Professores e jovens contra o Estado no Rio

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Bloco organizado pela FIP na linha de frente da manifestação dos professores em 07/10/2013.

Na primeira semana de outubro, a greve dos profissionais da educação do estado e do município do Rio de Janeiro ganhou contornos de rebelião popular. Os trabalhadores ocupavam a Câmara dos vereadores desde 26 de setembro, exigindo que o Plano de Cargos e Salários proposto pela gerência Eduardo Paes não fosse aprovado. Pouco antes de meia-noite do dia 28, PMs sem nenhuma ordem judicial invadiram o plenário com cassetetes e spray de pimenta e expulsaram os profissionais da educação a pauladas. Um trabalhador idoso passou mal e desmaiou durante a ação. Do lado de fora, outros profissionais foram atacados com bombas de gás e efeito moral pela tropa de choque da polícia.

Nos dias 30 de setembro e 01 de outubro, milhares de pessoas, entre trabalhadores em greve e apoiadores do movimento, tomaram a Praça da Cinelândia, em frente ao prédio da Câmara, para repudiar a criminosa ação do Estado reacionário.

Os manifestantes protestavam pacificamente, no dia 01, quando um ataque foi desencadeado pela PM. Policiais atiraram bombas de gás e efeito moral de uma torre no alto do prédio, enquanto do telhado, um oficial do serviço reservado da polícia foi flagrado arremessando telhas — isso mesmo, telhas — contra os trabalhadores. Dezenas de pessoas passaram mal, muitas delas sufocadas pelo gás que invadiu a estação de metrô da Cinelândia. PMs atiraram bombas de gás no telhado do recém reformado Teatro Municipal e até contra os próprios carros da polícia.

Meus olhos, minha pele e o meu rosto estão queimando até agora. Fui no hospital Souza Aguiar, mas não consegui ser atendida. Tinha muita gente asfixiada na fila. Um caos. Entre o pessoal que foi atingido pelo gás tinha merendeiras, professores e muitos aposentados. Sem contar com as pessoas que estavam passando pela rua. Triste é saber que muita gente não vê o que esses bandidos estão fazendo. Voltamos à ditadura — disse a professora de história aposentada Marta Cardona, de 66 anos.

Nossa equipe chegou ao local momentos depois e se deparou com um massacre em andamento. Profissionais da educação, com o apoio da juventude combatente, inclusive os 'Black Blocs', resistiam como podiam ao ataque da PM, que partia de todos os lados. Pequenos grupos que se dividiram foram cercados e atacados pela tropa de choque em picapes da polícia militar. A cena se repetiu em várias ruas do Centro. O ataque causou grande comoção popular. Nas redes sociais na internet, milhares de pessoas postaram mensagens de apoio aos profissionais e prometeram tomar as ruas do Rio e de outras cidades do país.

Amanhã vai ser maior

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Professores apoiaram Black Blocs.

Na segunda-feira seguinte, sete de outubro, mais uma vez o Rio de Janeiro foi palco de um dos maiores protestos da greve da educação. O ato foi convocado pelas redes sociais e mais de 100 mil pessoas haviam confirmado presença na véspera do evento. E mesmo com a chuva do dia seguinte, cerca de 80 mil pessoas tomaram as ruas do centro da cidade para protestar contra o desmanche da educação pública pelo prefeito Eduardo Paes e o governador Sérgio Cabral. O protesto começou às 17h e tomou conta da Avenida Rio Branco. Fogos de artifício iluminavam a noite enquanto trabalhadores jogavam papéis picados das janelas dos edifícios da Av. Rio Branco, tradicional saudação às manifestações populares. Um mar de estudantes, trabalhadores e outros lutadores do povo caminharam até a Cinelândia. Entre as inúmeras faixas, se destacava uma enorme da Frente Independente Popular (FIP): 'Fora Cabral e a farsa eleitoral!'. A FIP agrupa os movimentos populares mais combativos e organiza blocos de resistência nas manifestações.

Outras categorias se incorporaram na manifestação levantando suas bandeiras, que iam desde reivindicações econômicas até as mais políticas. Ativistas da Frente Revolucionária de Defesa dos Direitos do Povo (FRDDP) distribuíram panfletos com o título 'O Brasil precisa é de uma Grande Revolução!'. Os leilões do petróleo também foram denunciados.

Rebelar-se é justo!

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Manifestantes atacaram a Câmara Municipal.

Chegando às escadarias da Câmara de Vereadores algumas pessoas, junto com um indígena da Aldeia Maracanã promoveram uma bela fogueira com cânticos indígenas.

Os jovens "encapuzados", tão atacados pelo monopólio da imprensa, ganharam a simpatia de muitos professores, sendo aplaudidos em vários momentos e recebendo agradecimentos por terem feito a autodefesa nas sucessivas manifestações em que a PM atacou a categoria de forma covarde.

