"Como podem chamar isso de pacificação?"

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Mais um jovem é assassinado por PMs da UPP Jacarezinho

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O trabalhador Israel Oliveira, assassinado em 27/08.

No dia 27 de agosto, a reportagem de AND foi à favela do Jacarezinho, na zona norte do Rio de Janeiro, apurar a denúncia de que policiais da UPP — a Unidade de Polícia Pacificadora —  teriam assassinado o jovem comerciante Israel Oliveira Mallet, de 23 anos. De acordo com a denúncia, Israel estaria dirigindo uma moto quando, repentinamente, um policial atirou acertando-o no braço. O tiro atravessou a caixa torácica do jovem, que morreu momentos depois. O assassinato aconteceu no sábado (23), dia em que Israel comemorava o seu aniversário. Segundo parentes do comerciante, quando foi baleado por PMs, o jovem estaria indo à favela vizinha de Manguinhos convidar amigos para o seu churrasco de aniversário.

Foi um absurdo o que fizeram com ele. Nós fomos ao supermercado, compramos carne, frango, as coisas para a gente fazer maionese, farofa. Compramos cerveja, refrigerante, tudo para a festa de aniversário dele. Ele saiu do trabalho na tendinha e foi direto no Manguinhos chamar os colegas. Eu fiquei aqui preparando tudo. Não demorou muito e vieram me dar a notícia. Como podem chamar isso de pacificação? Um trabalhador de 23 anos, que trabalha dez horas, desde as 8h da manhã, sai do trabalho para comemorar o aniversário e toma um tiro da polícia. E agora? Quem atirou? Quem levou o meu filho de mim sem nenhuma razão? Estou sem chão. Não sei mais o que dizer — diz a mãe de Israel, extremamente abatida.

Já a viúva de Israel disse que chegou ao local do crime e encontrou o trabalhador ainda vivo. Segundo ela, PMs teriam dado voltas e voltas com Israel na viatura, enquanto ele agonizava pedindo por sua vida.

Quando eles falaram que levariam meu marido para o hospital eu desconfiei. Subi em uma moto de um amigo dele e nós fomos atrás da viatura. Os policiais começaram a dar voltas pelo bairro. Quando viram que estavam sendo seguidos, eles tentaram nos despistar, mas não conseguiram. Ou seja, meu marido, trabalhador, entrou vivo em uma viatura e saiu morto. Agora, tenho que enterrá-lo como bandido, criminoso, um homem que eu tinha que brigar com ele para trabalhar menos. Onde isso vai parar? Não foi o primeiro e eu não acho que vá ser o último — denuncia a esposa de Israel.

Nenhum dos parentes de Israel quis se identificar. Todos estão com muito medo, já que a família do jovem decidiu lutar por justiça, o que certamente já chegou aos ouvidos dos policiais que o mataram. Segurando o filho de Israel no colo — uma criança de um ano — o tio do jovem não economizou críticas às Unidade de Polícia Pacificadora.

Todo mês aqui eles matam um. Não sai nada no jornal nem na televisão. Quando sai, dizem que foi tiroteio e que quem morreu era bandido. Quem lê essas notícias acha que a polícia militar do Rio é a melhor do mundo e que a favela só tem bandido. A situação aqui na favela está ficando insustentável. Eles passam a noite jogando spray de pimenta nas vielas, dentro das casas das pessoas, agridem, xingam, não respeitam ninguém. Sabe por quê? Porque eles sabem que não acontece nada depois. Meu sobrinho foi só mais um. Quantos mais vão ter que morrer para o povo enxergar que além de não trazer nada de bom, essa UPP está matando os nossos jovens. Não estão pacificando nada. Estão é tirando o pouco da paz que nós tínhamos na favela. Saiu o comando vermelho e entrou o comando azul. Só sai alguma coisa na mídia quando o povo protesta, joga pedra neles, como quando mataram o menino na Beira do Rio — diz.

O tio de Israel refere-se ao jovem Alielson Nogueira, de 21 anos, assassinado por PMs da UPP no início de abril enquanto comia um cachorro quente em um bar da favela. Na ocasião, moradores se levantaram contra a UPP para impedir que PMs chegassem ao corpo de Alielson e modificassem a cena do crime. Na época, nossa reportagem chegou ao local em meio a um violento confronto entre moradores e PMs. Policiais da UPP chegaram a usar munição letal contra a população. Na correria, o motoboy Ivan Martins dos Santos Filho, de 33 anos, foi baleado na barriga, mas sobreviveu. A ouvidora Maristela Grynberg, da RDIDH — Rede de Defensores Independentes de Direitos Humanos — esteve com nossa reportagem no Jacarezinho e disse que Ivan está sendo ameaçado de morte.

