Turquia: são as massas que fazem a história

A- A A+

"Tudo começou em volta de um parque, mas agora é tudo". Um manifestante postou em uma rede social na internet a frase que resume o momento político da Turquia. As manifestações que vêm sendo chamadas de "primavera turca" podem levar as flores turcas muito mais longe do que chegaram as do Norte da África.

http://www.anovademocracia.com.br/112/23.jpg

Na manhã de 11 de junho, o primeiro ministro turco Recep Tayyip Erdogan enviou a polícia para reprimir os manifestantes no Parque Gezi, Praça Taksim, em Istambul. Os manifestantes não retrocederam e enfrentaram os canhões de água e as bombas de gás lacrimogêneo – de fabricação brasileira, da empresa fluminense Condor – com coquetéis molotov, lança foguetes artesanais e pedras. Um cordão humano foi organizado para proteger o parque.

No início da manhã a Praça ficou vazia. Horas depois os manifestantes voltaram a ocupá-la. A batalha campal durou todo o dia, e os manifestantes retornaram uma e outra vez para Taksim. Esse movimento de sair da Praça e voltar a montar as barricadas tem sido diário.

Centenas de pessoas ficaram feridas. A Associação Médica turca denunciou que vários manifestantes tiveram traumas cranianos. Até o dia 11, quatro pessoas haviam morrido. Cinquenta advogados foram presos após realizar um protesto em frente a um Tribunal da cidade. Vários jornalistas também estão presos. O crime: apoiar os manifestantes.

Era um parque

Os protestos em defesa do Parque Gezi, na Praça Taskim, começaram no último dia 28 de maio. Cerca de 50 manifestantes tentaram impedir a derrubada de árvores do Parque, que é um importante lugar de encontro e realização de atividades políticas e culturais do povo turco. Além disso, o Parque, que tem 600 árvores, é uma das poucas áreas verdes que restam na cidade.

O primeiro ministro Erdogan anunciou que a praça seria removida e substituída por uma réplica de um quartel militar que serviu ao fascista Império Otomano, um centro comercial, condomínios e uma nova mesquita. Nos dias que sucederam o anúncio, a Praça começou a ser ocupada por jovens afins ao movimento Occupy e ativistas de diversas correntes. Em quatro de junho houve uma greve geral de três dias convocada pelos sindicatos do país.

No dia oito, o presidente da Câmara de Istambul, Kabir Topbas afirmou aos jornalistas que o governo havia desistido de construir o centro comercial, mas que a Praça daria lugar a um hotel ou área residencial. O anúncio não diminuiu os protestos.

Por todo o país

A ocupação e defesa do Parque foram apenas a faísca que começou a incendiar todo o país. Aos poucos, os protestos passaram do local ao nacional, da defesa do Parque Gezi a um novo caminho para o povo turco. Em Ankara, capital do país, os protestos têm sido diários e exigem a demissão de Erdogan.

No dia nove de junho, um domingo, milhares de turcos saíram às ruas em Istambul, Ankara e Izmir.  A polícia tentou reprimir as manifestações. Enquanto isso, Erdogan se reunia com seus partidários e insuflava-os a enfrentar os manifestantes, afirmando que sua paciência havia acabado. O primeiro-ministro também sugeriu que havia uma conspiração internacional contra seu governo por trás dos protestos.

Grande parte da imprensa turca têm ignorado as manifestações. Os canais de televisão Halk TV, Ulusal TV, Cem TV e EM TV, contrários ao governo, foram multados por mostrarem imagens dos protestos.

Manifestação de solidariedade aos jovens turcos também se realizaram em outros países. Na Inglaterra, no dia 8 de junho, cerca de 3 mil turcos se reuniram na Trafalgar Square e marcharam para a casa do primeiro ministro britânico David Cameron.

O fascismo na Turquia

O Estado turco é hoje um dos mais fascistas do mundo. Mas essa história não é de hoje. Em 1923, o movimento nacionalista de Kemal Ataturk, primeiro presidente do país, massacrou os armênios e curdos e proibiu os sindicatos. Em 1960 houve um golpe de Estado. A história se repetiu em 1980 e milhares de ativistas políticos foram presos.

Em 1995 uma coalizão religiosa passou a dirigir o país e foi sucedida por várias coalizões conservadoras. Em 2000, o Estado colocou os presos políticos em cárcere incomunicável e massacrou 32 deles que realizavam uma greve de fome.

Nos anos seguintes, milhares de ativistas continuaram sendo presos, torturados e assassinados. Outros milhares estão exilados em vários países da Europa.

O atual governo está tentando impor um regime islamita e as leis atuais favorecem ainda mais a privatização da economia de acordo com os interesses imperialistas.

Hoje, a Turquia é o país com o maior número de jornalistas presos. Advogados e outros profissionais liberais também estão entre os milhares de presos políticos do país.

