Como viver com 240 reais?

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Depoimento da dona-de-casa Maria Cristina da Silva, de Belo Horizonte, à AND

A dona-de-casa Maria Cristina da Silva, 42 anos, de Belo Horizonte, ao falar à nossa reportagem sobre a possibilidade de sobrevivência de uma família, em condições dignas, com renda de um salário-mínimo por mês, fez um depoimento emocionado — mas ao mesmo tempo bastante lúcido — sobre a sua condição de vida, condição idêntica a de milhões de brasileiros, proletários e camponeses, espalhados país afora.

Arte: Alex Soares

Como viver com 240 reais por mês? Essa é uma pergunta que quando a gente se faz, fica desesperado. Se parar para pensar de verdade, verdade mesmo, não dá para viver com essa quantia, cuidando de casa e criando os filhos. Mas, como não há outro jeito, o trabalho que faço como doméstica em casa de família só paga isso. A gente tem de ir se virando, sobrevivendo como pode.

A primeira coisa é imaginar que o grosso do dinheiro vai para comprar comida, porque isso é o básico. Pagar aluguel eu não pago, porque o barracãozinho, que você pode ver, é pequeno, simples, mas nosso, conseguido com tanta luta. Então, quase tudo que a gente gasta é com mantimento, gás e as contas de luz e água para pagar. O resto que se precisa, uma passagem de ônibus, um calçado, também entram nesta conta, mas só saem quando é possível.

Desse jeito, assim, funciona a casa: todo mundo come o que o dinheiro deu para comprar na feira e no supermercado. Abóbora, banana, couve, repolho, espinafre, mandioca, farinha, tempero, cará, tomate, ovo, arroz, óleo, feijão, açúcar, café, macarrão. Ninguém vive sem essas coisas, mais algumas outras. Mas elas estão, a cada dia, mais caras! A carne, então, nem se fala: são R$ 4, R$ 5, o quilo, das mais baratas. O pacote de arroz só se vê a mais de R$ 6, e o feijão já quase R$ 3, e por aí andam os preços. Às vezes eu não entendo o que gente ouve na televisão: eles falam que o país produz muito no campo, safra disto, safra daquilo, que exporta até para o Japão, mas o preço dos alimentos, que não podem faltar para o brasileiro, só faz crescer. Por que, se o país consegue plantar e colher bastante, não vem nada barato para os trabalhadores da cidade? Nem morando na roça se come melhor também. Antes de eu vir para cá, era também pobre morando no interior e tudo era caro. Não dá para entender as explicações deles.

Bem, mesmo com o mantimento caro, a gente tem de comprar. Depois, na hora de fazer (e não sou sempre eu que faço, minha menina cozinha também), tem que regrar, para não acabar mais rápido o que precisa durar. Durar, mesmo, não dura o mês inteiro nunca. Nós sempre arrumamos um dinheiro qualquer que vai complementando a coisa, mas mesmo assim não se pode agir solto com o que é da casa. Nada que o trabalho deu pode ser desperdiçado, ainda mais o que é conseguido com muito sacrifício. Isso não quer dizer que a gente passa fome, mas age assim para não passar (...). Quando o trem aperta, o prato da refeição da gente não muda, ou muda pouco: arroz, feijão e ovo ou arroz, feijão e uma rodela de tomate para cada um, no almoço e na janta.

É mais ou menos R$ 180, às vezes R$ 200 que fica no mercado. E ainda tem o sabão de pedra, uma água-sanitária, pasta de dente e outros produtos de limpeza. Pão na padaria não dá para comprar todo dia, mesmo com o dono anotando a conta para pagar depois. Leite, só para o menino. Se somar isso que eu 'tô falando, vamos para mais da conta em muito. E ainda tem as contas de luz e água, também absurdas. E a gente torce para ninguém ficar doente.

Nem todo mês dá para pagar certinho as contas de água e luz. Depende muito do que se consegue arranjar lavando roupa para fora, no tempo que sobra, e do quanto meu filho mais velho consegue nos bicos que ele tem. Os nossos vizinhos, aqui, são todos do mesmo jeito nas contas. Tem sempre um monte devendo e as empresas cortando sem dó. A maioria mesmo faz é o "gato", religando os fios e usando a energia de qualquer maneira. Sem ela não dá para ficar! Quando pobre atrasa as contas, tem de dar seu jeito, não tem ninguém que venha por nós. A Cemig (Companhia Energética de Minas Gerais) e a Copasa (Companhia de Saneamento de Minas Gerais) já até conhecem o pessoal daqui, nem tentam fazer mais nada contra quem faz "gato".

Com estas taxas subindo sempre, o preço das contas não sai por menos de R$ 50 (as duas contas), mesmo usando pouco: é só chuveiro e televisão, praticamente, e com a casa tão pequena...

Meus filhos, desde pequenininhos, sempre me pediram as coisas que vêem na televisão, na escola, na rua. Eles já acostumaram a não ter, mas eu acho que é a pior coisa do mundo você ver seu menino te pedindo uma coisa, que a gente sabe que ele precisa, e não poder fazer nada, trabalhando como eu trabalho. Só quem vive assim, meu filho, é que sabe. Mulher sem marido carrega um peso danado. A gente vive mesmo é para ver os filhos bem, e eles, quando crescem um pouco, acabam ficando na mesma situação, difícil também. É até pior: o mundo tão cheio de perigo, drogas, coisa que não tinha tanto no tempo em que eu era criança. (...)

Viver com salário pequeno é vida sofrida. O governo, que devia fazer alguma coisa para esse mundo de gente como nós que tem por aí, não faz nada. Eu, no meu tempo de vida, nunca vi nenhum que fosse dos pobres mesmo, e por isso a gente sofre tanto. Viver assim não dá mais, ninguém está aguentando mais. Mas enquanto não mudar, vamos matando um leão por dia, ganhando a vida como se pode ganhar honestamente. Ainda quero ver algo diferente na vida, e sei que é difícil, mas não impossível.

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