Na lateral do prédio, manifestantes tentavam a todo custo arrebentar o cadeado do portão e acessar o plenário, desocupado pela PM dias antes. Guardas Municipais se aproximaram do portão com seus escudos, mas foram rechaçados pelas massas. Uma chuva de pedras, rojões, morteiros e coquetéis molotov foram atirados contra a fachada e o interior do edifício e contra os guardas, que recuaram apagando o fogo com extintores de incêndio.

Ao fundo, próximo ao Batalhão central da PM, um grupo de cerca de 200 policiais bloqueava o acesso do centro à Lapa. Não demorou para que a presença dos agentes fosse percebida pelas massas, que responderam na mesma moeda a agressão aos professores na semana anterior. No meio dos manifestantes, um senhor carregava um placa que dizia "Quando a PM me bateu, o Black Bloc me defendeu".

A polícia jogou bombas de gás lacrimogêneo, algumas delas do tipo Blue Hell (inferno azul), ou Rubber Ball GL 309, artefato proibido pela ONU por conter uma concentração de gases maior que 20%, sendo assim, consideradas armas químicas letais. O Brasil as exporta para Israel e Turquia, mas nunca havia feito uso do artefato contra seu próprio povo. As cápsulas deflagradas do Blue Hell foram recolhidas por manifestantes e serão encaminhadas à Comissão de Direitos Humanos da ONU.

Eu passei no meio daquela fumaça azul e minha pele começou a queimar. Parecia que eu estava pegando fogo mesmo. Meus olhos começaram a lacrimejar muito e comecei a tossir. Tossi muito mesmo, até golfar. Acabou que desmaiei e tive que ser carregado pelos meus amigos para dentro do metrô, onde tinha muita gente escondida por causa do gás. Mas não adiantou, porque a fumaça acabou descendo pra lá. Acho que não está faltando muito para eles começarem a jogar granadas e balas de verdade em cima do povo — disse o estudante Mariano Amorin, de 21 anos.

Momentos depois, no Passeio Público, manifestantes queimaram um ônibus e uma cabine. Bombeiros rapidamente chegaram para conter as chamas e foram atacados junto com as massas pela PM, que atirou gás lacrimogêneo para todos os lados. Socorristas voluntários e manifestantes prontamente ajudaram os bombeiros passando leite de magnésio em seus rostos.

Enquanto isso, um grupo de ritmistas da banda Siderais, com um trompete, um saxofone e uma tuba, tocava a canção revolucionária Bella Ciao em meio à fumaça. Mais coquetéis molotov foram arremessados contra o consulado do USA e contra o Clube Militar, onde houve um princípio de incêndio.

Cinegrafista de AND preso

Conteúdo exclusivo para assinantes do jornal A Nova Democracia

O cinegrafista colaborador de AND, Bruno Matiazzo, portando sua câmera e devidamente identificado, indagou um capitão do Bope sobre o porquê da prisão de um grupo de jovens. O oficial o ignorou, o cinegrafista continuou insistindo em perguntar o motivo da prisão e foi detido por outro PM.

Porque eu estou sendo preso? Eu não fiz nada. Estou só fazendo o meu trabalho — indagou Matiazzo, que não ficou por muito tempo nas mãos da polícia. Rapidamente, um grupo de manifestantes saiu em defesa do cinegrafista e o arrancou dos braços do PM, que o agarrava pelo pulso.

No total, sete manifestantes foram presos e liberados em seguida e várias pessoas foram atendidas no Hospital Souza Aguiar intoxicadas pelas armas químicas da PM.

Pelegos e mídia X Black Bloc

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Ônibus foi incendiado pela rebelião do povo.

No dia seguinte, o monopólio dos meios de comunicação esbravejava todo o seu ódio ao povo com manchetes do tipo "Vândalos acabam com protesto de professores" (O Globo). No entanto, os trabalhadores da educação divulgaram inúmeras mensagens de apoio aos Black Blocs. Uma moção em apoio aos BB foi lida em assembleia do Sepe, realizada no dia 9, que reuniu cinco mil pessoas e decidiu pela continuidade da greve dos trabalhadores da rede estadual.

E não foi só o monopólio da imprensa que abriu a boca para criminalizar a tática Black Bloc. O ex-deputado Milton Temer, do Psol, publicou no site de relacionamento Facebookum artigo intitulado "Black Blocs, linha auxiliar da PM e da Globo", onde diz que "esses irresponsáveis criaram as condições para que o JN e o jornalão de hoje, pudessem ocultar o caráter multitudinário da manifestação".

O que o Milton — que nunca é visto nas manifestações, digase de passagem — não disse, não sabe ou não quer saber, é que são esses "irresponsáveis", junto com organizações populares mais combativas e consequentes, que estão sustentando as manifestações nas ruas do Rio desde o início de junho, quando a luta ainda era contra o aumento da passagem. Foram os mais combativos, Black Blocs ou não, que defenderam com unhas e dentes os profissionais da educação na Cinelândia do covarde ataque levado a cabo pela PM na semana anterior. E se alguma transformação resultar dessa onda de protestos, o mérito será dos combativos, dos corajosos. E o Milton Temer seguirá em seu gabinete vendo essas transformações o engolirem.

