Quem começou a Baderna?

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Marietta Baderna, dançarina francesa que se encantou com os ritmos
e o povo brasileiro e ousou questionar a cultura imperial reacionária

O dicionário Houaiss designa baderna como "situação em que reina a desordem, confusão, bagunça; divertimento noturno, boemia, noitada; conflito entre muitas pessoas; briga, rolo" e cita Marietta Baderna, uma bailarina italiana que provocou frisson durante sua passagem pelo Brasil em meados do século XIX.

"Baderna" foi ao lado de "vândalos" um dos termos mais utilizados pelo monopólio das comunicações, reacionários e oportunistas para atacar a explosão de revolta das massas nos últimos meses de junho e julho. Tentado pelo artigo de Felipe Deveza sobre os Vândalos, publicado na última edição de AND, decidi pesquisar e escrever algo sobre a origem desse termo tão utilizado pelo monopólio das comunicações e gerentes de plantão do velho Estado.

Marietta Maria Baderna nasceu em Castel San Giovanni, Parma, em 5 de julho de 1828, e estreou como bailarina profissional em 1843. Jovem talento, tornou-se bastante conhecida na Itália e fez turnê em vários países da Europa. Em 1848, foi apresentada como "prima ballerina assoluta" (primeira bailarina absoluta) e destacava-se entre as mais importantes bailarinas de sua geração.

Há relatos de que seu pai, o cirurgião republicano Antonio Baderna, grande entusiasta do movimento democrático que estremeceu os pilares da velha Europa em 1848, com a derrota desse movimento na Itália, teria convencido Marietta a emigrar com ele para o Brasil.

Marietta estreou em terras brasileiras no dia 29 de setembro de 1849, no balé "Il Ballo delle Fate" (A Dança das Fadas). Mas foi do contato com a dança das negras e com o canto de resistência dos escravos que Marietta Baderna fez-se uma bailarina do povo. Ela se encantou com os ritmos africanos e com a ginga das negras e mulatas e incorporou os passos do lundu, da cachuca e da umbigada, danças de passos fortes e sensuais.

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Dançava nos salões da alta sociedade, mas se realizava nas ruas, provocando aglomerações e causando furor. Seu público e inspiração eram trabalhadores, homens e mulheres do povo que bebiam, riam, falavam alto e maculavam a velha sociedade que se espelhava nas decadentes cortes europeias. Em meio ao povo, Marietta passou a ser conhecida como Maria Baderna e seu público passou a ser chamado de "badernistas" ou "baderneiros".

Algumas passagens da biografia de Marietta contam que um empresário deixou de pagar os artistas da casa em que se apresentavam sem dar explicações. Ela e suas colegas entraram em greve e não houve apresentação. Sempre que aparecia, era aclamada pelo povo que gritava seu nome e batia com os pés no chão.

Atacada pela crítica conservadora, sem contrato para espetáculos, Marietta foi para a Recife e fez apresentações de lundu no teatro Santa Isabel. Latifundiários e empresários tentaram a todo custo expulsá-la. Estudantes e trabalhadores elegeram-na símbolo da nascente brasilidade.

Os jornais das classes dominantes, que no princípio adotaram o termo "baderna" como sinônimo de elegância, passaram a utilizá-lo para designar arruaça e libertinagem.

Marietta Baderna foi uma rebelde, que desafiou o conservadorismo e os reacionários de sua época. Foi uma dançarina das calçadas, da areia das praias, uma artista dos negros, dos mulatos, dos pobres. Uma bailarina do lundu.

Conta-se que ela faleceu em 1870, mas não há muitos detalhes. O que se sabe é que hoje, nas ruas do Rio de Janeiro, de Porto Alegre e Vitória, de Manaus e Belo Horizonte, de São Paulo, Porto Velho, Recife, em todo o Brasil, Marietta Baderna vive e dança seu lundu de rosto coberto atraindo multidões: milhares, milhões. E segue aterrorizando as classes dominantes que, mais uma vez, apavoradas e raivosas, sibilam seu nome: Baderna!


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