Egito: exército espalha o terror

A- A A+
Pin It
http://www.anovademocracia.com.br/116/18a.jpg
Necrotério improvisado em Nasr.

O dia 14 de agosto de 2013 ficará marcado para sempre na memória do povo do Egito como um dos mais sangrentos da história do país. Naquela data, o exército egípcio, títere do imperialismo naquela nação, protagonizou o massacre de cerca de centenas de populares acampados e em manifestação nas ruas do Cairo (os dados oficiais dão conta de 638 mortos, os extra-oficiais, mais de 1.500). Tudo em meio à agitação política e ao aprofundamento das contradições do capitalismo burocrático que nos dias correntes tomam conta do país, e em um episódio de brutalidade que contou com francos atiradores empoleirados no alto de prédios na capital egípcia sob as ordens recebidas da Junta Militar de assassinar covardemente quem estivesse ao alcance da mira dos seus fuzis.

Na semana subsequente ao infame massacre de um dia só, mais 800 pessoas foram mortas. O USA e outras potências capitalistas atiraram o Egito em este mar de sangue depois que o imperialismo conspirou com o exército para apaziguar o grande e prolongado levante das classes populares egípcias, conduzindo suas consequências no rumo de um mero rearranjo das forças antipovo no comando daquele Estado, aproveitando-se da lacuna de lideranças autenticamente revolucionárias ou ao menos mais consequentes que acabaram não surgindo para orientar as massas em rebelião no sentido da construção de uma democracia verdadeiramente popular.

Depois do Iraque, nação cujo cenário é de terra arrasada após mais de 10 anos de invasão estrangeira, do Afeganistão, da Líbia, da Síria e de outras nações onde o imperialismo sabota "governos", promove golpes militares, assassina chefes de Estados, financia a "oposição", treina o exército e promove tudo mais que for necessário para garantir seu domínio e a primazia dos interesses estratégicos de suas forças armadas e dos seus monopólios, o Egito passa a ser o país mais perto de ingressar de vez na lista de nações que o USA levou à barbárie da guerra civil.

http://www.anovademocracia.com.br/116/18b.jpg
Mulher defende militante ferido durante remoção.

O USA envia anualmente um bilhão de dólares aos militares egípcios. Em reportagem publicada recentemente, o jornal espanhol El País detalhou onde são empregados os recursos dessa "ajuda" de Washington ao Cairo. Entre outras vias, os recursos são empregados no treinamento e formação de oficiais nas academias militares do USA e fornecimento de máquinas de guerra, como caças F-16 e tanques M1A1 Battle, fabricado pela companhia armamentista ianque General Dynamics e considerado o mais poderoso da sua estirpe. Os militares egípcios estão prestes a oficializar a encomenda de nada menos do que 1.200 desses tanques de guerra, que serão abastecidos e irão para as ruas incrementar o massacre do povo.

Em Washington, enquanto o senador John McCain, ex-candidato derrotado por Obama, vocifera demagogicamente pedindo o fim da "ajuda" do USA ao Egito, frente às chacinas promovidas diariamente naquele país pelo seu exército assassino, os ianques já acionaram seus Estados-títeres no Oriente Médio, nomeadamente Emirados Árabes Unidos, Kuwait e Arábia Saudita – sobretudo a Arábia Saudita –, que juntos já transferiram para o exército do Egito a gorda cifra de US$ 9 bilhões desde que os gorilas tomaram à força de Mohamed Mursi o leme do capitalismo burocrático egípcio.

Todo este cenário pode ser resumido na observação de que o imperialismo não admite o risco de perder o controle deste seu Estado-enclave no Norte da África, estratégico para a geopolítica (a política do imperialismo), ante a agitação popular no Egito e após já ter sido obrigado a chancelar uma reestruturação do capitalismo burocrático local na sequência das rebeliões que escorraçaram Hosni Mubarak do seu gerenciamento.

Conteúdo exclusivo para assinantes do jornal A Nova Democracia

Livre trânsito de navios mercantes e de guerra

Assim, neste contexto, o imperialismo empurra o povo do Egito para uma violenta queda de braços entre forças opostas, mas ambas vende-pátria e anti-povo, adversárias de ocasião que, após terem aliado esforços para cavalgar a justa revolta das massas por uma democracia genuinamente popular, agora digladiam-se, pisoteando o povo para ver quem afinal conseguirá segurar com mais força as rédeas do gerenciamento do Estado egípcio, sempre sob as ordens das potências e em favor dos monopólios internacionais.

De um lado desta queda de braço estão as forças reacionárias que desde sempre oprimem e reprimem o povo trabalhador do Egito, com carestia e mão de ferro, enquanto atendem com presteza a todas as requisições do imperialismo. Forças retrógradas estas que estão sempre encabeçadas pelas forças armadas daquela nação (vide os 30 anos de gerenciamento do marechal Mubarak), instituição-fiadora do capitalismo burocrático local e dos interesses estratégicos das potências naquela região do Norte da África, porta de passagem para o Oriente Médio; o exército que é espinha dorsal daquele velho Estado, ora gerenciado diretamente pelas próprias Forças Armadas – com o "selo de qualidade" da participação no "governo" do Nobel da Paz Mohammed El-Baradei.

