Vinte mentiras sobre a guerra no Iraque

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O Iraque foi o responsável pelos ataques de 11 de setembro.

Uma suposta reunião em Praga, entre Mohamed Atta, líder dos aeropiratas de 11 de setembro e um funcionário da inteligência iraquiana foi o principal fundamento dessa asseveração, mas, mais tarde, a inteligência tcheca admitiu que o contato iraquiano provavelmente não era Atta. Mesmo assim, isso não conteve os incessantes informes de que o Iraque teve alguma coisa a ver com os ataques de 11 de setembro - tendência tão exitosa, que atualmente as sondagens de opinião demonstram que dois terços dos estadunidenses acreditam que Saddam Hussein esteve por trás dos atentados. Quase a mesma quantidade de gente está convencida de que eram iraquianos os sequestradores que explodiram os aviões. Nem um nem outro é verdade.

O Iraque e a Al Qaeda trabalham juntos

As constantes afirmações de líderes ianques e britânicos de que Saddam e Osama Bin Laden estavam no mesmo time foram desmentidas por uma informação interceptada da equipe de inteligência para a defesa, que negava que houvesse algum nexo entre ambos. A informação traz ainda que "os objetivos do senhor Bin Laden entram em conflito ideológico com o Iraque atual".

Também se difundiram informações de que membros da Al Qaeda recebiam refúgio no Iraque, onde haviam montado um acampamento de treinamento no uso de venenos. Quando as tropas ianques acharam o suposto acampamento não encontraram o menor vestígio de substâncias venenosas, químicas ou biológicas.

O Iraque ia adquirir urânio da África para "reconstituir" seu programa de armas nucleares.

Agora o chefe da Agência Central de Inteligência (CIA) tem admitido que os documentos em que supostamente o Iraque havia tratado de importar urânio de Níger, na África ocidental, eram falsificados e esta afirmação não era para aparecer no discurso de George Bush sobre o estado da União. A Grã-Bretanha defende sua postura alegando que existe "evidência de inteligência adicional". O Departamento de Exterior britânico admitiu que dita informação estava "sendo submetida a revisão".

O Iraque pretendia importar tubos de alumínio para desenvolver armas nucleares.

O USA argumentou insistentemente que Bagdá tentou comprar tubos de alumínio extra-reforçados, os mesmos que se empregam exclusivamente nas centrifugadoras de gás necessárias para enriquecer o urânio com o qual se fabricam armas nucleares. De maneira igualmente tenaz, a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) afirmou que ditos tubos estavam sendo usados para fabricar foguetes de artilharia. O chefe da AIEA, Mohamed El Baradei, assegurou ao Conselho de Segurança da ONU que os tubos não eram adequados para centrifugadoras.

O Iraque conservava, desde a primeira guerra do Golfo, vastos arsenais químicos e biológicos.

O Iraque possuía suficientes substâncias perigosas para matar o mundo inteiro, se argumentou em mais de uma ocasião. Contava com aviões que voavam sem piloto e podiam invadir o espaço aéreo estadunidense para jogar substâncias químicas e biológicas. Mas peritos têm assinalado que o Iraque nunca teve tecnologia para produzir esses agentes, salvo o gás mostarda, que puderam conservar durante mais de 12 anos - tempo que transcorreu entre as duas guerras. Todos estes agentes deviam estar deteriorados e inúteis há anos.

O Iraque tinha até 20 mísseis que podiam ser carregados com elementos químicos e biológicos, cuja capacidade de alcance ameaçava as forças britânicas em Chipre.

Independentemente do fato de que não se tem encontrado nenhum indício destes mísseis desde a invasão, a Grã-Bretanha minimizou a suposta existência de tais armas, uma vez que começaram os combates. Também se tornou público que em 2002 foi retirado todo o equipamento de proteção contra ataques químicos das bases britânicas em Chipre, o que indica que Londres não levou a sério suas próprias afirmações.

Saddam Hussein tinha meios para desenvolver cepas de varíola.

Esta acusação foi feita pelo secretário de Estado ianque, Collin Powel, em seu discurso ante o Conselho de Segurança em fevereiro. Em março, a ONU assegurou que não havia nenhum elemento que a sustentasse.

Os inspetores da ONU respaldaram as acusações ianques e britânicas.

