RO: Rebelião e estado de sítio em Rio Pardo

A- A A+
 
http://www.anovademocracia.com.br/122/10a.jpg
Exército e Força Nacional reforçam aparato repressivo.

A notícia da resistência camponesa em Rio Pardo, na Floresta Nacional Bom Futuro, chegou à redação de AND horas antes da impressão da última edição do jornal e fez com que nos desdobrássemos para apurar e noticiar este impactante acontecimento. As notícias eram poucas e graves. Vídeos divulgados pela página Buritis News com as imagens dramáticas repercutiam na internet. O monopólio das comunicações alardeava que um soldado da Força Nacional, a guarda pretoriana de Dilma Rousseff (PT), foi morto durante o confronto.

Terra conflagrada

A região em que está localizada a Flona Bom Futuro é marcada por intensos conflitos agrários e histórica luta dos camponeses pela terra.

Nos últimos anos, dirigentes e ativistas camponeses como Maninho, Oziel Nunes, Oséas Martins, Dercy Francisco Sales, José Vanderlei Parvewfki, Nélio Lima Azevedo, Élcio Machado, Gilson Teixeira Gonçalves e Renato Nathan, entre tantos outros, foram brutalmente torturados e assassinados por pistoleiros e pelas forças de repressão do velho Estado.

Os moradores da Flona Bom Futuro lutam contra sucessivas tentativas de expulsão empreendidas pelas hostes do latifúndio e por forças policiais. São alvos de constantes humilhações, perseguições, abordagens e prisões ilegais.

O povo não suportava mais ataques e revidou! Explodiu a sua justa ira. Primeiramente eles exigiram apenas a libertação dos seus e a devolução das motocicletas, e foram tratados com maior brutalidade. Tiros, bombas e agressões. A incursão policial de 13 de novembro foi a gota d’água.

Todo o povoado se levantou. Pontes foram derrubadas para impedir que os presos fossem levados. O contingente de repressão local não foi capaz de enfrentar os camponeses que se defenderam com pedras, paus e fogo, recuperaram as motos apreendidas e libertaram os três presos. Uma viatura da Força Nacional foi incendiada e outras também foram danificadas por pedras e paus.

http://www.anovademocracia.com.br/122/10b.jpg
Em Buritis, camponeses resistem à reintegração de posse.

O tenente Regis Wellington Braguin Silvério, comandante do destacamento da Polícia Militar em Buritis, declarou à imprensa local que “esgotaram-se os equipamentos de dispersão e manifestantes correram para cima” obrigando a fuga dos agentes de repressão.

Em 14 de novembro ocorreu, na Universidade Federal de Rondônia (Unir), em Porto Velho, um seminário sobre a escalada da repressão contra as lutas do povo, principalmente após as jornadas de protestos de julho e julho que se espalharam por todo país. Cerca de 80 estudantes, professores, advogados, indígenas, camponeses e representantes de diversas entidades populares e democráticas participaram desse seminário. Moradores de Rio Pardo chegaram ao final do evento, mas em tempo de denunciarem o que ocorria no local. O seminário aprovou que uma delegação se dirigisse rapidamente ao local do conflito para apurar os acontecimentos e prestar solidariedade aos moradores.

Na manhã de 15 de novembro, um comboio policial composto por 47 viaturas foi enviado para Rio Pardo. Participaram da ação: Polícia Federal, COE, Polícia Civil, Polícia Rodoviária Federal e 2 helicópteros do Exército e ICMBio. Segundo declaração dada pelo Secretário de Segurança, Defesa e Cidadania de Rondônia, Marcelo Bessa, à imprensa local, 140 homens dessas diferentes corporações compuseram o comboio. Moradores foram interrogados e a população se viu, mais uma vez, sob a mira de fuzis. Barreiras policiais impediram a população de entrar ou sair da área. Dez moradores, presos durante o protesto, foram levados para a capital Porto Velho e encarcerados no Presídio Pandinha.

Missão de solidariedade

Também no dia 15, uma comissão de advogados, estudantes de direito e representantes de entidades democráticas visitou presos. Advogados populares assumiram sua defesa.

No dia seguinte, uma missão de solidariedade formada por advogados e representantes da Associação Brasileira dos Advogados do Povo (Abrapo), Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos (Cebraspo) e Comissão Pastoral da Terra dirigiu-se até Buritis e Rio Pardo. A caminho de Rio Pardo, a missão foi abordada numa das barreiras policiais que controlam o acesso à área e foi acompanhada por uma viatura da COE todo o tempo que esteve no povoado.

Eles colheram o relato de camponeses, pequenos comerciantes e funcionários públicos que presenciaram e denunciaram as atrocidades policiais cometidas contra a população. Os moradores receavam falar temendo represália policial.

