"Fora Cabral e a farsa eleitoral"

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O fim da violência policial é uma das reivindicações dos protestos.

Enquanto o monopólio dos meios de comunicação e os gerenciamentos de turno usam todos os seus artifícios para dar fim à onda de protestos que incendiou o país nos meses de junho e julho, no Rio de Janeiro as massas continuaram ocupando as ruas em agosto e mostram que a rebelião está longe de findar. Além dos protestos que têm agitado a cidade todas as semanas, manifestantes ocuparam as câmaras legislativas do estado e do município, o Palácio Guanabara e até mesmo o acesso à rua onde mora o gerente estadual Sérgio Cabral, principal alvo dos protestos.

A polícia assassina tenta de tudo para reprimir os protestos. Agora, PMs em grupos andam entre os manifestantes revistando as pessoas sem nenhum critério, fazendo com que o protesto tenha que ser interrompido a todo instante e esquentando os ânimos das massas. Os grupos de policiais são liderados pelo tenente-coronel Mauro Andrade, do Grupamento Especial de Policiamento nos Estádios (Gepe). O monopólio dos meios de comunicação o apelidaram de coronel gente-boa, porque vive sorrindo e fazendo sinal de positivo para as câmeras. No entanto, as lentes de AND já o flagraram com uma pistola de choqueperseguindo um manifestante. Outro cinegrafista flagrou o figurão à paisana no meio do protesto durante a recepção do Papa no Palácio Guanabara.

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Agosto de protestos

Na primeira quinzena de agosto, três manifestações se destacaram pela combatividade. Na noite de oito de agosto, milhares tomaram as ruas do centro do Rio pelo "Fora Cabral!", a libertação dos presos políticos das jornadas de junho e julho, contra a carestia, a Copa, as Olimpíadas e pela desmilitarização da polícia. Enquanto o ato percorria as ruas do centro, manifestantes ocupavam a Câmara de Vereadores e a Assembléia Legislativa. Nas escadarias da Alerj, mais manifestantes vibraram com o anúncio das greves dos professores das redes estadual e municipal do Rio de Janeiro. Os ocupantes foram expulsos pela polícia legislativa e seguiram até a câmara de vereadores.

No trajeto até a câmara, PMs sob o comando do coronel Mauro revistaram as pessoas indiscriminadamente. Muitas tiveram que explicar porque carregavam coisas como incensos, desodorante e pedra-pome em suas bolsas. Um manifestante chegou a ser detido por "porte de estilingue".

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Manifestantes enfrentam a repressão nas manifestações.

Na porta da câmara, o clima ficou tenso depois que a PM proibiu a entrada de suprimentos básicos para as pessoas que estavam dentro do prédio. PMs atiraram spray de pimenta contra a massa, que respondeu com bombas, pedras, mesas e cadeiras.

Nós estamos aqui porque acreditamos que essa casa [Câmara de Vereadores] não representa os interesses da população. A Alerj também é um antro de corrupção. As máfias dos transportes, das milícias e muitas outras estão melhor representadas por esses deputados e vereadores do que o povo. Nós vamos mostrar nas ruas que esse governador é nosso inimigo e que enquanto ele e sua política de extermínio não desaparecerem nós continuaremos protestando — disse um manifestante de um grupo de cerca de cem pessoas que permanece (até o fechamento desta edição) no acesso à câmara sustentando a ocupação e exigindo, entre outras questões, que a CPI do ônibus não seja presidida por vereadores do mesmo partido do governador, o PMDB, como foi definido inicialmente.

Já em 12 de agosto, professores em greve ocuparam o Palácio Guanabara, sede do governo do estado, depois de uma reunião sem consenso com representantes do governo. A PM expulsou os profissionais da educação do local com golpes de cassetete e spray de pimenta. Do lado de fora, apoiadores do movimento, estudantes e trabalhadores travaram uma dura batalha com as tropas de repressão. Bombas de gás lacrimogêneo e tiros de bala de borracha foram disparados pela PM contra os manifestantes, que responderam com pedras, morteiros e rojões.

Um comandante da PM disparava olhares para os manifestantes e, o tempo todo, dava risadas enquanto professores eram chutados pelos cães de guarda do Palácio Guanabara. Não demorou muito até que uma pedra portuguesa certeira voasse em direção ao oficial, atingido em cheio na cabeça. A tropa de choque chegou a dispersar os manifestantes, que não tardaram a voltar ao Palácio gritando "O professor é meu amigo! Mexeu com ele, mexeu comigo!". Foi a senha para que o confronto recomeçasse. Dois manifestantes foram presos e dezessete pessoas ficaram feridas, entre elas o jornalista Marcos De Sordi, do jornal independente Zona de Conflito, atingido na perna por uma bomba de feito moral atirada pela polícia.

