Que culpa tem o tomate?

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"Que culpa tiene el tomate
de estar tranquilo en la mata,
y viene um hijo de puta
y lo mete en una la lata
y lo manda a Caracas."

(Canção revolucionária da Guerra Civil Espanhola)

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O preço do tomate: R$ 12 o quilo. As explicações do governo: o clima, o tempo desfavorável, etc, etc. Em Caracas, é o preço do papel higiênico que atingiu as alturas, por lá uma explicação mais "madura" do governo: os preços aumentaram, porque nunca antes na história da Venezuela o povo comeu tanto. Mierda! Que deboche com o povo. Atingimos o auge do neo-populismo na América Latina, agora é daí para o ralo.

Muitos se iludiram com a onda "renovadora" no continente, esperança desperdiçada em Hugo Chávez, Luiz Inácio, Evo Morales e Néstor Kirchner. O neo-populismo se consolidou num período de aumento dos preços dos produtos primários. Venezuela, Brasil, Bolívia e Argentina melhoraram suas contas externas graças à exportação de petróleo, gás natural, minério de ferro, soja e carne de gado. Nestes quatro países, os produtos primários são responsáveis por mais de 60% do PIB.

A crise internacional do sistema capitalista acentua a queda do preço das commodities. Aí começa a crise do falso socialismo do século XXI, socialismo de boca, capitalismo burocrático na prática. O que o neo-populismo fez, de uma maneira geral, foi fortalecer o setor primário da economia e medidas político-sociais de fachada (bolsa família no Brasil, vivendas populares na Venezuela, combate ao analfabetismo na Bolívia, ataques a setores dos monopólios de imprensa na Argentina).

Mudanças políticas, econômicas e sociais verdadeiras não foram feitas. Basta ver a questão agrária. Analisemos o governo de Hugo Chavez, considerado o mais à esquerda entre os neo-populistas. Chavez não fez nem uma mínima reforma-agrária, tanto que a Venezuela continua totalmente dependente da importação de alimentos, de todos os tipos, da vizinha e politicamente rival Colômbia. No Brasil, a política agrária de Lula foi ainda pior do que a de FHC.

E o que o tomate tem a ver com isto?

Tudo. Embora Brasil e Argentina sejam grandes produtores agrícolas, o plantio nestes países é voltado para a exportação. Nosso país é o maior produtor de soja do mundo. Isto é apresentado como uma grande conquista nacional, vemos uma produção mecanizada, moderna e daí? Quem come soja no Brasil? Somente os vegetarianos, que são pouco numerosos. Nós, onívoros, no máximo fritamos bolinhos com o óleo ou passamos margarina no pão por não termos dinheiro para comprar manteiga.

A soja é, hoje, o que em outros tempos foi o café, a borracha, o ouro e o pau-brasil. Um produto qualquer que atenda as necessidades do mercado capitalista e não as necessidades de nosso povo.

No Brasil, vigora até hoje um arcaico sistema latifundiário, grande parte dele controlado diretamente por monopólios imperialistas. Importamos arroz e exportamos soja. Ilógico? Para a mentalidade capitalista não, pois o que importa é o lucro. Os únicos que produzem pensando no mercado interno são os pequenos e médios produtores rurais. São eles que abastecem a Ceasa no Recife, e o Ceaca em Caruaru. E claro, não produzem soja. Eles plantam milho, feijão, inhame, batata, banana e o precioso tomate.

Aqui em Pernambuco o tomate chegou, no máximo, a R$ 6, graças ao tomate matuto que é plantado por aqui mesmo. Se dependêssemos do tomate longa vida, cultivado principalmente no sul, teríamos amargado preços ainda piores. A banana, esta sim, atingiu preços altíssimos, de R$ 2 a dúzia para R$ 7.

O clima não pode explicar um aumento tão absurdo de preços. Seria como acreditar que o governo foi pego de surpresa pelas chuvas de março na região serrana do Rio. Chuvas e secas são fenômenos sazonais, como o são as colheitas. A alta do preço pode ser explicada pela fragilidade econômica da pequena e média produção agrícola. A gerência oportunista de Dilma aposta no cultivo para exportação, nas commodities, como forma de fortalecer suas contas externas e sua moeda. E como não exportamos tomate...

Uma economia voltada para a exportação de produtos agrícolas, que sustente o real valorizado, pode ser boa para quem viaja ao exterior, mas péssima para os camponeses do interior que não têm terra para plantar; que são impedidos de trabalhar; que enfrentam uma política de assassinatos dos lutadores pela terra no campo; que quando possuem uma pequena terra, ainda assim enfrentam mil e uma dificuldades para produzir. E é péssimo para os trabalhadores da cidade, que veem seus magros salários ser amealhados pela carestia dos alimentos.

Se o "camponês não planta, a cidade não janta". Mas para o camponês plantar livremente é necessário uma revolução agrária. Tarefa para a qual os neo-populistas nunca se propuseram e sem a qual é impossível fazer uma verdadeira transformação na América Latina. Mas chegará o dia em que o tomate crescerá tranquilo na mata, para ali mesmo ser comido por aqueles que o cultivaram. Ou o dia de que fala a canção revolucionária da Guerra Civil Espanhola:

"Quando querrá el Dios del cielo
que la tortilla se vuelva
que los pobre coman pan
y los ricos mierda, mierda."


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