Luiz Bonfim: operário, grevista, preso político

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Incendio dos alojamentos da Montcalm durante revolta operária

Luiz Carlos Bonfim Filho, ajudante de montagem, 24 anos, natural de Aracaju-SE, operário da Montcalm - empresa terceirizada transnacional da mineração Anglo American em Conceição do Mato Dentro, região central de Minas Gerais - é preso político do velho e reacionário Estado Brasileiro.

Conforme noticiamos na última edição de AND, operários da Montcalm em greve se revoltaram em três de julho contra as péssimas condições de trabalho e baixos salários, foram brutalmente reprimidos por tropas da Polícia Militar e incendiaram galpões que serviam de alojamento. Há denúncias de que pelo menos três deles estejam presos incomunicáveis e que nem mesmo os advogados têm acesso a eles.

Através de insistente busca, o advogado Elcio Pacheco, membro da Rede Nacional de Advogados Populares e da Comissão Pastoral da Terra de MG encontrou um desses operários: Luiz Bonfim, detido no Centro de Remanejamento do Sistema Prisional - Ceresp de Lagoa Santa, Região Metropolitana de Belo Horizonte.

AND teve acesso exclusivo ao processo de Luiz Bonfim e a uma série de relatórios da Polícia Civil de Conceição do Mato Dentro com os registros da "prisão em flagrante delito". Tivemos também acesso a documentos do Tribunal de Justiça de MG, depoimentos de testemunhas e outros documentos do processo que avançava celeremente enquanto Luiz Bonfim não dispunha sequer de um defensor.

Em seu depoimento, Luiz Carlos Bonfim "nega veemente o fato de ter ateado fogo em qualquer dos blocos dos alojamentos da empresa MONTCALM (...) assume, entretanto, que colocou uma pedra e um pedaço de pau na frente dos ônibus, na tentativa de impedir os trabalhadores de irem para o serviço. Que dois outros funcionários da empresa ajudaram (...), mas não sabe o nome deles. Perguntado se sabe informar quem teria ateado fogo nos alojamentos da empresa MONTCALM, (...) respondeu que não sabe informar, voltando a negar que tenha participado. Perguntado se estaria gritando, incitando outros trabalhadores a atearam fogo nos alojamentos da empresa, respondeu que não. Perguntado se teria jogado pedras contra os policiais respondeu que não. Perguntado se teria tentado fugir após incêndio no ônibus da empresa MONTCALM, respondeu "eu foi preso dentro do ônibus", mas ressalta que não estava fugindo, aduzindo que entrou no veiculo para vir para esta cidade para tentar se hospedar".

No Auto de Prisão em Flagrante Delito Nº234932, Folha 39, Cartório A, feito pela 15ª Delegacia de Polícia Civil/Conceição do Mato Dentro, as "vítimas" do incêndio nos alojamentos são "O Estado" e "A Sociedade". O policial militar ativo matrícula nº 1875435 que comandou a guarnição da PM que se deslocou para o local do incêndio em três de julho, por volta das 17h, declarou ter sido acionado "via contato telefônico" sobre o fato que "diversos trabalhadores da empresa MONTCALM estariam impedindo o deslocamento dos ônibus de transporte para a área de mineração". Ainda assim, em seu depoimento ele relata que"apenas um estava incitando os demais funcionários".

O bloqueio da passagem do ônibus para a área de mineração ocorreu após o horário do almoço no dia três de julho, após o anúncio de um acordo realizado entre o Sindicato dos Trabalhadores em Montagens Industriais (Sintramonti-MG) e a Montcalm, não aceito por vários trabalhadores, que então iniciaram o protesto. O incêndio ocorreu após a repressão policial contra os manifestantes.

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Francisco Firmino Neto, gerente da Montcalm, ataca os trabalhadores insatisfeitos tachando-os de"grupo radical que aceita a decisão da maioria".

Outro depoente, Daniel Franca Monterosso, engenheiro de campo da MONTACALM, detalha que "os trabalhadores de montagem industrial fizeram uma manifestação solicitando melhorias nos alojamentos, aumento de salário, diminuição do período entre folgas e ainda aumento no valor do vale-alimentação", ele relata que quando foi anunciado o acordo com o Sintramonti"um trabalhador bloqueou o ônibus e outros trabalhadores aderiram a sua posição. A PM prendeu o primeiro trabalhador e vários trabalhadores se exaltaram, foi quando começou o incêndio".

Depoimento de Anderson Mario Santos do Nascimento, trabalhador da Montcalm, colhido na 2ª delegacia regional Guanhães em oito de julho, revela que "A maioria dos trabalhadores não queria voltar a trabalhar a partir das 13h" no dia três de julho. Anderson "não entrou no ônibus, viu que vários funcionários não estavam satisfeitos com a decisão da assembleia" e que "vários (trabalhadores) passaram a bloquear a passagem dos ônibus impedindo a saída para a mineradora.

Viu vários funcionários gritando palavras de ordem".

Anderson afirmou em seu depoimento que "conhece Luiz Carlos Bonfim Filho de longa data" e que o operário foi usado como "bode expiatório".

Anderson ainda destacou que Luiz Bonfim estava "incentivando os funcionários a reivindicar o direito sobre o que não foi aceito em assembleia", diz que "viu o momento que Luiz gritava contra os policiais, mas não presenciei o momento que passaram a jogar pedras. Vi apenas Luiz Carlos gritando por seus direitos, não o vi ateando fogo ou depredando o local".

Em 12 de agosto, uma comissão do Sindicato dos Trabalhadores da Construção de Belo Horizonte e Região (Marreta) foi até o Ceresp de Lagoa Santa – MG visitar Luiz Bonfim. Ele disse que estava sem contato com a família e pediu que colegas de trabalho fizessem contato para acalmar seus familiares.

Luiz Bonfim também relatou que, após o incêndio nos alojamentos, não havendo onde ficar, iria deslocar-se para Conceição do Mato Dentro para procurar hospedagem. Os policiais militares entraram no ônibus onde ele estava procurando "pelo neguinho", o pegaram e prenderam de forma truculenta.

Luiz Bonfim agradeceu a visita e disse que "não saberia o que seria dele se não tivesse essa inciativa do Marreta".

Elcio Pacheco relatou à reportagem de AND ter recebido ainda um documento registrado no cartório do 1º Ofício de Notas de Maruim (SE), assinado pelos mecânicos armadores José Romildo dos Santos, Davison Thiago Vasconcelos Vieira, Clésio Luiz Santos e Plácido Bonfim de Jesus, todos colegas de trabalho de Luiz Bonfim, declarando que no momento em que acontecia o incêndio os declarantes estavam do lado de fora dos alojamentos junto com Luiz.

Até o fechamento dessa edição de AND (12 de agosto) o Marreta estava organizando uma comissão para acompanhar o advogado Elcio Pacheco até Conceição do Mato Dentro para averiguar in loco a situação dos operários da Anglo American, levantar a situação de outros possíveis operários grevistas presos políticos e impetrar o Habeas Corpus epedido de liberdade provisória para a libertação de Luiz Bonfim.

*Grifos da redação de AND.

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