Alemães em Santa Catarina: Da história não escrita à necessidade da História

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Um desfile em Blumenau com o Pavilhão Nacional
tendo sua extremidade coberta pela suástica nazista

Santa Catarina recebeu no século XIX levas de imigrantes — principalmente alemães e italianos — que foram simplesmente aportados no litoral do estado e, dali em diante, tiveram que fundar suas colônias sem qualquer apoio do Estado brasileiro. O contato com outras etnias, principalmente no Vale do Itajaí e nordeste do estado (onde estão Joinville e Blumenau, por exemplo), era praticamente nulo. Assim, não havia como esses primeiros imigrantes tornarem-se culturalmente brasileiros.

Para gerirem suas comunidades, esses imigrantes utilizavam o modelo que conheciam da Europa. O resultado foi a formação de núcleos de etnias e tradições exclusivamente europeus nessas colônias. Antes da Segunda Guerra, por exemplo, só se falava alemão ou italiano na região. As escolas adotavam livros que vinham direto da Europa; as igrejas ministravam o luteranismo evangélico (entre os alemães) ou o catolicismo (entre os italianos); jornais noticiavam em língua estrangeira — na década de 30, um terço dos periódicos no Brasil era escrito em alemão. No Rio Grande do Sul, a forte tradição gaúcha absorveu melhor esses imigrantes. Mas Santa Catarina ainda não tinha uma identidade formada além do litoral, já desenvolvida pelos imigrantes açorianos.

Em 1939, ao começar o conflito mundial, o precário equilíbrio das relações internacionais foi fortemente abalado. Rapidamente, uma nova configuração de alianças e acordos entre Estados surgiu, ocasionando também mudanças internas em quase todos os países do mundo. O Brasil, mesmo sendo historicamente área de "influência" e dominação do capital anglo-americano (notadamente ianque, após 1930), se viu arrastado pela força emergente que representava o nazi-fascismo1. Getúlio Vargas — que comandava a nação tiranicamente há vários anos — se mostrava bastante favorável à ascensão alemã na Europa, chegando mesmo a se inspirar em seus métodos de governo para instalar no país o famigerado Estado Novo, de moldes fascistas. Esse regime se alastrava pelo mundo capitalista, com variantes próprias em cada país. Nesse sentido, os povos instalados no Brasil receberam o tratamento tradicional das classes reacionárias no que corresponde à questão nacional: a opressão.

Bom é o alemão

Toda a aproximação dos governos brasileiro e alemão se processou no período que antecedeu a guerra, e foi aprofundado nos dois primeiros anos do conflito. Depois desse período — marcado por grandes vitórias nazistas no campo de batalha — a situação começou a se inverter. A pressão do USA para que o Brasil entrasse na guerra a favor dos aliados foi muito forte. Somada à campanha antifascista desenvolvida pelo povo em todo o país, fez com que Getúlio rompesse relações com os Estados que compunham o Eixo.

Sob a nova ótica, as colônias estrangeiras no país passaram a ser vistas como redutos nazi-fascistas, afirmavam governo e imprensa. De fato, o partido nazista estava instalado em Blumenau, com sucursais em outras colônias periféricas, desde 1929. Porém, nem todos nessas colônias nutriam simpatias por Hitler, Mussolini e a causa fascista. Havia muitas adesões, mas também uma ligação emocional com a Alemanha e a Itália que ultrapassava motivos políticos.

Os nazistas tinham se aproveitado do isolamento dessas comunidades para infiltrar sua ideologia nas populações imigrantes. Escolas, igrejas, associações e clubes de caça e tiro passavam a cartilha da "raça superior" e do triunfo da Alemanha sobre os demais povos. A região fazia parte dos planos do Lebensraum (literalmente, "espaço vital") de Hitler, e seria a Alemanha Antártida do Terceiro Reich, parte da geopolítica2, doutrina imperialista que se define a partir de 1916 e se solidifica durante a vigência dos nazistas. O nacionalismo reacionário, que excita o ódio contra os trabalhadores e justifica a dominação de uma nação por outra, também foi engendrado no Brasil.