A situação aqui chegou a um ponto insuportável. Pessoas sendo assassinadas sem nenhuma explicação, testemunhas e outras vítimas sendo ameaçadas. Dias atrás o presidente da associação de moradores do Jacarezinho passou mal e foi hospitalizado. Eles estão criando um regime de exceção aqui. Até quando as populações que vivem em favelas terão medo dessa polícia? A quem serve a pacificação? Porque à favela, não está servindo — disse Maristela.

No local onde nossa equipe conversou com parentes de Israel, havia outros familiares de pessoas assassinadas pela polícia pacificadora no Jacarezinho. No entanto, com medo, nenhuma delas quis conversar conosco. Contudo, somente a presença e os relatos dessas pessoas foram suficientes para dimensionar a trágica situação a que chegou a militarização da favela do Jacarezinho. Enquanto policiais da Delegacia de Homicídios fingem investigar o assassinato do operário Amarildo, sequestrado por PMs da UPP na favela da Rocinha, outros trabalhadores são executados por policiais nas várias favelas do Rio de Janeiro militarizadas pelo velho Estado.

PMs matam mãe e filha na favela da Quitanda

Na quinta-feira, dia 15 de agosto, uma operação policial do 41º Batalhão da PM no Morro da Quitanda, em Costa Barros, zona norte do Rio, terminou com duas mulheres, mãe e filha, mortas com tiros de fuzil. Moradores denunciaram que policiais à paisana entraram por um beco e dispararam contra as mulheres. Um único tiro atingiu as duas, mãe e filha, Maria de Fátima de Jesus, de 52 anos, no peito, e Alessandra de Jesus, de 29, na cabeça.

Um morador filmou a revolta da população da favela após o assassinato das mulheres. Nas imagens, dezenas de moradores tentam impedir policiais em um blindado de deixarem a favela. Mesmo com mulheres e crianças no caminho, o "caveirão", como é conhecido o veículo, avançou sobre a massa e fugiu. Moradores correram em direção ao blindado gritando em coro "assassino, assassino!". Em outra imagem, também filmada com o celular de um morador, o suposto autor do tiro aparece cercado por várias pessoas ao lado dos corpos de Alessandra e Maria de Fátima. No vídeo é possível ouvir alguns moradores chorando e outros indignados questionando os policiais.

Em 18 de agosto, nossa reportagem foi à Costa Barros, onde moradores fizeram um protesto exigindo justiça. No local, o irmão gêmeo de Alessandra e filho de Maria, Alex dos Santos de Jesus, de 29 anos, disse que a mãe já havia se mudado da favela para São Pedro d’Aldeia há 20 anos e estava tentando convencer a filha a fazer o mesmo. A jovem Alessandra estava com a filha de dois anos no colo quando foi atingida. Por sorte, a criança não se feriu.

É uma vergonha essa polícia. Como eles não viram que estavam atirando em duas mulheres e uma criança de colo? Como eles atiram sem saber no que estão atirando? Parece? Minha irmã parecia um homem? Como assim? A PM não pode fazer o que fez. Isso não é humano. Não tenho nem forças para falar. Só preciso juntar forças e pensar no que eu vou fazer agora sem minha mãe e minha irmã — disse o jovem Alex.

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"Ô-le-lê, ô-la-lá, a Rocinha quer saber onde o Amarildo está!"

No dia 22 de agosto, cerca de 200 pessoas fizeram um protesto exigindo o paradeiro do operário Amarildo de Souza, de 43 anos, desaparecido desde o dia 14 de julho, quando foi detido em casa por PMs da UPP da favela da Rocinha e nunca mais voltou. O protesto começou no acesso à favela, onde houve apresentação de música, poesia, dança, teatro e fotografia. No final da tarde, a manifestação deixou a Rocinha e seguiu em direção à casa do secretário de segurança do Rio, José Mariano Beltrame, no Leblon, um dos bairros mais caros do Brasil, onde também mora o gerente estadual e principal alvo das manifestações, Sérgio Cabral.

Nós não vamos parar enquanto não aparecer o corpo do meu marido. A polícia não tirou ele de casa? Não disse que se confundiu? Então agora a polícia vai ter que dar conta dele. Senão a gente vai continuar aqui, na rua — disse a esposa de Amarildo, Elizabete Gomes da Silva, que na semana anterior, chegou a ser acusada de envolvimento com o tráfico pelo delegado Ruchester Marreiros, que participou da primeira fase de investigações sobre o sumiço de Amarildo na Delegacia da Gávea (15ª DP).

Eles não dão nada para nós, nenhum suporte, depois de sumirem com o meu pai e ainda inventam uma calúnia dessas. Nós já estamos sofrendo demais. Chega! — protestou Anderson Dias Gomes, de 21 anos, filho de Amarildo e Elizabete.

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