Cadê o Amarildo?

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Em todas as manifestações no Rio, cartazes e palavras de ordem cobraram o paradeiro de Amarildo.

No Rio de Janeiro, policiais civis e moradores do Morro da Rocinha seguem investigando o paradeiro do operário da construção, Amarildo Dias de Souza, de 43 anos, conhecido como "Boi", desaparecido desde 14 de julho, quando foi levado por policiais militares de sua casa para a sede da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) para uma suposta averiguação. Enquanto isso, a PM do gerenciamento Cabral continua afirmando que o trabalhador foi interrogado e liberado às 19:30h. No entanto, o delegado Orlando Zaccone, da 15ª DP, diz que dezenas de câmeras de segurança da Rocinha foram analisadas e pessoas foram interrogadas, mas não foi encontrado nenhum indício de que Amarildo tenha deixado o prédio da UPP.

No 1º de agosto, moradores da Rocinha, na zona Sul do Rio de Janeiro, mais uma vez tomaram as ruas para protestar por conta do desaparecimento do operário. O movimento contou com apoio de vários outros lutadores do povo que ocuparam as ruas para cobrar respostas e exigir saída de Sérgio Cabral. Os manifestantes caminharam pelo túnel Zuzu Angel e protestaram no entorno da casa do gerente estadual no Leblon. No dia anterior, nossa equipe esteve na casa da mãe de criação de Amarildo, Dona Jurema. Ela quebrou o silêncio e deu uma entrevista exclusiva para a reportagem de AND.

Quando o corpo dele aparecer, eu vou ao enterro dele e se tiver repórter eu vou dizer tudo. Vou dizer que eu estou sem palavras. Enquanto não acham o corpo do meu menino, eu fico quietinha dentro de casa. Mas a pergunta na minha cabeça é sempre a mesma: porque não levaram ele para a delegacia? Eles [PMs da UPP] levam tanta gente para a delegacia para averiguação. Porque não levaram o meu menino. Ele falava repetidamente que não era traficante. A delegacia que tinha que vir buscar ele. Eles já estavam com maldade porque o sargento disse que ia levar ele lá para cima, para a base e que ninguém podia subir junto. Porque a família dele não pôde subir junto. Só que eu e a irmã dele não soubemos na hora que ele foi levado. O filhinho dele veio aqui e disse: "a polícia levou o meu pai". A família inteira ficou desmoronada. A irmã dele desceu para a base, onde um guarda disse que ele já havia sido liberado. Como ele foi liberado, se não veio para casa? — pergunta a aposentada.

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Ele não gostava de polícia. Eu perguntava: "Boi, porque você não gosta de PM?" e ele dizia "Ah, esses homens ficam apalpando a gente. Eu não gosto que homem me apalpe. Basta me pedir os documentos que eu vou mostrar. Se quiser que eu tiro a roupa, eu tiro". Ele era uma pessoa muito engraçada e só o corpo dele aparecendo para amenizar um pouco essa dor que nós estamos sentindo. Mas isso só vai amenizar, porque nada vai apagar a dor por causa da crueldade que fizeram com o nosso Amarildo. Nós só queremos pensar "Bom, fizeram essa covardia com ele, mas nós o enterramos dignamente". Só assim. Porque do jeito que está, nem dormir nós conseguimos mais. Passamos noite acordados esperando uma notícia, qualquer que seja. A gente fica imaginando que alguém vai bater na porta e dizer onde ele está, ou alguém com a notícia de que ele está em um hospital longe daqui — lamenta Dona Jurema.

Nós já fomos a todos os lugares, mas ele não está em lugar nenhum. Estivemos em todos os cantos onde ele tinha família, São João, Itaboraí, mas ninguém tem notícias dele. Ele não era de sumir assim. Na verdade, isso nunca aconteceu. A gente sabe, no fundo, no fundo, que ele está morto e que foi a polícia que o matou, mas queríamos pelo menos enterrá-lo como trabalhador e pai de família que ele era. Vou ficar com essa dor eternamente. E saiba que isso não é uma coisa que acontece só comigo não. Acontece com várias pessoas. A gente vê no rádio e na televisão todos os dias. Mas a gente nunca imagina que isso vá acontecer com um filho nosso. Eu não sabia a dor que era isso. Já perdi irmão, pai, mãe, vários parentes. Mas sempre porque deus quis levar, sabe? Nunca assim na brutalidade. É muito doloroso — protesta.

A coisa que o Amarildo mais amava eram os filhos. Ele só ensinava coisa boa para os meninos. Ensinava a ser trabalhador, a não correr do serviço e a praticar o bem. Essa pequena dele tem hora que ela para e diz "Ah mamãe, vamos descer lá para casa. Meu pai está lá. Eu quero ver meu pai". Por causa disso e das ameaças que a Beth [viúva de Amarildo] vem sofrendo, nós trouxemos todos aqui para casa. Afinal de contas, onde comem dez, comem doze, não é verdade? Essa união é o que mantém a gente de pé, porque a maioria de nós ficou sem chão. Todos estamos revoltados porque ele não merecia isso. Meu peito dói muito quando eu falo disso. É muita revolta — diz.

Eu não agüento mais falar. Chega. Eu vou continuar fazendo o almoço das crianças. Papai do céu abençoe você... — concluiu Dona Jurema, tentando disfarçar as lágrimas.

No fechamento desta edição de AND, 14 de agosto, uma nova manifestação na Rocinha lembrou um mês do desaparecimento de Amarildo.

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