Outro ensaio sobre a cegueira

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Era cega e não havia percebido que o era, afinal, nunca tendo conhecido a luz, como saberia dizer do que se tratava? Mas naquele dramático mês de fevereiro, pouco antes de completar 22 anos, Maria passou de repente a enxergar.

— Mas como é que eu não vi isso antes, gente?

Com essa pergunta martelando a cabeça já zonza de tanto pensar, a moça se interpelou naquela manhã de domingo sobre o fato de ter vivido tanto tempo em completa escuridão. Não haveria de ser uma manhã como as outras, todas as monótonas manhãs de domingo que passava no barracão apertado e insalubre onde vivia com toda a família. Operária de fábrica, privada da visão, seguia cegamente o movimento da vida como seguia o ritmo da máquina: trabalho, escola, casa, trabalho... numa cantilena contínua que por vezes a fazia cochilar sobre a costura, perigando perder a peça e os dedos... Sem contar as vezes que dormia no ônibus e passava do ponto. Nesses dias, perdido o horário da escola, fazia a pé o restante do trajeto de casa, aproveitando pra pensar no que fazer com o tempo vago. Daria tempo de lavar os cabelos, assistir à novela, talvez até passar umas roupas n’água. Aos domingos gastava seu tempo lavando o uniforme e preparando a marmita da segunda. Sua descontração resumia-se aos programas vespertinos da TV; deleitava-se também com os comerciais, gostava de cantar as vinhetas e se imaginava, por vezes, cantora de bar. Não sonhava cantar na TV, ser artista famosa. Seu sonho era cantar na noite, achava “glamouroso”, embora desconhecesse o significado da palavra. Em casa ninguém havia se dado conta de que ela agora enxergava. E de nada adiantou o tom acalorado que usou para explicar o fenômeno ao namorado. Este, com o ar displicente, afirmou impunemente que nunca havia notado sua suposta cegueira; tampouco podia notar o que ela agora jurava ver ao redor.

— Talvez porque ainda estivessem os outros também com os olhos cerrados — concluiu, dando-se por vencida.

Sentia dor, uma dor aguda como a que sentem todos os que tendo as retinas em estado de repouso são, de repente, lançados à luz do dia. Estava ansiosa e sentia angústia; muita coisa ao mesmo tempo pra quem se habituara a sentir apenas cansaço. Mas o que mais a assustava era aquela sensação de expectativa que havia brotado junto da luz que invadiu seus olhos. Acostumadas ao ambiente opaco da fábrica, suas retinas virgens contemplavam agora todas as cores e formas ao redor. No começo, achou tudo bonito e passou a espantar-se com qualquer trivialidade, como uma criança que descobre as mãos e passa horas olhando fixamente o movimento dos próprios dedos. Encantou-se com o reflexo da água no fundo do copo e velou sua imagem no espelho com o entusiasmo de um astrônomo que observa o nascimento de uma estrela. Pensando bem, admirou-se de ter vivido tanto tempo sem enxergar nada. Como conseguiu? Por que não havia percebido antes o que agora parecia tão gritante aos seus olhos?

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