Do outro lado está a Irmandade Muçulmana (com seus seguidores), que experimentou como é um bom negócio gerenciar o velho Estado egípcio para os monopólios e agora faz tudo para voltar ao posto.

http://www.anovademocracia.com.br/116/18c.jpg
Apoiadores de Mursi em confronto com o exército.

No plano de fundo deste cenário, no qual a capital Cairo é hoje uma cidade divida em áreas dominadas pela Irmandade Muçulmana e setores controlados pelo exército, com o povo insurreto na linha de fogo, está o imperialismo e seus Estados-cúmplices no Oriente Médio, sobretudo Israel. O Egito domesticado, sob controle permanente do seu exército armado pelo USA e com o povo na rédea curta, esse Egito é peça fundamental no tabuleiro geopolítico do controle do imperialismo sobre o Oriente Médio.

Tem sido assim desde 1976, quando Anwar Sadat assinou os acordos de paz com o sionismo e transformou o Egito na primeira nação árabe a reconhecer o Estado de Israel, para desgosto do grande povo egípcio. Aqueles acordos, assinados sob as vistas do então chefe do imperialismo ianque, Jimmy Carter, foram balizados pelos interesses estratégicos do imperialismo e do sionismo, garantindo em seus termos a livre passagem dos navios de Israel pelo Canal de Suez, bem como o reconhecimento do Estreito de Tiran e do Golfo de Aqaba como águas internacionais.

São esses mesmos interesses que o USA e Israel ora buscam garantir ao sabotarem qualquer possibilidade de o Egito se transformar em um Estado popular e comprometido com os interesses dos povos árabes. Hoje, com o Egito sob o controle das potências e amigo de Israel, o USA tem prioridade para a passagem de navios mercantes pelo canal de Suez, a maioria carregando petróleo cru. Dez porta-aviões ou outros navios de guerra de bandeira ianque passam naquela região com autorização egípcia rumo ao Golfo Pérsico a cada mês. Só no ano passado, em 2012, nada menos que 3.600 navios-tanque atravessaram o Canal de Suez carregando o petróleo que monopólios internacionais do setor de energia retiram do Oriente Médio.

A Irmandade Muçulmana, por seu turno, diz que a "revolução foi roubada", mas diz isso só agora, mais de um ano depois de ter participado da farsa eleitoral organizada no Egito justamente pelo imperialismo e pelo exército, tendo saído dela como a força "vencedora", com Mohammed Mursi ostentando o título de "primeiro presidente democraticamente eleito da história do Egito".

Entre vencer a corrida da farsa eleitoral e ser escorraçada do poder pelo exército, ou seja, antes de ela própria cavalgar a rebelião das massas para atingir seus próprios objetivos de poder, a Irmandade Muçulmana foi acossada por retumbantes protestos populares do povo exigindo a democracia real pela qual tanto lutou, chegando mesmo a ter sua sede no Cairo atacada pela multidão furiosa com o avanço da degradação das condições de vida e com o palavrório de promessas mil jogadas ao vento. Um povo que precisa da solidariedade dos povos trabalhadores de todo o mundo para suportar a violência sem fim a que vem sendo submetido e para um dia conseguir transpor as artimanhas do imperialismo e do oportunismo para viver a democracia verdadeira que tanto anseia.

 

Edição impressa

Endereços

Jornal A Nova Democracia
Editora Aimberê

Rua Gal. Almério de Moura 302/4º andar
São Cristóvão - Rio de Janeiro - RJ
Tel.: (21) 2256-6303
E-mail: anovademocracia@gmail.com

Comitê de apoio em Belo Horizonte
Rua Tamoios nº 900 sala 7
Tel.: (31) 3656-0850

Comitê de Apoio em São Paulo
Rua Silveira Martins 133 conj. 22 - Centro
Reuniões semanais de apoiadores
toda segunda-feira, às 18:45

Seja um apoiador você também!

Expediente

Diretor Geral 
Fausto Arruda

Editor-chefe 
Mário Lúcio de Paula
Jornalista Profissional
14332/MG

Conselho Editorial 
Alípio de Freitas
Fausto Arruda
José Maria Oliveira
José Ramos Tinhorão 
José Ricardo Prieto
Henrique Júdice
Hugo RC Souza
Mário Lúcio de Paula
Matheus Magioli
Montezuma Cruz
Paulo Amaral 
Rosana Bond
Sebastião Rodrigues
Vera Malaguti Batista

Redação 
Ellan Lustosa
Mário Lúcio de Paula
Patrick Granja