Rio: camelôs na mira do velho Estado

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No Rio de Janeiro, desde que Eduardo Paes assumiu a prefeitura, o choque de ordem se tornou política permanente do gerenciamento municipal contra moradores de rua, flanelinhas e, principalmente, camelôs. O Centro da cidade é palco de ações diárias do Estado contra os comerciantes que revendem produtos de baixo custo para sobreviver. Nessas ações, guardas fardados e a serviço da prefeitura tomam a mercadoria do camelô, que é confiscada e, a que não é roubada, é levada para um depósito. Na maioria dos casos, os trabalhadores resistem às investidas da guarda municipal, pois sabem que o material apreendido em pouquíssimas situações é recuperado.

Em abril desse ano, três guardas municipais foram parar no Hospital Souza Aguiar depois de um confronto com comerciantes na região da Uruguaiana, tradicional camelódromo do Centro do Rio. No mesmo conflito, dois camelôs foram presos e as tropas de repressão no local foram reforçadas, a partir de então, pelo comandante da GM, coronel Lima Castro, com mais 140 homens.

A equipe de reportagem de AND esteve no mesmo local do confronto e conversou com vários trabalhadores que, diariamente, sofrem com os desmandos da guarda municipal no Centro do Rio. Um deles, Róbson Lima, de 38 anos, diz que é camelô há nove e que não foi a gestão de Eduardo Paes que inaugurou a rotina de repressão, mas que, de fato, o choque de ordem intensificou a perseguição aos trabalhadores.

A gente sempre teve que correr do rapa [como os camelôs chamam os agentes de repressão], na verdade. O choque de ordem só fez a gente ter que correr mais. Eles vêm geralmente na parte da tarde. A maldade maior quem faz é o GOE [Grupamento de Operações Especiais da guarda municipal]. Tomam tudo e ainda descem o sarrafo. Mas o camelô não entrega fácil. A maioria briga antes de perder. Até porque isso aqui é a nossa sobrevivência. É uma profissão de risco mesmo. Quando a gente compra, já perde o dinheiro da mercadoria. Para quem vende comida, bebida, essas coisas; não tem consignação. Se perder para a guarda [GM], perde a mercadoria, o dinheiro que você tinha, o dinheiro que você ia fazer e ainda apanha se reclamar. Nem bandido, que rouba, mata, estupra, recebe esse tratamento — reclama.

Outro camelô que preferiu não se identificar conta como os trabalhadores percebem a aproximação dos agentes de repressão.

Na maioria das vezes, a gente nem escolta o guarda fardado, porque antes que ele apareça, tem sempre um a paisana já olhando a gente, rondando. Eles investem nisso, na repressão, para pegar nosso material. Não dá para entender, um guarda, ganhando um salário desses da prefeitura, só para ficar na rua roubando camelô. Bota gente para trabalhar no hospital, na escola, na vila olímpica. Tem gente que acha que camelô não sabe da realidade, mas essa gente está muito enganada — alerta o vendedor, que corrigiu quando um homem disse que o DVD que ele vendia era pirata.

Quem falou que é pirata? A gente copia e vende. É uma cópia, só uma cópia. E a gente vende por cinco, dez reais. E os empresários que vendem por muito, ficam ricos, pagam mal o funcionário, pagam mal o músico, o artista. Eles sim é que são os piratas — diz o vendedor com um tom de brincadeira.

— A gente só que quer comer um prato de comida, levar uma fralda, um remédio para os filhos, mais nada. O povo vive com pouco. E tem gente que chama de pilantra, vagabundo, que quer se dar bem, que não paga imposto. Eu moro na Vila Vintém e digo para você: conheço muito bandido que saiu da boca para virar camelô e muito camelô que entrou para a boca porque não aguentava mais tomar porrada de guarda trabalhando. Camelô é uma profissão tão digna quanto as outras — conclui.


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