No entanto, a extrema violência a que o povo turco é submetido é respondida com a guerra popular que se desenvolve há mais de 40 anos dirigida pelo Partido Comunista da Turquia Marxista-Leninista (TKP-ML) e seu Exército do Povo de Operários e Camponeses (TIKKO). Além disso, há outros movimentos de luta armada, como o Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK) (ver pág. 20), o Partido Comunista Maoísta (MKP) e o Partido da Frente de Libertação Popular Revolucionária (DHKP-C).

O contexto, portanto, no qual se desenvolve os protestos atuais é marcado por um histórico de lutas revolucionárias e antifascistas. Uma declaração publicada pelo Partido Comunista Maoísta da França analisa que: "a ‘primavera turca’ pode ser ainda mais agitada que na Tunísia ou no Egito porque apesar de uma repressão constante e massiva, as forças revolucionárias estão presentes, a guerra popular não se extingue e tem apenas um objetivo: a conquista do poder pelo povo sob a direção do proletariado, com o objetivo de estabelecer a Nova Democracia e para construir o socialismo".

Conteúdo exclusivo para assinantes do jornal A Nova Democracia

TKP-ML e Tikko na vanguarda de Taksim

No dia 01 de junho, militantes do TKP-ML e do DHKP-C organizaram uma ação de sabotagem em apoio à luta popular de Taksim. O grupo atacou um posto policial e trocou tiros com os agentes de polícia. A ação durou mais de três horas e os militantes se retiraram sem perdas.

Os ativistas do TKP-ML, do TIKKO e da Juventude do TKP-ML tomaram seu lugar de forma organizada nos protestos. Eles estão à frente da barricada "Marx, Lenin e Mao", que tem enfrentando a polícia fascista turca.


TKP/ML: Por uma revolução profunda em nosso país!  

Temem que o muro tenha caído, assim como as ruas e os desafios. A ditadura fascista do governo do AKP não sabe o que fazer diante de uma revolta popular sem precedentes. Eles estão mortos de medo de uma grande batalha!

Apesar da feroz repressão, há uma luta terrível e a polícia se afogou em sua própria fumaça. Istambul, Ankara e Izmir. As ruas e praças estão cheias de revolucionários, progressistas e patriotas e são o símbolo da coragem dos jovens lutadores.  

O que acontece na Turquia é a explosão da raiva acumulada por séculos pelas massas contra o fascismo. As áreas públicas do país se transformaram no local para o restabelecimento da liberdade.

As paredes do Império estão desmoronando. O povo começou a se unir e um sentimento de ousadia e coragem está se espalhando. Todas as idades, sexo, nacionalidades, todos estão integrados na mesma torrente de raiva.  

O governo está sendo convidado a se demitir e vários órgãos governamentais e da imprensa burguesa estão sendo alvos da ira popular. Nossos militantes estão organizando grupos armados de resistência.  

A luta está se ampliando para as províncias do Curdistão e pelas fábricas e bairros de Istambul. Taksim é a luz que nos guia para o processo revolucionário e temos muito o que aprender com essa luta.  

A energia e determinação da juventude é surpreendente, assim como ver uma luta pequena tomando dimensão, ganhando centenas de milhares de pessoas para a resistência. A raiva se transformou em revolta e agora abraça todo o país.  

O nosso partido não é o organizador da revolta. A rebelião espontânea das massas, geralmente, não ultrapassa mais do que objetivos limitados. Não estamos minimizando a luta, mas alertando para seus limites. Não devemos, contudo, deixar de sonhar e lutar em direção à nossa vitória final. O nosso slogan deve ser "Este é apenas o começo, a luta continuará".

A solução para os problemas da Turquia é a revolução democrática. Nossa missão está apenas começando. Devemos estar em todas as ações nas áreas de vanguarda da resistência, impulsionando-as. Fazemos um chamado à unidade, à resistência e à solidariedade para elevar ainda mais a luta popular.

Abaixo a ditadura fascista! Longa vida à resistência!

Viva a revolução popular democrática! Viva a Guerra Popular!

TKP-ML, 04 de junho de 2013


Edição impressa

Endereços

Jornal A Nova Democracia
Editora Aimberê

Rua Gal. Almério de Moura 302/4º andar
São Cristóvão - Rio de Janeiro - RJ
Tel.: (21) 2256-6303
E-mail: anovademocracia@gmail.com

Comitê de apoio em Belo Horizonte
Rua Tamoios nº 900 sala 7
Tel.: (31) 3656-0850

Comitê de Apoio em São Paulo
Rua Silveira Martins 133 conj. 22 - Centro
Reuniões semanais de apoiadores
toda segunda-feira, às 18:45

Seja um apoiador você também!

Expediente

Diretor Geral 
Fausto Arruda

Editor-chefe 
Mário Lúcio de Paula
Jornalista Profissional
14332/MG

Conselho Editorial 
Alípio de Freitas (In memoriam)
Fausto Arruda
José Maria Oliveira
José Ramos Tinhorão 
José Ricardo Prieto
Henrique Júdice
Hugo RC Souza
Mário Lúcio de Paula
Matheus Magioli
Montezuma Cruz
Paulo Amaral 
Rosana Bond

Redação 
Ellan Lustosa
Mário Lúcio de Paula
Patrick Granja