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No dia 14 de agosto, uma nova manifestação terminou em confronto entre a tropa de choque e os manifestantes nas proximidades do Palácio Guanabara. Os relatos enviados à nossa redação por leitores dão conta de inúmeros abusos cometidos por policiais. Pelo menos 29 pessoas foram presas. Um manifestante e um socorrista ficaram feridos por estilhaços de bomba. Mesmo assim, os jovens não se intimidaram com a repressão e atacaram agências bancárias e grandes lojas. Quando os manifestantes se dirigiram para a 9ª DP no bairro do Catete para prestar solidariedade aos presos, a PM os atacou novamente com bombas e balas de borracha. O ataque da PM também atingiu a delegacia gerando atrito entre soldados do choque e da CORE da Polícia Civil.

Nesse mesmo dia ocorreram mais duas manifestações. Uma dos professores da rede pública na parte da manhã que contou com a participação de 15 mil pessoas, e outra à noite, na comunidade da Rocinha, exigindo o paradeiro do pedreiro Amarildo, que completou um mês de desaparecido.

Novos protestos estão previstos para acontecer na cidade no final de agosto e durante todo o mês de setembro. Manifestantes anunciam novas ações a todo o momento pelas redes sociais. Nem mesmo a página do PMDB na internet escapou dos hackers do grupo Anonymous. Durante dias o site teve as suas informações substituídas por uma mensagem com o título "Sérgio Cabral, cadê o Amarildo?".

No dia seguinte à manifestação do dia 12, o governador disse à imprensa que "as pessoas ficam espantadas e impactadas com grupos que já chegam com rojões, com coquetel molotov, encapuzados, numa ação que não tem nada de democrática". Na verdade, os únicos que se espantam são os inimigos do povo, como o gerente Sérgio Cabral e seus aliados, Paes e Dilma. O resto das massas, certamente, se sente muito bem representada.

Frente Independente Popular

O Rio vive meses de intensas mobilizações populares e, sentindo a necessidade de romper com os partidos oportunistas e eleitoreiros que burocratizam e criam empecilhos para o avanço das lutas, setores combativos e independentes criaram a Frente Independente Popular. Composta por diversas organizações, a FIP tem como sua principal palavra de ordem o ‘Fora Cabral e a farsa eleitoral!’ e sua primeira plenária realizada na UERJ lotou o auditório do nono andar. Um novo salto de qualidade nas manifestações do Rio e um duro golpe contra o oportunismo.

Os vídeos produzidos por AND das manifestações no Rio podem ser vistos no blog da redação do jornal: anovademocracia.com.br/blog. Ou no nosso canal do You Tube: www.youtube.com/user/patrickgranja. 


Mais uma vítima fatal

Em 31 de julho, todos que acompanham as intensas mobilizações populares no Rio de Janeiro receberam a triste notícia do falecimento de Fernando Silva, 34 anos, em decorrência de problema respiratório que teria se agravado com a inalação de gás lacrimogêneo na manifestação de 20 de junho, quando ocorreu um dos maiores enfrentamentos entre a população e as tropas da repressão.

Fernando, que era anão e um dos fundadores do Cinema de Guerrilha da Baixada, estava internado no Hospital Albert Sabin quando gravou um vídeo com uma declaração que fez bastante sucesso nas redes sociais. Confiante na luta popular, ele disse: "Fui lá protestar e aquele Cabral com a polícia esculachou a gente. Fui fazer um protesto pacífico e eles jogaram bomba, jogaram pimenta e passei muito mal, tive que ser internado. Mas eu tenho plano de saúde, mas se eu não tivesse plano de saúde eu não estaria aqui nesse quarto, estaria lá morto, fudido, porque em hospital público nada funciona. Eu, graças a Deus, tenho plano de saúde, mas mesmo tendo plano de saúde eu vou lutar pelos nossos direitos, uma saúde melhor... Quando eu sair daqui, eu vou voltar e vou lá na porta do Cabral falar com ele pessoalmente e cobrar nossos direitos: direito de saúde, de educação, direito de viver..."

Mas, infelizmente, Fernandão não resistiu. Diversas homenagens foram rendidas e seu exemplo seguramente continua a inspirar muitos jovens a continuarem na luta.

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