Segundo o responsável do Exterior britânico, Jack Straw, o chefe dos inspetores de armas da ONU, Hans Blix, destacou que o Iraque tinha 10 mil litros de antrax. Tony Blair disse que a ONU havia documentado os programas de armamento químico, biológico "e, portanto, nuclear" do Iraque. Qual foi a resposta do senhor Blix? "Isso não equivale a dizer que há armas de destruição massiva", assinalou em setembro passado. "Se eu houvesse contado com qualquer evidência sólida de que o Iraque conservava armas de destruição em massa ou as estava fabricando, a levaria imediatamente ao Conselho de Segurança." Em maio deste ano, Blix emendou: "Obviamente, estou muito interessado em saber se havia ou não armas de destruição em massa, e começo a suspeitar que não."

As inspeções anteriores de desarmamento fracassaram.

Tony Blair declarou ao diário The Independent, em março, que a ONU "tentou, sem êxito, durante 12 anos, que Saddam Hussein se desarmasse de maneira pacífica." Mas em 1999, uma comissão do Conselho de Segurança da ONU concluiu: "Ainda que se devam esclarecer elementos importantes, o grosso dos programas iraquianos para produzir armas proibidas foram eliminados." O senhor Blair também asseverou que os inspetores da ONU "não acharam rastro nenhum dos programas de armas biológicas de Saddam", senão o fato de que até o genro do governante do Iraque ter fugido do país. De fato, a ONU conseguiu que o regime admitisse que existiu um plano de armas biológicas um mês antes da dita fuga.

O Iraque obstruía o trabalho dos inspetores de armas.

O chamado "expediente duvidoso" que o governo britânico divulgou em fevereiro passado, argumentava que os iraquianos que eram designados para acompanhar os inspetores estavam "treinados para enfronhar-se em longas discussões" com funcionários do regime iraquiano, o que permitia a outros funcionários esconder as evidências. O informe incluía que as inspeções eram monitoradas e que era sabido, com antecipação, que lugares iam ser revistados de surpresa e a evidência ocultada antes da chegada dos peritos. O doutor Blix disse em fevereiro que a ONU realizou mais de 400 inspeções e cobriram mais de 300 lugares. "Notamos que o acesso a esses lugares se dava sem problemas", assinalou. "Em nenhum caso vimos evidência convincente de que a parte iraquiana sabia que os inspetores iam chegar."

O Iraque podia lançar um ataque com armas de destruição em massa em apenas 45 minutos.

Esta célebre afirmação se baseou em uma só fonte que, segundo se disse, era um oficial militar iraquiano da ativa. A identidade desse indivíduo não se fez pública desde a guerra, mas, em todo caso, Tony Blair desmentiu a versão em abril. Manifestou que o Iraque começou a esconder suas armas em maio de 2002, significando que não poderia usá-las em 45 minutos.

O "informe duvidoso".

O senhor Blair expressou diante da Câmara dos Comuns, em fevereiro deste ano, quando se difundiu o expediente: "Durante o fim de semana temos obtido informação adicional de inteligência sobre a infraestrutura do ocultamento de armas. Obviamente seria muito difícil publicar os informes da inteligência." Pouco depois se descobriu que a maior parte deste informe foi copiada, sem que lhe atribuíssem fontes, de três artigos da internet. Em junho, Alastair Campbell assumiu a responsabilidade pelo plágio cometido por sua equipe, mas defendeu a exatidão do expediente, mesmo que o documento confunda duas organizações da inteligência iraquiana e assinale erroneamente que uma delas se mudou para novos quartéis em 1990, dois anos depois de ser criada.

A guerra será fácil.

Os temores da opinião pública que surgiram no USA e Grã-Bretanha foram mitigados com a asseveração de que os iraquianos oprimidos dariam boas vindas às forças invasoras. Foi dito que "demolir o poder militar de Saddam Hussein e libertar o Iraque será um passeio", segundo palavras de Kenneth Adelman, funcionário do Pentágono em duas administrações republicanas anteriores. A resistência se apresentou de maneira irregular, mas foi mais tenaz do que se esperava, principalmente a das forças não oficiais que combatiam vestidas como civis. "Este não era o inimigo contra o qual planejamos a estratégia", se queixou um general.

Umm Qasr.

A queda da cidade ao sul do Iraque, que é o único porto do país, foi anunciada em várias ocasiões, antes que as forças anglo-ianques a controlassem. O anúncio foi feito, entre outros, pelo secretário de Defesa do USA, Donald Rumsfeld e pelo almirante Michael Boyce, chefe da defesa britânica. "Umm Qasr foi subjugada por marines ianques e está agora nas mãos da coalizão", afirmou prematuramente o almirante.

