PM do Rio impõe o terror no Complexo da Maré

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Em 2 de julho, milhares de pessoas fecharam a Avenida Brasil em repúdio aos assassinatos cometidos pelo Bope na Maré

Em 24 de junho, cerca de mil pessoas realizaram um protesto que teve como ponto de partida a Praça das Nações, no tradicional bairro de Bonsucesso, no Rio de Janeiro. A passeata ocorreu tranquilamente e chegou a bloquear uma das pistas da Avenida Brasil, a principal via expressa da cidade.

A manifestação já se dispersava quando um grupo de pessoas começou a roubar pedestres, do outro lado da avenida. Claro, o monopólio dos meios de comunicação não titubeou em acusar os supostos ladrões como parte da manifestação.

A Tropa de Choque que já estava mobilizada para a manifestação e policiais do Batalhão da Maré começaram a perseguir o grupo, que teria se refugiado na favela Nova Holanda – uma das 14 favelas do Complexo da Maré.

Seguiu-se um tiroteio no qual um sargento do Bope foi baleado, vindo a falecer a caminho do hospital. Eraldo Santos da Silva, de 35 anos, também morreu atingido por um tiro.

Às 23h, PMs iniciaram uma operação na favela que durou até a tarde do dia seguinte e deixou nove pessoas mortas e seis moradores feridos. Segundo o comando da PM, todos os mortos eram traficantes que trocaram tiros com a PM.

Posteriormente, devido à pressão popular e manifestações que se seguiram na própria Maré, a PM admitiu que teriam morrido "pelo menos" três inocentes na ação. Porém, o critério usado para "atestar" que os demais mortos eram criminosos é o fato de eles terem passagem pela polícia, ou seja, prova nenhuma.

Segundo relatos de moradores, a grande parte das vítimas eram trabalhadores e, os que não eram, foram executados a sangue frio pela polícia. Além disso, choveram denúncias de que PMs invadiram casas arrombando a porta, agrediram, torturaram e humilharam trabalhadores durante a operação.

Foram mortos Ademir da Silva Lima, de 29 anos, André Gomes de Souza Júnior, de 16 anos, Carlos Eduardo Silva Pinto, de 23 anos, Ednelson dos Santos, de 42 anos, Eraldo Santos da Silva, de 35 anos, Fabrício Souza Gomes, de 26 anos, Jonathan Farias da Silva, de 16 anos, José Everton Silva de Oliveira, de 21 anos, Renato Alexandre Mello da Silva, de 39 anos e Roberto Alves Rodrigues, 23 anos.

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Além disso, movimentos e ONGs do Complexo da Maré denunciaram que o número de mortos é muito maior do que a contagem oficial. Segundo a estudante Shyrlei Rozendo, de 29 anos, nascida e criada na Maré e integrante da ONG Redes de Desenvolvimento da Maré, há rumores de que o total de vítimas fatais chegaria a 13.

Há famílias procurando mortos. Ontem [25 de junho] fazíamos uma vigília quando uma mulher se aproximou e disse que estava procurando o filho dela. Ele não está entre os mortos oficiais. Os policiais não respeitam os moradores. Falta planejamento nas ações. Estava na comunidade nessa operação do BOPE e a sensação que tive foi de que os policiais estavam sem rumo, atirando para todos os lados. Eles não deram apenas tiros. Deram facadas também. Muitos dos mortos tinham marcas — denuncia.

Após a operação, representantes do Núcleo de Direitos Humanos da Defensoria Pública e do Conselho de Defesa dos Direitos Humanos do estado estiveram no local acompanhando a perícia, que pouco investigou já que, como de praxe, PMs removeram corpos, cápsulas e outras provas.

muitas marcas de bala e sangue, projéteis pelo chão e portas arrebentadas. Com certeza, foram mortos em casa. Ouvi dizer que as vítimas também levaram golpes de faca, mas precisamos esperar o laudo do IML. As vítimas foram levadas para o Hospital de Bonsucesso – afirmou o defensor Henrique Guelber.

O diretor do Observatório de Favelas, Jaison de Souza e Silva, disse que policiais jogaram uma granada dentro da sede da organização quando moradores que se abrigaram do tiroteio tentavam deixar o local.

Virou um inferno. O tráfico acabou de fechar o comércio. Está um absurdo, a polícia está entrando nas casas. Atacaram o Observatório quando as pessoas tentaram sair do local — diz.

