apesar de haverem se convertido ao cristianismo) e através de Colombo. Quando ainda éramos cristãos e íamos à igreja observávamos alguns mandamentos como o Shabat e os dias festivos."

Os rabinos Mamo e Birnbaum, assim como os funcionários dos assentamentos, se referem aos 90 novos judeus como a "terceira aliya" já que houve dois grupos anteriores que vieram do Peru em 1990 e 1991.

Batya Mendel decidiu, na sua emigração a Israel, hebraizar não apenas seu nome, mas também o sobrenome. "Tornei hebraico o meu sobrenome mudando-o para Mendel", explica, "porque todos os anos, na década de 90, um rabino chamado Miron Sover Mendel ia ao Peru para a Páscoa e sempre passava uns poucos dias em Trujillo, uns poucos dias em Cajamarca e uns poucos dias em Lima, e nos ensinava o judaísmo. Ele morreu há cerca de meio ano e assim, quando me perguntaram por um nome na conversão, solicitei em sua memória que meu sobrenome fosse mudado para Mendel."

O que a fez vir a este assentamento? "O Ministério de Absorção disse que deveríamos vir para cá e agradeço a Deus por ter nos enviado," diz Mendel. "É o país do patriarca Abraham, e as pessoas daqui são muito agradáveis."

Segundo Ben-Haim, "a idéia de que haja alguns palestinos aqui é uma mentira. O povo palestino nunca existiu e só quando os judeus abandonaram seu país é que vieram os árabes tratando de apoderar-se e de demonstrar que têm algum direito aqui. Mas não podemos estar de acordo com isso, porque o Senhor deu a terra a Abraham, Isaac e Jacó para sempre, e todos os judeus ficarão unidos e amarão o Senhor com todo seu coração, e então todos os problemas se solucionarão."

Qual é a solução? "No Peru eu pensava que todos os judeus em Israel eram religiosos praticantes," diz Mendel. "Só quando cheguei aqui é que soube que quase 30% dos judeus não são religiosos, e isso me cortou o coração."

Foi isso que lhe disseram antes — pergunto -, que a maioria dos judeus em Israel são religiosos? "Sim, a maioria, mas não todos. Mas se todos chegassem a ser totalmente religiosos e se unissem, o Messias viria e os problemas com os palestinos se solucionariam, porque eles iriam embora daqui."

Os olhos de Mendel brilham enquanto fala: "Será o dia mais maravilhoso do mundo, quando todos os árabes se tornarem judeus, observarem os mandamentos e amarem ao Senhor; e quando vier o Messias, não haverá ninguém no país de nossos antepassados que não ame ao Senhor e ao judaísmo com todo o seu coração."

Você só se converteu em membro desta nação há uns poucos meses, e está neste país há menos de dois meses — digo —, sabe que há árabes e suas famílias têm vivido aqui há centenas de anos?

"Mas Deus disse que todo aquele que se tornasse judeu de coração e observasse os mandamentos, ele dará seu coração de uma geração à outra."

Recrutamento para o exército

Ben-Haim não fica preocupado pelo fato de, ao ser enviado a um assentamento, também ter sido recrutado por um grupo político em particular: "Sabíamos que estávamos indo a um lugar que é chamado 'os territórios'** porque há pessoas que conhecemos que emigraram antes e vivem nos territórios. Mas isso não me causa problemas, porque não considero que os territórios sejam territórios ocupados. Não se pode conquistar o que já era seu desde o tempo do patriarca Abraham."

Ben-Haim diz que depois de terminar o curso de hebraico que está fazendo, talvez entre no Exército, "porque eu não servi o Exército no Peru, e é algo que me falta, e também porque quero defender o país, e se não há alternativa, matarei árabes. Porém estou seguro que os judeus matam árabes apenas em legítima defesa e por justiça, mas os árabes, não. Eles matam porque gostam de matar."

Ele baseia essa opinião em sua visão científica do judaísmo: "O árabe tem o instinto de assassinar e matar como todos os não-judeus, os gentios. Apenas os judeus não têm esse instinto — é um fato genético."

Mas se você não nasceu geneticamente como judeu, não tem também esse mesmo instinto? "Talvez isso tenha ocorrido, mas não importa porque agora somos todos judeus."


* Síntese de matéria publicada inicialmente pelo jornal israelense Ha'aretz em 7 de agosto de 2002, depois reproduzida na íntegra por outros jornais. Site: www.palestina1.com.br
** Territórios pertencentes aos palestinos ilegalmente ocupados por Israel, segundo a ONU.
LEIA TAMBÉM

Edição impressa

Endereços

Jornal A Nova Democracia
Editora Aimberê

Rua Gal. Almério de Moura 302/4º andar
São Cristóvão - Rio de Janeiro - RJ
Tel.: (21) 2256-6303
E-mail: anovademocracia@gmail.com

Comitê de apoio em Belo Horizonte
Rua Tamoios nº 900 sala 7
Tel.: (31) 3656-0850

Comitê de Apoio em São Paulo
Rua Silveira Martins 133 conj. 22 - Centro
Reuniões semanais de apoiadores
toda segunda-feira, às 18:45

Seja um apoiador você também!

Expediente

Diretor Geral 
Fausto Arruda

Editor-chefe 
Mário Lúcio de Paula
Jornalista Profissional
14332/MG

Conselho Editorial 
Alípio de Freitas
Fausto Arruda
José Maria Oliveira
José Ramos Tinhorão 
José Ricardo Prieto
Henrique Júdice
Hugo RC Souza
Mário Lúcio de Paula
Matheus Magioli
Montezuma Cruz
Paulo Amaral 
Rosana Bond

Redação 
Ellan Lustosa
Mário Lúcio de Paula
Patrick Granja