O projeto nacionalista do Estado Novo, que pretendia realizar a "formação da identidade brasileira", tinha como objetivo a integração dos núcleos de imigrantes na cultura nacional. Era intenção do Estado colocar a seu serviço o estereótipo do alemão empreendedor, "trabalhador disciplinado", fruto da ética protestante que fez de Blumenau uma potência industrial. Vale lembrar, 70% da população blumenauense no final dos anos 30 era composta por alemães ou descendentes, e destes, apenas 10% falavam português; 30% compreendiam a língua nacional, mas não se consideravam brasileiros. O restante só compreendia o alemão.

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O partido nazista estava instalado em Blumenau ,
com sucursais em outras colônias periféricas, desde 1929

Um "povo novo"

A "nacionalização" do Brasil teve forte impacto na forma como as crianças passaram a ser educadas. Antes dos anos 30, a educação das crianças era informal, aprendia-se com os pais. Com o novo projeto, frequentar a escola passou a ser obrigação exigida nos cargos do funcionalismo público. A Constituição de 1937 proibia o uso de qualquer língua estrangeira nas escolas. Em Santa Catarina, 138 escolas particulares foram fechadas por essa e outras causas, e, no mesmo ano, foram abertas 99 escolas públicas estaduais e outras 141 municipais. O Hino Nacional era entoado com frequência, principalmente durante a visita dos inspetores. Militares passaram a ministrar aulas de educação física. As escolas tendiam a se transformar em órgãos disciplinadores semelhantes aos quartéis, para criar cidadãos dispostos ao trabalho de industrialização do país. Os eventos cívicos, como o 7 de Setembro e o 15 de Novembro, criados também dentro dessa nova ideologia, ensaiavam a formação de "cidadãos patriotas e ordeiros". Nesse ponto, a Igreja Católica passou a ser essencial para o projeto, homogeneizando e controlando as práticas religiosas.

Porém, cultos em línguas estrangeiras foram sendo reprimidos conforme a guerra se aproximava e o projeto de nacionalização ganhava tentáculos. Os bispos das igrejas luteranas de Blumenau — que abarcavam mais da metade da população na época — vinham todos da Alemanha. Retornaram tão logo as tropas nazistas começaram a se deparar com sucessivas derrotas.

Marlene de Faveri, em sua reveladora tese Memórias de uma (outra) guerra, explica que "as práticas autoritárias de Vargas pretenderam que as classes fossem uma massa, com a consequente eliminação do individual em função da unidade da nação." O forte apelo a aspectos simbólicos, como a bandeira, os dias cívicos e a "nacionalização", fazia do governo de Getúlio um mito de salvação da pátria. Nas escolas era proibido também qualquer livro que pusesse em dúvida o caráter e a história do povo brasileiro — bem entendido, na versão do Estado Novo. E havia a Juventude Brasileira, organização que realizava os Congressos de Brasilidade de 39 até 42. Ensinava-se música às crianças, porém o samba, o maxixe, o frevo e outros ritmos eram considerados selvagens.

Perigoso é o alemão

Vargas manteve-se "neutro" — da explosão da Segunda Guerra, em 1939, até meados de 1942 — quando navios mercantes brasileiros foram alvejados por submarinos, teoricamente de procedência alemã, matando centenas de marinheiros. Estranho episódio, visto que a Alemanha era o segundo país em importância nas transações do comércio exterior do Brasil, com 19% de participação. Perdia apenas para o USA, com 34%. Dentro da estratégia estadunidense de Boa Vizinhança 3 , acusar os alemães foi o mais natural. E fácil. Ser contra o USA era ser contra o Brasil. Mas antes de tudo isso, a Polícia Civil do Distrito Federal e a polícia nazista alemã, a Gestapo, trocaram valiosas correspondências. Às vezes, muito mais que isso. Olga Benário e Elise Ewert, por exemplo, foram levadas à força para a Alemanha nazista, no navio La Coruña, fretado clandestinamente pela Gestapo, já que (atendendo aos apelos da Internacional) nos portos de vários países, operários e marinheiros passaram a revistar os navios alemães com o intuito de resgatar as duas heroínas proletárias. O apelo dos povos que lutavam contra o fascismo não sensibilizou a administração Vargas que, consciente do que aconteceria com as duas revolucionárias, as entregou ao Reich.

