Turquia: protestos continuam

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A destruição do Parque Gezi foi cancelada pela justiça da Turquia.  Mas as manifestações continuam radicalizadas por todo o país.

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Apesar da desocupacao da Praça Taksim, os manifestantes continuam mobilizados por todo o país

Em 01 de julho, a imprensa turca noticiou que a reforma do Parque Gezi estava judicialmente cancelada porque a população não foi consultado e que o plano violava a preservação da identidade da Praça Taksim e do Parque.

Os protestos, no entanto, continuam radicalizados. Os manifestantes continuam se organizando em torno da proteção aos militantes que estão sendo caçados pela polícia de Erdogan e aos que já estão presos e vão a julgamento. O que se espera após a decisão judicial é que a polícia seja retirada do Parque e que os manifestantes voltem a ocupar seus postos no local.

Outra vez na Praça

Em 25 de junho, os manifestantes voltaram a ocupar a Praça Taksim, em Istambul. Eles protestavam contra a libertação de um policial acusado de assassinar um manifestante e bradaram palavras de ordem como "Cobraremos a conta dos assassinos", "Por Ethem, por justiça!", e "Contra o fascismo, olho por olho".

No mesmo dia, dois mil saíram às ruas em Ankara, capital do país, para protestar pelo mesmo motivo. Barricadas foram erguidas e houve confronto policial. Mais uma vez, gás lacrimogêneo e jatos d’água foram usados pela polícia. Dezesseis pessoas foram presas.

No dia 22, milhares de manifestantes estiveram na Praça Taksim. Neste dia, em Colônia, Alemanha, onde vivem milhares de turcos, 80 mil protestaram contra o governo de Erdogan.

Os fóruns de organização, discussões e pequenos protestos têm sido cotidianos e se espalharam por vários locais públicos em todo o país. Mas os manifestantes têm procurado voltar à Praça, que é o marco da resistência do povo turco.

Dados divulgados pelo governo e publicados pelo jornal turco Milliyet, afirmam que 2,5 milhões de pessoas estariam envolvidas na resistência. Os protestos, segundo informou o governo, teriam sido registrados em 79 das 81 províncias do país. A polícia teria prendido 4.900 pessoas e só assume 4.600 feridos.

Como no Brasil

O primeiro-ministro turco, Recep Tayyip Erdogan, afirmou cinicamente, no dia 22 de junho, que o Brasil estaria sendo vítima da mesma conspiração internacional que assolou a Turquia, cujo objetivo seria desestabilizar o governo.

Mais repressão

A polícia está tentando aumentar o raio da repressão para evitar que os protestos tomem maiores proporções. Eles chegaram a afirmar que o Facebook estaria colaborando com a repressão. A rede social negou o envolvimento.

O Estado fascista turco está saindo à caça de todos que participaram ou apoiaram de alguma forma os protestos, principalmente nas cidades de Istambul – onde fica o Parque Gezi –, na capital Ankara e em Adana, Izmir e Eskisehir. A polícia tem incursionado pelas casas dos manifestantes.

Em Izmir, no dia 23, 48 pessoas foram presas. Treze devem ser levadas a julgamento. Em Eskisehir, seis pessoas foram presas "por apoiar a resistência Taksim" em 26 de junho.

No dia 21, em Istambul,18 membros do Partido Socialista dos Oprimidos (ESP), um pequeno partido que, segundo os jornais turcos, foi muito ativo nos protestos, foram presos. Eles estão sendo acusados de "terrorismo" e de "destruir bens públicos".  As sedes de dois jornais pertencentes ao partido foram fechadas.

Mas o Estado fascista turco está mesmo à caça dos militantes do Partido Comunista da Turquia / Marxista-Leninista (TKP/ML), segundo informações dos jornais turcos. O ministro do interior afirmou que no dia 23 de junho, uma operação foi realizada em Istambul e Ankara, prendendo 62 pessoas na primeira e 23 na segunda. Segundo ele, a operação vinha sendo planejada há um ano e as investigações apontam para uma alta participação do TKP/ML nos protestos.

Caça a jornalistas

Os jornalistas não escaparam da repressão durante e nem depois dos protestos em Gezi. Segundo a União dos Jornalistas turcos, que apresentou uma ação criminal contra a polícia e o Estado, 28 jornalistas ficaram feridos, 22 foram agredidos e 14 presos.

