Tupinambás retomam suas terras

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Força Nacional ocupa Buerarema – BA

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Moradores incitados pelo latifúndio bloqueiam via.

Na primeira quinzena de junho, dez fazendas foram retomadas pelo povo Tupinambá da Serra do Padeiro, no sul da Bahia. "Essas terras foram griladas e tínhamos a programação de fazer a retomada delas, mas decidimos antecipar para dar uma resposta ao que estão fazendo com o povo Terena, do Mato Grosso do Sul. A luta dos índios é uma só” - declarou na ocasião Rosivaldo Ferreira da Silva, o cacique Babau Tupinambá.

Esse foi o prelúdio de uma série de batalhas do povo Tupinambá travadas no Sul da Bahia, na primeira quinzena de agosto, que culminaram com a retomada de outras 40 fazendas localizadas entre os municípios de Buerarema, Ilhéus e Una.

Mas a retomada pelos indígenas de suas terras originárias despertou a sanha das classes reacionárias locais, que intensificaram a guerra contra os Tupinambás semeando pânico e incitando a população local contra os indígenas, provocando uma situação que pode resultar em um grande derramamento de sangue.

Reação incita guerra entre o povo

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Carro do governo incendiado.

Após as últimas retomadas de terras promovidas pelos Tupinambás, uma campanha furiosa foi deflagrada pelas classes dominantes locais através de seus veículos de comunicação incitando a população contra os indígenas, convocando-a para protestar contra a retomada de terras.

Na noite de 14 de agosto, um caminhão que transportava alunos de uma escola estadual foi alvo de disparos. Os estudantes Lucas Araújo dos Santos, 18, e Rangel Silva Calazans, 25, ficaram feridos por estilhaços de vidro nesse ataque e foram hospitalizados.

Os porta-vozes do latifúndio espalharam aos quatro ventos falsas alegações de que os indígenas invadiriam todas as terras, inclusive as dos pequenos produtores, de que os Tupinambás invadiriam a cidade armados de fuzis e acusou-os de "terrorismo” [fonte: edwardluz.wordpress.com]. A Folha de S. Paulo (ora veja!) alardeou pela boca de um "fazendeiro” que "os índios estão botando todo mundo para correr”.

Convocados pelo latifúndio através de anúncios em rádios locais, centenas de moradores de Buerarema bloquearam a BR-101 em 16 de agosto. Durante o bloqueio da rodovia, quatro veículos do governo foram incendiados, sendo um do Incra e outro da Secretaria Especial de Saúde Indígena. Revoltada por diversas razões, provocada pelas classes reacionárias, a população reagiu como tem reagido todo o povo brasileiro nas explosões de massas que sacodem o país: tomou as ruas, saqueou mercados, destruiu uma agência do Banco do Brasil, incendiou um ônibus que era utilizado para transportar estudantes para a EEIT.

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Força Nacional ocupa Buerarema

Foi a senha para que, em 20 de agosto, os gerenciamentos de Jacques Wagner (PT) e Rousseff (PT/PSB/Pecedobê/PMDB/etc.) ordenassem a ocupação pela Força Nacional de Segurança, que desembarcou em Ilhéus, se reuniu com o comando da Polícia Federal, da Polícia Rodoviária Federal e da Polícia Militar e se dirigiu para Buerarema, onde permanecerá "por 90 dias, prorrogáveis se necessário”. A Força Nacional já havia atuado no município entre abril de 2012 e maio de deste ano. É uma ocupação militar permanente!

Em 24 de agosto, a população tomou mais uma vez as ruas da cidade. Oito casas de Tupinambás foram incendiadas, seus eletrodomésticos e móveis destruídos e queimados nas ruas sob o olhar passivo das tropas da Força Nacional. Mas quando a população, aterrorizada pelas provocações e aturdida pelos boatos, destruiu uma agência dos correios e saqueou estabelecimentos comerciais, foi brutalmente reprimida com bombas de gás e spray de pimenta. Treze pessoas foram presas.