Com a entrada do Brasil na guerra, em 22 de agosto de 1942, a ligação natural e expiatória desses imigrantes com o "perigo alemão" (ou italiano) tornou a língua uma questão de segurança nacional. Faveri afirma que "a repressão à língua foi dramática e fez com que nas colônias pairasse silêncio e autocontrole, com a presença de espiões." Dez dias depois, em 2 de setembro, já haviam sido presos 350 "simpatizantes" do Eixo em Santa Catarina, segundo o jornal A Gazeta. Residências de alemães e lojas comerciais com nomes germânicos foram apedrejadas, e ser alemão passou a ser motivo de chacota. Os imigrantes — que tinham vindo ao longo do século XIX e XX, importados pelo governo do Brasil — justamente para "embranquecer" a raça brasileira — passaram a ser vistos como traidores e racistas, e sua imagem foi demonizada para formar um imaginário de medo na população.

Declarações colhidas por Faveri registram a imagem perversa do homem alemão na imaginação das crianças. Nela também era incutida a visão aterradora do bombardeio caindo sobre as suas famílias, o pavor de serem raptadas pelos alemães.

Iniciou-se uma verdadeira caça às bruxas. Falar, cantar ou escutar canções alemãs, possuir um rádio, sendo alemão, italiano ou japonês, tudo isto estava proibido. O governo tentava dar fim a qualquer impulso de formação de um Estado paralelo no sul do país. Blumenau era uma ameaça à nacionalização do Brasil. Primeiramente, o problema era ser estrangeiro e, portanto, não patriota. Com a iminência da guerra, o problema passou a ser o germanismo. Uma simples suspeita poderia justificar uma prisão, num país onde o habeas-corpus estava suspenso. E as delações passaram a ocorrer sistematicamente, em um cotidiano que se tornou o de manter os "ouvidos atentos onde amigos tornam-se inimigos e as relações passam a ser de tensões e medo de ser delatado." As contas bancárias dos alemães e descendentes foram bloquedas, milhares perderam seus empregos legalmente, pois o Estado mandava dar prioridade aos brasileiros natos no mercado de trabalho.

Nazismo catarina

Faveri fala, em sua tese, de como foi acirrado na região o abuso de poder por parte dos delegados, inspetores e professores. Delegados prendiam, não importava quem fossem seus desafetos, extorquiam dinheiro dos imigrantes, quando não os fazia caminhar quilômetros todos os dias para lhes dar bom dia, numa humilhante prisão condicional. Disputas pelo comércio também motivavam a prisão de estrangeiros que não sabiam o português, mas possuíam casas comerciais. Como aprender, de repente, uma nova língua que até então era praticamente inexistente para muitos?

Havia também os trabalhos forçados, principalmente nos dois campos de concentração criados em Santa Catarina: um na Penitenciária Agrícola da Trindade, em Florianópolis, outro no Presídio Político Oscar Schneider, em Joinville. As informações oficiais divergiam quanto à quantidade de presos políticos nesses dois locais. Praticava-se muito, contra os acusados, um sistema que os exilava das fronteiras do Estado, separando e arruinando famílias, causando desemprego e miséria. Bom Retiro, Timbé do Sul e Lages eram alguns dos locais que serviam para isso. A libertação destes presos começou conforme a guerra dava sinais de estar acabando, sendo os processos por crime arquivados.

Em 1937, com a forte ascensão do Partido Social Nacionalista dos Trabalhadores da Alemanha (nome novo), Adolf Hitler criou "uma verba de 262 milhões de marcos para a ação nazista no estrangeiro", afirma o jornalista catarinense Aluízio Batista de Amorim em uma reportagem realizada no início da década de 80. Nessa folha de pagamento estavam os agentes efetivos e honorários da Gestapo, por exemplo, gente de várias classes sociais dos países visados pelo III Reich. "Com este sustentáculo econômico e tendo como pontas de lança as embaixadas e consulados", explica Amorin, "quase conseguiram formar um verdadeiro Estado dentro do Estado brasileiro."