Segundo Nota Pública sobre o Conflito Agrário em Rio Pardo/RO assinada pela Abrapo, Cebraspo e CPT/RO, “diversos moradores relataram que foram torturados por policiais militares para que estes obtivessem informações sobre as supostas lideranças dos manifestantes. Muitos, com marcas de espancamento, conforme registro fotográfico feito pelas entidades, afirmaram não dirigir-se a hospitais por medo de mais uma vez serem torturados, já que havia uma grande concentração de policiais em Buritis”.

Conteúdo exclusivo para assinantes do jornal A Nova Democracia

Entre outros pontos da nota, as organizações destacam que:

“Segundo os moradores, a polícia não só usou balas de borracha, spray de pimenta e bombas de gás lacrimogêneo (gás azul), como também utilizou munição real contra os camponeses, sendo que um encontra-se ferido na perna, foi espancado e não se sabe seu paradeiro.

 Após a ação desastrada da Força Nacional que se retirou após o policial militar Luis Pedro de Souza Gomes ter sido ferido, do veículo da tropa caíram uma caixa de granadas de gás e uma escopeta calibre 12. Esse material foi guardado por um “dentista” em sua residência para ser devolvido à polícia que ao entrar em sua casa destruiu todo seu consultório. Os moradores questionam o fato de que o “dentista” simplesmente guardou em local seguro em meio a confusão generalizada e que se quisesse subtrair o armamento teria guardado em outro local. Mesmo com essas alegações, segundo os populares, a polícia depredou todo o consultório.

 No dia 15 de novembro, após as sessões de tortura aos camponeses, foi preso o camponês Eronildo Francisco de Paula acusado de porte ilegal de arma.

 Em que pese à reação dos camponeses frente à ação truculenta das forças policiais, resultando na morte do policial, os moradores afirmam que este foi atingido pela própria tropa de policiais. A prática de tortura, maus tratos e execuções sumárias são comuns CONTRA os camponeses e não o contrário. As marcas dos disparos de armas pelos policiais estão em várias casas do povoado. Segundo os depoimentos eles partiram atirando para todos os lados.

 Por fim, a CPT-RO, o CEBRASPO e ABRAPO exigem que o Estado brasileiro, representado pelo Governo Federal e pelo Governo do Estado de Rondônia, cumpra o acordo de reassentamento das mais de 400 famílias da região de Rio Pardo que lá vivem e produzem há mais de 10 anos e não querem ver destruídos os frutos do seu trabalho.”


Novas prisões e denúncias de torturas

Em 25 de novembro, ocorreu uma reunião convocada pela Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa de Rondônia, na sede da Câmara Municipal de Buritis. Moradores da região de conflito do Rio Pardo, e também de Minas Nova e Bom Futuro, denunciaram atrocidades cometidas pelas forças de repressão em diferentes áreas. Forma feitas denúncias contra soldados do Batalhão de Ariquemes, que prenderam e agrediram brutalmente 14 pessoas (homens e mulheres) na Fazenda Formosa, área localizada na Linha 150, em Buritis. Nessa seção foi dito que há a informação de que o Ministério do Meio Ambiente teria solicitado o envio de mais 400 soldados da Força Nacional para a região.

Em 26 de novembro Ermogenes Jacinto, membro da Abrapo em RO, nos informou que, além dos dez presos no presídio Pandinha, outros três camponeses foram presos em Rio Pardo, sendo que dois deles foram postos em liberdade e o terceiro é mantido encarcerado, totalizando onze presos.

Segundo Ermogenes, os outros 14 camponeses presos na Fazenda Formosa estão em diferentes presídios de Ouro Preto do Oeste, Vilhena, Machadinho do Oeste e aguardam o andamento dos pedidos de liberdade provisória.

Edição impressa

Endereços

Jornal A Nova Democracia
Editora Aimberê

Rua Gal. Almério de Moura 302/4º andar
São Cristóvão - Rio de Janeiro - RJ
Tel.: (21) 2256-6303
E-mail: anovademocracia@gmail.com

Comitê de apoio em Belo Horizonte
Rua Tamoios nº 900 sala 7
Tel.: (31) 3656-0850

Comitê de Apoio em São Paulo
Rua Silveira Martins 133 conj. 22 - Centro
Reuniões semanais de apoiadores
toda segunda-feira, às 18:45

Seja um apoiador você também!

Expediente

Diretor Geral 
Fausto Arruda

Editor-chefe 
Mário Lúcio de Paula
Jornalista Profissional
14332/MG

Conselho Editorial 
Alípio de Freitas
Fausto Arruda
José Maria Oliveira
José Ramos Tinhorão 
José Ricardo Prieto
Henrique Júdice
Hugo RC Souza
Mário Lúcio de Paula
Matheus Magioli
Montezuma Cruz
Paulo Amaral 
Rosana Bond
Sebastião Rodrigues
Vera Malaguti Batista

Redação 
Ellan Lustosa
Mário Lúcio de Paula
Patrick Granja