A rebelião de Basora.

Durante dias se disse repetidamente que a população xiita de Basora se havia rebelado contra seus opressores, muito antes de ficar claro que isso não era mais que um desejo não realizado. Também se deu a conhecer a suposta deserção de um batalhão iraquiano. A afirmação foi feita por um porta-voz militar que não estava em posição de conhecer a verdade.

O resgate de Jessica Lynch.

O resgate da soldado americana Jéssica Lynch, de um hospital de Nasirya, por parte de forças especiais ianques foi uma das principais "histórias comoventes" da guerra. Ela afirmou que disparou contra as tropas iraquianas até que terminassem as munições e que foi levada ao hospital com ferimentos de bala e arma branca. Mas agora ficou claro que as lesões que sofreu ocorreram quando o veículo em que viajava tombou, deixando-a impossibilitada de disparar. Médicos do hospital local trataram de entregá-la aos ianques logo que as forças iraquianas saíram do hospital, mas os doutores tiveram que retroceder quando as tropas do USA abriram fogo contra eles. Os grupos especiais não encontraram resistência para realizar o "resgate", mas, desde logo, se asseguraram de que o episódio ficasse filmado.

As tropas enfrentariam ataques com armas químicas e biológicas.

À medida que as forças ianques se aproximavam de Bagdá, informações da imprensa assinalavam que as tropas cruzariam a "linha vermelha", depois da qual unidades da Guarda Republicana tinham autorização para empregar armas químicas. Mas o tenente general James Conway, o mais importante general marine no Iraque, admitiu mais tarde que estavam equivocadas as informações da inteligência, segundo as quais se havia espalhado armamento químico em torno de Bagdá desde antes da invasão.

"Me surpreendeu muito não encontrar armas à medida em que avançávamos", disse. "Entramos em todos os depósitos de munições entre a fronteira com o Kwait e Bagdá, mas simplesmente não havia nenhuma. Nos equivocamos redondamente. Mas, estando ou não equivocados, creio que ainda nos falta muita coisa para ver."

Interrogando cientistas iraquianos se conseguirá encontrar as armas de destruição em massa.

"Não tenho absolutamente nenhuma dúvida de que estas armas estão aí. (...) Uma vez que tenhamos a cooperação de cientistas e peritos, não tenho dúvida de que as encontraremos", asseverou Tony Blair em abril passado. Outras personalidades têm feito afirmações similares, no sentido de que os interrogatórios promoverão o descobrimento dessas armas que as verificações não encontraram. Mas praticamente todos os cientistas iraquianos estão sob custódia e o pretexto de que não confessaram porque ainda temem Saddam Hussein está começando a se desgastar.

O dinheiro proveniente do petróleo iraquiano será para os iraquianos.

Tony Blair se queixou perante o Parlamento de que "as pessoas acreditam na falsa acusação de que queremos nos apoderar da riqueza petrolífera do Iraque", e emendou que deveria ser criado um fundo para o povo que seja administrado pela ONU. A Grã-Bretanha deve promover uma resolução no Conselho de Segurança que estipule que "todos os lucros resultantes do petróleo beneficiarão aos cidadãos do Iraque".

Mas, ao invés disso, Londres co-patrocinou uma resolução no Conselho de Segurança que outorgou ao USA e à Grã-Bretanha o controle sobre a produção petrolífera iraquiana. Não há nenhum fundo administrado pela ONU. E longe de estabelecer que os "lucros petroleiros" serão usados pelo povo iraquiano, a resolução apresenta deduções sobre ditas percepções que têm o propósito de pagar compensações pela invasão do Kwait, em 1990.

Têm sido encontradas armas de destruição em massa.

Depois de repetidos alarmes falsos, tanto Tony Blair, como George W. Bush proclamaram, em 30 de maio, que dois caminhões encontrados no Iraque eram laboratórios biológicos móveis. "Já encontramos dois caminhões e cremos que foram usados para produzir armas biológicas", afirmou Blair. Bush foi mais longe: "Aqueles que dizem que não encontramos equipamentos proibidos ou armas ilícitas se equivocam. As encontramos." É quase seguro que os veículos eram usados, tal como dizem os iraquianos, para a produção de hidrogênio para inflar balões meteorológicos e que foi a Grã-Bretanha quem lhes vendeu os caminhões.


Autorizado por La Jornada, em 13/07/03

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