Estruturados em diversas associações germânicas, os nazistas se infiltraram no âmago dessas comunidades. Há registros fotográficos de casas com o estandarte nazista erguido no quintal, desfiles com a cruz gamada sobre a bandeira do Brasil, banquetes enfeitados com a suástica. Em 37 havia até o "plano secreto" de criar um "Estado Integralista-Nazista independente, reunindo os estados do Paraná, Santa Carina e Rio Grande do Sul", cita Amorim.

O imperialismo alemão alcançou, com certeza, certa expressão na região catarinense. Mas o fato que a máfia nazista obrigava a população das colônias a participar de determinadas atividades, ao menos para marcar presença — enquanto a ação opressora do governo Vargas somente deu combate àquela organização quando se tornou conveniente fazê-lo — não tem grande importância para a historiografia oficial, muito menos que o Estado Novo adotou medidas contra os alemães trabalhadores e seus descendentes, a pretexto de combater a corrente nazista, sem nunca ter se oposto ao imperialismo de uma maneira geral. Porém, mais oculto é o combate travado pelas massas trabalhadoras contra o nazi-fascismo, inclusive decisivo na formação da Força Expedicionária Brasileira (FEB).

Depois da guerra, as tradições alemãs voltaram à região, em particular a Blumenau. Na verdade, os anos 50 e 60 conheceram uma espécie de revanche do germanismo exacerbado. Hoje existe a Oktoberfest, o Stamntisch, a Schutzenfest e várias outras manifestações de exaltação aos costumes germânicos. Mas a história da opressão nacional, do medo, do silêncio imposto, etc., continua sendo posta de lado, havendo preferência pela interpretação oficial, mais fácil de contar, bem "mais estética". O ressentimento permanece na memória de quem esteve lá.


1 O fascismo é uma variante da política dos monopólios, que surge na época da crise geral do capitalismo (o imperialismo), e exprime os interesses mais agressivos do capital financeiro mundial. O estado de declínio agudo do capital financeiro primeiro se reflete no parlamentarismo, no que é socorrido pela contra-revolução para sufocar as liberdades democráticas e os movimentos sociais progressistas. O fascismo busca ser uma sofisticada e duradoura contra-revolução, lançando mão do populismo, da demagogia, formando "partido de trabalhadores" não-proletário, sindicalismo aristocrático e doutrinas difusas. Porém, ao mesmo tempo em que faz avançar os sistemas de Estado e de Governo como máquina mortal contra o povo, começa a dar sinais de desespero e desencadeia o terrorismo sob vários pretextos. O fascismo tradicional adota as formas mais extremas de anticomunismo, racismo e militarismo. A corrente nazista — designação da ideologia e da política do "partido operário nacional-socialista alemão", criado em 1919 — foi a grande expressão do fascismo na sua primeira fase, período de 1919 a 1945.
2 A recuperação econômica da Alemanha, (1924/ 1929), ocorre no período de afluxo dos grandes capitais ianque e inglês, fundamentalmente, através de uma reforma financeira conservadora. Retomada do impulso industrial e equilíbrio da balança de pagamento. Mas as bases frágeis do capitalismo novamente não puderam livrar a Alemanha de uma nova bancarrota (1929 /1933).
3 Política de Boa Vizinhança (1933/1945) corresponde à terceira estratégia do imperialismo ianque, que tem início com a Doutrina Monroe (1822/1898), seguindo-se Big Stick (Grande Cassetete — 1898/1933). A quarta estratégia é a Guerra Fria (1945/1975) e a atual, da Nova Ordem imperialista.

 

Bibliografia:
Faveri, Marlene de Memórias de uma (outra) guerra. Cotidiano e medo durante a Segunda Guerra em Santa Catarina, Florianópolis, UF SC, 2002.
Amorim, Aluízio B. deNazismo em Santa Catarina, Florianópolis, Insular, 2000.

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