A denúncia também relata que a polícia estaria realizando batidas policiais na casa de jornalistas após o desalojo dos manifestantes. Dois jornalistas foram presos nestas ações e os arquivos de duas agências teriam sido levados pela polícia. Nesta ação, duas jornalistas teriam sido presas por 14h e submetidas a revistas de corpo nu.

Os números da repressão

O IHD – Associação de direitos humanos – lançou um relatório sobre as violações aos direitos do povo cometidos pelo Estado turco durante os protestos. O relatório engloba as ações ocorridas entre 27 de maio e 24 de junho e aponta: 7.681 feridos, cinco mortos e 2.841 presos*.

Além disso, o relatório  acusa a polícia de acrescentar produtos químicos à água utilizada nos jatos d’água, causando queimaduras nos manifestantes. Os médicos também estimam que mais de 150 mil bombas de gás lacrimogêneo foram  usadas.

O sindicato condenou a utilização de balas de borracha. O trabalhador Ethem Sarisuluk teve morte cerebral 12 dias após ser atingido na cabeça por uma delas. Além disso, o Estado turco reprimiu ferozmente os manifestantes que tentavam realizar o funeral público de Ethem, em 15 de junho. Eles foram atacados com jatos d’água e gás lacrimogêneo. Outro trabalhador também morreu em consequência de uma bala de borracha que acertou sua cabeça.

O relatório condenou a repressão a que jornalistas foram submetidos durante a cobertura dos protestos, exigiu o fim imediato da violência policial, a libertação de todos os presos políticos da revolta de Taksim e um Estado indepedente para o povo turco.

*Permaneciam presos até 2 de julho.

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"Todo lugar é Taksim"

Desde o início da ocupação do Parque Gezi, em 31 de maio, os manifestantes ocuparam o local por diversas vezes. E por diversas vezes foram reprimidos e desalojados pela polícia. E por outras diversas vezes, voltaram. E continuarão voltando, é o que avisam.

No dia 11, a polícia desalojou-os pela primeira vez. O desalojo foi momentâneo e horas depois, os manifestantes já começavam a retornar à Praça. Quatro dias depois, durante a noite, a polícia usou todo seu efetivo, gás lacrimogêneo, jatos d’água e balas de borracha para dispersá-los.

Após a retirada dos manifestantes, os confrontos se continuaram pelas ruas de Istambul e se repetiram em Ankara até o dia seguinte, 16 de junho. Eles ergueram barricadas e fizeram fogueiras pelas ruas. Os confrontos foram violentos e a polícia utilizou produtos químicos misturados à água dos jatos d’água, provocando queimaduras na população. Também há relatos de que a polícia teria invadido um hospital e um hotel para prender manifestantes feridos que haviam sido levados para estes locais.

Em  17 de junho, Erdogan, o primeiro-ministro turco, afirmou que o povo e seu partido haviam vencido os traidores e seus cúmplices estrangeiros. Mas os protestos se espalharam ainda mais pelo país. Mais de 500 pessoas foram presas entre os dias 16 e 17.

Ainda no dia 17, os sindicatos realizaram uma greve geral no país, que paralisou toda a vida pública turca. No dia 20, manifestantes que ocupavam praças e parques públicos em Izmir e Mersin foram atacados pela polícia e retirados do local.

Em 23 de junho, os manifestantes retomaram a Praça Taksim para fazer uma homenagem, colocando cravos, em memória dos cinco combatentes assassinados durante os protestos. 

Na madrugada, após horas de confrontos, a polícia conseguiu retomar o controle da praça, além de várias ruas adjacentes. Mais uma vez, a polícia usou canhões d’água, bombas de gás lacrimogêneo e balas de borracha para dispersar os manifestantes.

Durante os confrontos, um grupo de policiais foi surpreendido por manifestantes e clientes dos bares da região, que atiraram garrafas, copos e cadeiras nas forças repressivas do velho Estado. Os manifestantes gritavam "Isso é a apenas o começo" e "É resistindo que vamos triunfar".

Em outras cidades também houve protestos, repressão e resistência. Os manifestantes cantavam "Todo lugar é Taksim, todo lugar é resistência".


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