"Ei, polícia, cadê o Amarildo?"

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Durante os protestos que tomaram as ruas do Rio de Janeiro no último mês, uma palavra de ordem ressoou uníssona: "Ei, polícia, cadê o Amarildo?". Os manifestantes referem-se ao morador da favela da Rocinha Amarildo Souza Lima, de 43 anos, operário da construção civil desaparecido depois de ser detido por PMs da Unidade de Polícia Pacificadora. Segundo moradores da Rocinha, Amarildo constantemente se desentendia com PMs, que todas as noites insistiam em revistá-lo quando voltava para casa. Parentes do trabalhador já o procuraram em hospitais, no IML e em postos de saúde da região. Entretanto, ninguém tem notícias do operário desde o seu desaparecimento.

— Não acredito mais que vou encontrar ele com vida. Ele está desaparecido há vários dias. Foi levado da porta de casa quando estava chegando de uma pescaria. Já procuramos em todos os lugares, em São Gonçalo e em Niterói [na Região Metropolitana do Rio]. Não sofremos nenhuma ameaça, mas tenho medo, muito medo de que depois que a poeira baixar a polícia faça algo comigo ou com minha família. A Rocinha é muito grande, mas todo mundo conhecia o meu marido, que foi nascido e criado ali por 43 anos. Meus filhos não querem sair da Rocinha, mas tenho medo de que entrem na minha casa e me matem ou matem alguém da família — diz a esposa de Amarildo, Elizabeth Gomes da Silva.

Nos dias 15 e 17 de julho, moradores do morro da Rocinha fecharam a Auto Estrada Lagoa-Barra para protestar exigindo o paradeiro de Amarildo. Entretanto, porta-vozes do Estado não se pronunciaram sobre o caso. Aos poucos, o assunto passou a ser debatido nas plenárias de organização dos protestos que têm tomado as ruas da cidade nos últimos meses. No dia em que o papa Bergoglio chegou ao Rio, milhares de pessoas protestaram na zona sul da cidade e enfrentaram a polícia. Entre as palavras de ordem do movimento estava a exigência pelo paradeiro do operário Amarildo. Manifestantes projetaram na parede de um dos prédios de Laranjeiras a frase "Ei, polícia, cadê o Amarildo?", causando alvoroço nas forças de repressão.

— Segundo eles, o policial que estava na diligência conhecia o desaparecido e, por alguns momentos, eles estiveram frente a frente, como na prisão de um dos filhos em flagrante — diz o delegado Orlando Zacone, titular da delegacia que investiga o caso.

— Já fizeram com outras pessoas e ninguém abriu a boca. Mas eu fui atrás do meu marido. Depois que a UPP chegou na favela, nós não temos mais tranqüilidade. É sempre uma preocupação, se chegou em casa tranqüilo, se não foi humilhado pela PM. São uns rapazes [PMs] jovens com muita raiva no coração. Parece que eles só querem fazer maldade, que pensam que favelado é lixo. São jovens sem educação e sem humanidade. Como pode, um policial, que representa o Estado, sair da sua casa com o seu marido dizendo que está levando ele para uma averiguação, uma pessoa que todos sabem que é trabalhador, que tem família, e desaparecer com a pessoa? Isso é inadmissível. Ninguém faz isso em Ipanema, no Leblon [bairros ricos da zona sul do Rio]. Mas na favela, eles podem tudo, a polícia pode fazer o que quiser que ninguém diz nada — reclama.

Amarildo desapareceu no dia 14 de julho e os moradores da favela da Rocinha dizem que continuarão protestando até que apareça o corpo do trabalhador. No dia 25, familiares de Amarildo foram recebidos pelo gerente estadual Sergio Cabral que, desesperado por conta dos protestos contra ele, prometeu um desfecho para o caso. No entanto, o número de "Amarildos" exterminados por esse Estado corrupto e falido nos últimos anos não deixa dúvidas sobre o caráter reacionário dos gerenciamentos de turno diante da crescente rebelião das massas.

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