Zé Maria, outro politiqueiro do PSTU, também deixou no Facebook a sua "recomendação" para que os professores "rechaçassem" o Black Bloc. Nada de se estranhar!

Até o fechamento desta edição outras passeatas estavam marcadas. Os vídeos feitos por AND podem ser visto no blog da redação do jornal: anovademocracia.com.br/blog.


Saudações a quem luta

Comitê de apoio ao AND em BH

Intervenção de uma ativista do Movimento Classista dos Trabalhadores em Educação (Moclate) durante ato de solidariedade a greve dos trabalhadores em educação do Rio de Janeiro realizado na Praça Sete, Centro de Belo Horizonte, em 30 de setembro de 2013.

Esse ato foi uma iniciativa do Moclate para apoiar e prestar solidariedade à greve dos professores do Rio de Janeiro. Nesse momento está ocorrendo uma manifestação, depois que a PM tirou com truculência os professores da Câmara. Os professores do Rio marcaram um ato para hoje, mesmo momento do ato da Frente Independente Popular pela melhoria do transporte. Há uma grande manifestação lá nesse momento e a polícia está mais uma vez reprimindo.

Os professores estão em luta há mais de 50 dias em defesa da sua dignidade como profissionais, porque lutam por melhores salários, plano de carreira. Mais que isso, lutam por uma educação pública e gratuita, que é uma bandeira não só dos professores mas de todo povo brasileiro.

Nós organizamos esse ato porque achamos importantíssimo nos pronunciarmos contra o que aconteceu, não podemos ver o que aconteceu no Rio com normalidade. Prender e agredir professores por se manifestarem, por fazerem greve.

Há uma escalada do fascismo no nosso país. O velho Estado tem tratado assim todos os movimentos populares, com truculência. No campo, o que tem acontecido são absurdos, torturas e assassinatos de camponeses. Os operários em greve nas obras do PAC em todo o país estão sendo tratados como caso de polícia, torturados e presos.

Entre os professores que ocuparam a câmara no Rio, foram vários presos, processados, vários feridos. É assim que as gerências fascistas do velho Estado, Eduardo Paes, Sergio Cabral e Dilma Rousseff, aqui em Minas com Anastasia, e todas essas gerências a serviço da grande burguesia, do latifúndio e do imperialismo têm tratado as manifestações populares.

Não podemos aceitar! Isso para nós é uma luta política, é uma questão de princípios defender o direito do povo se organizar e se manifestar. Vamos seguir na rua denunciando esses absurdos.

Estão ocorrendo greves de professores em várias partes do país e inclusive aqui temos que fortalecer o movimento.

Saudamos os estudantes que vieram aqui junto com os professores do Movimento Estudantil Popular Revolucionário, da União Colegial de Minas Gerais, da Executiva Mineira dos Estudantes de Pedagogia, todos que atenderam esse chamado.

Enviamos uma saudação combativa aos companheiros do Rio de Janeiro. Persistam nessa luta classista e combativa. Só conquistamos direitos e podemos defendê-los através da luta.

Reafirmamos nosso total apoio a greve unificada dos trabalhadores das redes estadual e municipal do Rio de Janeiro e em todo o país.


SP: Manifestação de solidariedade

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Viatura da PM foi virada por manifestantes.

Em 7 de outubro, centenas de pessoas foram às ruas do Centro em solidariedade à grande manifestação em defesa da educação pública realizada no Rio de Janeiro. Como em ocasiõea anteriores, houve confronto entre jovens e a repressão policial. Onze manifestantes foram detidos. Agências bancárias e grandes lojas foram alvos do justo protesto e uma viatura da PM foi virada.

Dois dos presos, Humberto Caporalli, 24 anos, e Luana Bernardo Lopes, 19, vão responder inquérito por infringir a lei nº 7.170, a famigerada "Lei de Segurança Nacional", de acordo com Antônio Luis Tuckumantel, delegado titular do 3º Distrito Policial, sob a acusação de que estavam portando uma mochila onde guardaram uma cápsula de gás lacrimogêneo de uso da polícia, ou seja, "porte de arma de uso restrito".

A decisão causou indignação nas redes sociais e entre todos os segmentos da sociedade brasileira que prezam pela democracia.

Quando falamos em Lei de Segurança Nacional (aí caberia algumas aspas) estamos nos referindo à lei promulgada durante a gerência militar de João Figueiredo, no ano de 1983, que qualifica como crime "depredar, provocar explosão ou incendiar para manifestar inconformismo político ou manter organizações subversivas". No entanto, essa lei se dirigia exatamente às organizações populares e revolucionárias que ousavam desafiar, muitas delas de armas nas mãos, o regime militar fascista que, diga-se de passagem, foi financiado e orquestrado pelo imperialismo do USA. Portanto quando nos referimos a tal "Segurança Nacional", não é nada mais do que a segurança dos que abriram as portas do Brasil para os interesses imperialistas, para o saque da nação. Agora, 30 anos depois, e 28 da "redemocratização" (também entre aspas) é cogitada sua aplicação.

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