Um dos primeiros feridos na operação do BOPE, o motorista de van Cláudio Duarte Rodrigues, de 41 anos, foi levado para o Hospital Federal de Bonsucesso (HFB). Ele foi atingido na perna quando voltava para casa do trabalho no final da noite do dia 24. A esposa de Cláudio, Nilzete Neves Rodrigues, 41, denunciou o terror empregado na favela por policiais durante a madrugada e o sofrimento de seu marido com o ferimento a bala que lhe rompeu o fêmur da perna esquerda.

— Meu marido foi atendido no HFB [Hospital Federal de Bonsucesso], mas foi liberado mesmo com a bala alojada. Ele está em casa morrendo de dor. Para que isso tudo, só porque morreu um do Bope? Quantos morreram aqui dentro da favela, quantos mais vão morrer? Se é bandido, leva preso, não faz covardia, que é o que eles estão fazendo — denuncia.

A ação que se estendeu por toda a madrugada e foi comandada pelo BOPE, mas teve o apoio da Força Nacional de Segurança, enviada ao Rio por Dilma Roussef para reforçar o policiamento na farra da Fifa durante a Copa das Confederações. A operação deixou grande parte da favela sem luz e vários moradores passaram a noite nos acessos à Nova Holanda sem ter como chegar em casa.

Uma das vítimas fatais foi o garçom Eraldo Santos da Silva, de 35 anos. Quando esteve no local, nossa reportagem conversou com uma prima de Eraldo que preferiu não se identificar. Ela disse que o trabalhador foi morto covardemente por policiais enquanto trabalhava na favela vizinha à Nova Holanda.

O Eraldo sempre foi uma ótima pessoa. Nós sempre ficávamos preocupados porque ele voltava muito tarde do trabalho. Apesar de ser aqui no Parque União [outra favela do Complexo da Maré] é uma andada perigosa para se fazer a noite. Bala perdida é uma coisa, mas nós não imaginávamos que ele morreria na covardia, no trabalho, atrás do balcão. Como pode a polícia fazer uma coisa dessas, atirar em um trabalhador na nuca, pelas costas e simplesmente ficar por isso mesmo. Tem gente aqui procurando filho desaparecido. E a autoridade na televisão dizendo que vai investigar, mas que a polícia foi atacada. E o que o morador tem a ver com isso? Problema de traficante com polícia é o seguinte: pega e prende. Mas sempre tem morador no meio e eles não estão nem aí. Parece que, para eles, favelado tem tudo que morrer, seja bandido ou trabalhador. Esse povo não respeita ninguém. Batem em mulher, velho, criança. Já vi até bater em deficiente. Eles são ruins mesmo — diz.

Eraldo foi enterrado no Cemitério da Cacuia no dia 26. Outras vítimas também foram enterradas no local, entre elas, Jonatha Farias da Silva, de 16 anos. A tia do jovem, Ana Valéria Silva, disse que ele trabalhava como engraxate e estava passando pela favela vizinha, a Baixa do Sapateiro, quando foi atingido por um disparo de PMs que invadiam o Complexo da Maré no mesmo momento.

Depois de morto botaram uma arma na mão dele para incriminar. Nem antecedentes criminais esse menino tinha — disse

No dia seguinte à chacina, integrantes da Rede de Comunidades e Movimentos Contra a Violência estenderam uma faixa em um dos acessos à Nova Holanda com os dizeres "A polícia que reprime na avenida é a mesma que mata na favela". A organização divulgou nota na internet repudiando a covarde incursão da PM e da Força Nacional no Complexo da Maré.

"Os fatos ocorridos na comunidade Nova Holanda são tragicamente comuns em diversas favelas da cidade do Rio de Janeiro. Sabemos muito bem qual é a sua cor e sua dor. Precisamos dizer: Nunca mais! Não admitimos ocupações policiais desastrosas, autoritárias e brutais em nossas comunidades! Não é mais aceitável a política militarizada da operação do estado nos territórios populares como se esses locais fossem moradas de pessoas sem direitos!"

No dia 2 de julho, moradores da Maré realizaram uma manifestação que fechou a pista lateral da Avenida Brasil no sentido Baixada Fluminense. Manifestantes fizeram uma encenação com nove pessoas deitadas no chão cobertas com um plástico preto simbolizando os nove (ou mais) mortos na operação das tropas de repressão do velho Estado. Até o fechamento dessa edição os laudos cadavéricos da vítimas não haviam sido concluídos e nenhum PM ou agente da Força Nacional foi indiciado pelas mortes na ação policial.


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