Editorial - Enquanto o povo morre de fome

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"Lamentavelmente no Brasil o voto não é ideológico, lamentavelmente as pessoas não votam partidariamente e lamentavelmente você tem uma parte da sociedade que, pelo alto grau de empobrecimento, ela é conduzida a pensar pelo estômago e não pela cabeça. É por isso que se distribui tanta cesta básica. É por isso que se distribui tanto ticket de leite. Porque isso na verdade é uma peça de troca em época de eleição. E assim você despolitiza o processo eleitoral. Você trata o povo mais pobre da mesma forma que Cabral tratou os índios quando chegou no Brasil, tentando distribuir bijuterias e espelhos para ganhar os índios, eles distribuem alimento. Você tem como lógica manter a política de dominação que é secular no Brasil."

Luiz Inácio disse isso em um programa oficial do PT, aparentemente em 2000, e a direita mais fascista vem usando isso para combatê-lo, como se fosse uma incoerência sua "mudança de opinião". Na verdade, tal declaração revela a verdade sobre tais programas assistencialistas e focalizados, objetivo assumido pelo oportunismo eleitoreiro do PT e aliados.

A questão envolve uma disputa sobre a paternidade dos programas assistencialistas que, como peça eleitoral, é reivindicada tanto por Cardoso quanto por Luiz Inácio, os dois evitando dizer que os pais são, na verdade, o Banco Mundial e o FMI, que há décadas preconizam esse tipo de ação do governo junto aos mais pobres.

O boato de que a bolsa esmola ia acabar, entretanto, causou correria, tumulto e quebra-quebras em agências da Caixa em alguns estados, além de grande comoção entre os recebedores do "benefício" em todo o país. Membros do governo não tardaram a dizer que se tratava, de novo, de "tentativa de golpe", de "ação orquestrada" e outras bobagens, mas não tardou a aparecer a verdadeira causa da boataria. Entre declarações desencontradas e pedidos de desculpas, a própria Caixa assumiu que antecipou os pagamentos sem avisar, algo incomum que originou os tumultos.

A coisa toda cai como uma carapuça no oportunismo, que vem intensificando o marketing do fim da miséria no Brasil. A reação das massas mais miseráveis ao suposto fim do Bolsa Família só revelou a relação de dependência que essas pessoas tem com o Estado, através desse tipo de política. Não se criou independência, porque não se criou emprego. E se não há independência também não há nenhuma dignidade.

II

Para piorar, dados do Ministério do Desenvolvimento Social, compilados a pedido da Folha de São Paulo através da Lei de Acesso à Informação, revelam que se a linha fictícia de R$ 70 por pessoa, estipulada pelo governo para decretar o fim da miséria, fosse reajustada pelos índices oficiais da inflação no período, mais de 22 milhões de brasileiros estariam novamente na miséria.

E atentem para o fato de que a inflação oficial não passou de 10% desde que Dilma assumiu a gerência do velho Estado semifeudal e semicolonial brasileiro. Ou seja, existem mais de 22 milhões de pessoas (mais de 10% da população) que recebem entre R$ 70 e R$ 77, incluídos aí os contemplados pelos programas assistencialistas do governo. E se alguém tiver disposição para calcular a inflação real, verá que há um número muito maior de pessoas na miséria. E verá também que a verdadeira linha da miséria é muito acima dos demagógicos R$ 70 (ou ainda dos R$ 77).

Porém, mais que demagógica, a política do oportunismo faz uma espécie de espiral. Falsifica estatísticas, distribui certa quantidade de dinheiro aos mais pobres, maquia dados da alta de preços e sufoca a produção camponesa, o que deveria diminuir a pressão por melhores salários. O PT só "esqueceu" de combinar isso com a realidade, que é muito mais grave e empurra as massas para a luta.

Ao mesmo tempo, a gerência FMI-PT, aprofundando a política de seus antecessores, enche de mimos o imperialismo, a grande burguesia e os latifundiários, que a cada requisição recebem mais um quinhão do patrimônio e do erário público, além de contar com todo o suporte do judiciário e do aparato repressivo (aumentado enormemente pelo oportunismo), que a toda hora é jogado contra as massas em luta.

Como sempre pensam eleitoralmente, PT e aliados esperam que haja crescimento da economia apenas em 2014 (sinal de que abandonaram as metas para este ano, por irreais que são), ano de mais uma farsa do sufrágio universal. E julgando que com manobras e falsificações conseguirão adiar o ocaso do triunfo oportunista, se enganam.

Ainda que conquistem mais um mandato, ou ainda outro e outro, já que as demais siglas do partido único não têm nada de novo a apresentar além de denúncias de corrupção e discursos vazios, o declínio inevitável do oportunismo se dará pela força das lutas populares organizadas em um programa revolucionário democrático, sustentado por uma frente de classes revolucionárias e dirigido por um verdadeiro partido revolucionário.


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