Magnólia da Silva denunciou que indígenas moradores de Buerarema têm sofrido constantes ameaças de "fazendeiros da região”. Os comerciantes são obrigados a fechar as portas e proibidos de vender produtos aos indígenas. "Se não fechar, eles mandam saquear. Eles dizem que se os índios forem para cidade, vão morrer. Quem tem casa em Buerarema, eles estão invadindo. A gente está na aldeia, não está saindo” – denunciou a professora. [fonte: cimi.org.br]

Muros da cidade foram pichados com ofensas aos índios, produtos vendidos por indígenas em uma feira foram destruídos e saqueados. Há denúncias de que dois indígenas foram mortos nos últimos 20 dias e que há vários feridos.

É imperativo que os movimentos populares e de defesa dos direitos do povo, que os autênticos democratas, aqueles que defendem e lutam por uma nova e verdadeira democracia em nosso país ouçam atentamente e repercutam o grito guerreiro das nações indígenas que habitam essas terras há centenas, milhares de anos.


"Sofri um atentado: atearam fogo em minha residência”

Extraído de indiosonline.net

Trechos de depoimento de Potyra Tê Tupinambá, advogada e moradora de Buerarema.

"Foram-se alguns bens materiais, mais eu estou viva, mais fortalecida do que antes. Se queriam me calar meu grito agora ecoa mais alto! Continuarei falando e escrevendo as coisas que acredito e que sejam boas para o meu povo.

Continuarei mostrando ao Mundo as arbitrariedades que se passam aqui em Tupinambá de Olivença e em outros povos também. Continuarei afirmando que os Governos estão a favor das elites, que nosso inimigo maior são as transnacionais, que o Governador da Bahia faz pedidos pessoais ao Ministro da Justiça, que a Polícia Federal nos persegue, que a Justiça Federal nos criminaliza e que a Funai é inoperante!

Estamos aqui no Sul da Bahia em pé de Guerra! A mídia local tem insuflado a sociedade contra nós. Uma mídia comprada que distorce as notícias, que nos trata de supostos índios. Uma mídia comprada. Mas nós também temos a nossa mídia livre e os parceiros que primam pela verdade.

São ameaças vindas de várias partes. Indígenas sendo expulsos de suas áreas tradicionais, escola e posto de saúde prestes a ser demolidos, Deputado que infla a população local contra nós, atentado contra um ônibus escolar, carro da SESAI e da FUNAI queimados, dois assassinados, casas queimadas… tudo isso nos últimos vinte dias.

Vivemos um momento de grande apreensão em nossa área. Nossos anciões estão tristes, nossos corações estão chorando, mas não vamos desistir de lutar por nossos direitos. Nossos direitos são originários, anteriores à formação do Estado de Direito Brasileiro, e isso precisa ser respeitado”.


Histórico de criminalização e perseguições contra lideranças

Em março de 2010, o cacique Babau e seu irmão Givaldo Ferreira da Silva, foram presos pela Polícia Federal numa aldeia em Ilhéus e mantidos encarcerados durante cinco meses em um presídio de segurança máxima. Em junho desse mesmo ano, a Polícia Federal prendeu a índia Glicéria Tupinambá, irmã de Babau, que ficou detida com seu filho Erúthawã de apenas dois meses no colo, acusada de liderar os Tupinambá em protestos pela eletrificação de sua aldeia.

Em fevereiro de 2011, a cacique Tupinambá Maria Valdelice de Jesus (Jamapoty), da aldeia Itapuã, no município de Ilhéus (BA), também foi presa por agentes da Polícia Federal por liderar seu povo na retomada de suas terras originárias.


Enrolação do governo e inoperância da Funai

Lideranças indígenas afirmam que a Terra Indígena Tupinambá da Serra do Padeiro (Olivença) já foi reconhecida como território indígena pela Fundação Nacional do Índio (Funai) mas seu processo demarcatório encontra-se paralisado há anos no Ministério da Justiça. O prazo para a publicação da Portaria Declaratória da Terra Indígena Tupinambá pereceu em abril deste ano, provocando justa revolta dos Tupinambás.

Após a retomada das terras pelos indígenas, vários fazendeiros manifestaram-se dispostos a sair e solicitaram indenizações do governo. Em resposta, o Ministério da Justiça determinou o envio da Força Nacional de Segurança para Buerarema.

Em agosto último, uma delegação Pataxó e Tupinambá foi até Brasília e, mais uma vez, o governo se negou a assinar a Portaria Declaratória. Como previra o cacique Babau em abril desse ano, "o governo espera o fácil ficar difícil”... [fonte: aratuonline.com.br]

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