Brasilidade à flor da pele

Mineira de nascença, carioca por opção, baiana por paixão, Clara Nunes, que faria 60 anos no dia 12 de agosto, será homenageada por Tereza Cristina no Centro Cultural Carioca.

Eu acho que o que há de verdadeiro, o que há de mais puro, o que há de mais sincero e mais espontâneo, que é a força realmente, é o povo. Então, não adianta você querer ir de encontro ao povo, você tem que trazer o povo até você. Então para mim, o povo é tudo. Eu hoje sou uma pessoa muito diferente, muito mais consciente e mais feliz

Clara Nunes -1975

Quem faz o circuito do samba nas noites do Rio de Janeiro, não se espanta quando ouve canções do repertório de Clara Nunes cantada por músicos tão jovens, que não tiveram, sequer, a oportunidade de ouvi-la ao vivo. Clara, mesmo tendo sua discografia retirada de catálogo um ano após a remasterização em CD (1997), é reverenciada em todas as rodas de samba da cidade pelo belíssimo trabalho que norteou a sua carreira: um mosaico único de ritmos brasileiros. Em meio a sucessos de compositores tradicionais, como Ataulfo Alves, Chico Buarque, Noel Rosa e Vadico, Cartola, Caymmi, Vinícius de Mores, Guilherme de Brito, Maurício Tapajós e Paulinho Pinheiro, Clara Nunes foi a primeira cantora a trazer para o disco congados, jongo, ciranda, coco e outros ritmos de descendência africana, que se mantinham marginalizados pelos meios de comunicação.

Profissão esperança

Nascida em Paraopeba (hoje Caetanópolis-MG), Clara chegou ao Rio de Janeiro em 1966, convidada pela gravadora Odeon — após fazer sucesso em Belo Horizonte por dois anos seguidos com um programa na TV Itacolomi e na Rádio Guarani — para gravar o LP A voz adorável de Clara Nunes, um disco de boleros no mais puro estilo Ângela Maria, que não fez sucesso. Em 1968 a cantora mudou radicalmente seu repertório. Assim, gravando Você passa e eu acho graça — autoria de Ataulfo Alves e Carlos Imperial — tornou-se sucesso nacional, lançando-se como sambista. No ano seguinte grava A beleza que canta com músicas de Ataulfo Alves (Meus tempos de criança); Renato Teixeira (Dadá Maria) e Assis Valente (O vento e a rosa) entre outros.

Nasce o mito

Em 1971 começa a ser produzida por Adelzon Alves, e nesta nova fase, Clara é apresentada à cultura afro-brasileira frequentando a Serrinha — onde conhece o jongo de Vovó Maria Joana, mãe de mestre Darcy do Jongo — e a Velha Guarda da Portela. Descortina-se para ela um novo universo de ritmos e danças que eram mantidos longe dos meios de comunicação.

Torna-se admiradora de personagens como Clementina de Jesus, com quem gravou, de Candeia, PCJ (Partido da Clementina de Jesus) — quem não se lembra de ...não ‘vadeia' Clementina... fui feita pra vadiar... —, Paulinho da Viola, Monarco e outros portelenses ‘de carteirinha', surgindo, então, sua paixão pela Escola de Samba de Madureira, bairro do subúrbio carioca.

Numa excursão à África, onde ficou por dois meses, aprofundou-se nos ritmos negros, paixão essa que a rotularia como cantora de macumba. Grava, então, Clara Nunes onde mostra todo o ecletismo que marcaria sua carreira, com músicas como Aruandê...Aruandá de Zé da Bahia; Meu lema, João e Gisa Nogueira; o sucesso Ê, baiana, de Miguel Pancrácio, Ênio Santos Ribeiro, Baianinho e Fabrício da Silva; Misticismo da África ao Brasil, João Galvão, Vilmar Costa e Mário Pereira; Sabiá, de Luiz Gonzaga e Zé Dantas; Feitio de oração, Noel Rosa e Vadico e Festa para um rei negro, de Zuzuca. Estava, assim, delineada a personalidade dessa braso-africana, como só uma brasileira pode ser.

Tornou-se a principal intérprete da música de inconfundíveis raízes africanas sem, contudo, limitar-se a ela: tinha enorme capacidade para passear por composições que iam de sambas de Nelson Cavaquinho ao afoxé de Edil Pacheco — Ijexá —, passando pelo forró de Sivuca e Glorinha Gadelha — Feira de Mangaio. Clara era doce cantando samba-canção — como Ternura antiga (Dolores Duran e Ribamar) —, irreverente — como no samba Meu sapato já furou (Élton Medeiros e Mauro Duarte) —, sertaneja — Ouricuri (João do Vale e José Cândido) —, mineira — Candongueiro (Wilson Moreira e Nei Lopes) e ‘jongueira' como só uma verdadeira filha da África — Embala eu (Albaléria) acompanhada por Clementina de Jesus.

Sucesso x tabu

Em 1973 excursiona com Vinícius de Moraes e Toquinho com o show O poeta, a moça e o violão — cujo disco foi gravado durante temporada na Argentina e é quase desconhecido no Brasil. Apresenta-se em Lisboa e torna-se a cantora brasileira de maior sucesso em Portugal. Através de uma participação num especial para a televisão sueca — transmitido para toda a Europa — é convidada para representar o Brasil no festival de Midem e seu disco europeu chamado Brasília alcança os primeiros lugares na parada na França.

Em 74, com Paulo Gracindo, participa da montagem de Brasileiro, profissão: esperança, uma compilação de músicas de Dolores Duran e Antônio Maria, entrecortada com versos deste último, com direção de Bibi Ferreira — oito meses em cartaz no Rio, com recorde de público: chegou a lotar o Canecão, com mais de mil pessoas por noite. O espetáculo é gravado e alcança grande sucesso de vendas.

Havia, no Brasil, o tabu de que mulher não vendia disco e Clara quebrou-o com Alvorecer (1974), que vendeu mais de 400 mil cópias — um exagero para a época. Com O canto das três raças, em 1976, alcançou a marca de 600 mil cópias vendidas.

Clara compôs uma única música, em parceria com Maurício Tapajós e Paulo César Pinheiro, À flor da pele — um bolero “tangueado”, gravada no disco As forças da natureza.

Homenagem

Esta mulher excepcional será homenageada, durante o mês de agosto, em show com concepção, roteiro e direção de David Pastore e produção de Alfredo Galhões. Nos dias 4,11 e 8 de agosto, no Centro Cultural Carioca (Rua do Teatro, 37, Centro), Tereza Cristina apresentará um apanhado das canções mais representativas da carreira de Clara: cocos, jongos, forrós, samba-canções e sambas de enredo, com a participação de um convidado a cada semana. No dia 25 o show será, ao ar livre, em palco montado na praia de Copacabana com a participação da Velha Guarda da Portela cantando Flor do interior, composta por Manacéa em homenagem à Clara.

A gravadora DeckDisc planeja para este ano um tributo à cantora: um álbum-homenagem duplo, contando com a participação de vários compositores, gravados por ela, como Paulinho da Viola, Dona Ivone Lara, Monarco e Xangô da Mangueira. Teresa Cristina e Mariana Bernardes, também estão na lista de convidados.

Este ano deverá ser lançada pela jornalista mineira Neide Pessoa a biografia oficial de Clara. Há, ainda, o projeto de um museu com o acervo pessoal da cantora, em sua cidade natal, onde hoje funciona uma creche com seu nome.

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