Herman Wallace, revolucionário

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Uma mensagem para seu funeral
Mumia Abu Jamal

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Velhos companheiros homenageiam Herman em seu funeral.

[Velório no Centro Comunitário Treme, NOLA, sábado, 12 de outubro, às 10hs; sepultamento Providence Memorial Pk]

Supõe-se que a longa tortura de Herman Wallace, dos famosos "3 de Angola", foi cometida para nos aterrorizar e apagar as chamas da resistência que ardiam por toda a Nação Negra e muitas outras nos anos de 1960 e 70.

Porém, o Estado fracassou totalmente, porque o ex-Pantera, apesar da monstruosa tortura que suportou durante 41 anos no buraco que é este lugar chamado Angola – que nem sequer merece a designação de prisão, porque é uma verdadeira plantação de escravos – seguiu enjaulado precisamente por ser livre em sua mente.

Os três homens conhecidos como "os 3 de Angola" – Herman Wallace, Robert Hillary King e Albert Woodfox – foram exemplos da fortaleza, determinação e força de vontade durante todos seus anos infernais vividos nos malditos sótãos de Angola.

Usei a palavra tortura não de forma superficial.

Juan Méndez, relator espacial da ONU, afirma que o isolamento prolongado em uma cela por mais de 14 dias constitui uma verdadeira tortura psicológica que destrói os seres humanos. 14 dias!

Herman Wallace, condenado a toda uma vida na prisão por acusações fabricadas no venenoso sistema de justiça do estado da Luisiana, passou 41 anos no isolamento em Angola... em Luisiana... no USA. 41 anos!

Para dizer de outra forma, Herman Wallace passou 14.965 dias em isolamento.

Herman Wallace passou 359.160 horas em isolamento.

Quando, há poucos dias, um juiz federal cancelou sua condenação inconstitucional e injusta e ordenou sua libertação, o moribundo Herman Wallace viveu três dias em liberdade antes de regressar a seus antepassados. Seu corpo volta à terra, nossa mãe. Mas seu espírito arde com força e um compromisso inquebrantável para ganhar a liberdade de todas e todos nós.

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Diz-se que as últimas palavras de Herman foram: "Sou livre". Mas sempre fora livre. Sua contribuição para a liberdade, mesmo estando em grilhões e correntes em uma das masmorras mais depravadas do país, era imensa.

Se Herman pudesse falar, instar-nos-ia a não esquecer de seu irmão em correntes, Albert Woodfox, porque como costumamos dizer: A liberdade é uma luta constante.

No Partido Pantera Negra havia um dístico: A morte de um opressor é mais leve que uma pluma, mas a morte de um revolucionário pesa mais que uma montanha.

A morte de Herman pesa mais que uma montanha porque ele mereceu muito mais que três dias em liberdade longe do fedor de Angola e da "justiça" ao estilo Luisiana.

Mas sua morte, seu sofrimento, sua tortura e sua solidão nos lembram da verdadeira natureza do sistema e do obscuro e monstruoso rosto do complexo industrial carcerário – um complexo de incomparável crueldade e desenfreada selvageria.

Herman, Albert e Robert foram submetidos a este tipo de tratamento porque com muito valor eles resistiram e se opuseram à pior repressão. Organizaram um grupamento do Partido Pantera Negra estando presos na infame Angola! Foram acossados e torturados por praticar o que as autoridades chamam (e aqui não estou brincando) "o Panterismo Negro".

Então, recordem o sacrifício de Herman.

41 anos.

14.965 dias.

359.160 horas.

E suas últimas palavras? Sou livre.

Tomara que todos logremos encontrar este tipo de liberdade.

Obrigado a todos vocês. Em memória de Herman, sou Mumia Abu Jamal.

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