Marreta convoca e operários vão ao combate

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A crescente revolta dos operários da construção de Belo Horizonte contra os baixos salários, as péssimas condições de trabalho e os criminosos acidentes de trabalho que vêm fermentando ao longo dos últimos anos explodiu na forma de uma combativa greve. Em 27 de novembro de 2013 canteiros de obras da capital amanheceram parados e os operários tomaram as ruas em protesto.

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Greve se alastrou na região sul da capital.

Em setembro, às vésperas da campanha salarial e da data-base da categoria (1º de novembro), a luta de resistência econômica e contra as péssimas condições de trabalho se intensificou.  Ocorreram as primeiras manifestações, greves espontâneas, em que os operários paralisaram as obras e rapidamente convocaram o Sindicato dos Trabalhadores da Construção de BH e Região (Marreta) para dirigi-las. Essas greves foram fundamentais para a construção da ampla pauta de reinvindicações da categoria, debatida nos canteiros de obras, na diretoria do sindicato e em assembleia geral dos operários, que a aprovaram e encaminharam aos patrões na última semana de setembro.

As principais reinvindicações da categoria são: piso salarial de R$ 1.500 para serventes, R$ 2.300 para oficiais, reajuste salarial e direitos para as demais classificações; fornecimento de almoço e café da tarde pelas empresas nos canteiros de obras; cumprimento pelas empresas das normas de segurança coletivas e individuais; etc.

O salário de um servente de pedreiro na capital é, hoje, antes de encerrada a campanha salarial 2013/2014, R$ 743. Os trabalhadores da construção não têm assegurado, até os dias atuais, o direito ao almoço e café da tarde que deve ser fornecido pelas empresas nos canteiros de obras, direito já conquistado por operários de outros estados através de muita luta. As empresas não fornecem, na maioria dos casos, os devidos equipamentos de segurança coletiva e individual, o que somado a inúmeras outras irregularidades cometidas pelos patrões já resultou em mais de 50 ‘acidentes de trabalho’ que provocaram dezenas de mortes e mutilações de trabalhadores (isso apenas em 2013). Foi contra tudo isso que os operários se levantaram.

Marreta no patrão

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Operários tomam as ruas do Centro de Belo Horizonte.

O sindicato patronal, Sinduscon-MG, e seu diretor Walter Bernardes, responsável pelas negociações, emperraram o processo não comparecendo as reuniões de negociação e enviando em seu lugar um preposto que apresentou 7,5%  como proposta de ‘reajuste’, o que calculado sobre o salário de um servente significa ínfimos R$ 1,85 por dia. Os operários não engoliram o desaforo.

No campus da UFMG, onde se concentram centenas de trabalhadores, os operários realizaram assembleias e promoveram um verdadeiro arrastão paralisando obras e tomando a Avenida Abrahão Caram, próximo ao estádio Mineirão, estendendo a greve às obras vizinhas.

Na região Centro-Sul da capital, os operários da OAS, que trabalham em uma obra do governo estadual e de um grande hospital, mantiveram a tradição de lutas que já vinham empreendendo com paralisações nos meses de setembro e outubro e assumiram a linha de frente das mobilizações, cruzando os braços e unindo-se aos trabalhadores de uma grande obra da Companhia Energética de Minas Gerais – CEMIG, a cargo da construtora Via Engenharia e outras empreiteiras como a Tecno Construções. Nessa obra ocorreram inúmeras batalhas, primeiro para interromper os trabalhos, que eram mantidos através de ameaças de encarregados e da PM que cercou as obras com dezenas de policiais fortemente armados. A firmeza da direção do Marreta somada a combatividade da juventude operária deram uma importante virada na greve justamente nessa obra.

Na manhã do terceiro dia de greve, um estrondo ecoou na Avenida Barbacena, diante da obra da Cemig. Seguiram-se outros acompanhados de palavras de ordem. “Marreta no patrão, contra a exploração!”. Seguindo o exemplo da juventude combatente em suas jornadas de junho e julho, os operários utilizaram bombas e rojões dando um novo ingrediente à greve, fortalecendo o ânimo da categoria, intimidando os fura-greves e demais aliados da patronal.

Enfrentando a repressão

Os patrões enviaram as forças de repressão contra a greve. Obras foram cercadas por policiais armados com cassetetes, spray de pimenta, escopetas.

Na manhã de 6 de dezembro, o diretor do Marreta, Vilson Valdez, foi arbitrariamente preso quando denunciava a ação da PM que fazia um corredor para obrigar os trabalhadores a entrarem na obra. A atitude combativa deste diretor e de seus companheiros que permaneceram firmes no piquete estimulou os quase 300 operários que haviam sido coagidos pela PM a abandonarem o trabalho. A partir deste dia, esta obra permaneceu completamente parada.

Nesse mesmo dia, durante um protesto de operários no centro da cidade, duas ativistas que participavam da manifestação em apoio ao movimento foram presas em uma armação policial. Uma delas, a pedagoga Ione Mariano, foi mantida encarcerada durante uma semana no Ceresp, antiga sede do DOPS - masmorra de torturas e assassinatos de militantes revolucionários e ativistas durante o regime militar.

Houve tentativas de intimidar as lideranças da greve, ameaças contra o carro de som do Marreta e forte aparato de repressão seguindo as manifestações e piquetes. Com sabedoria, os trabalhadores seguiram ampliando a mobilização e garantindo a paralisação das obras.

Quem decide é quem luta

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Trabalhadores bloquearam via expressa e seguiram para o Ministério do Trabalho durante manifestação em 3 de dezembro.

A resposta dos operários foi ampliar a greve. O arrastão do Marreta seguiu de obra em obra e tomou as ruas do centro da cidade.

No décimo segundo dia de greve, após uma primeira reunião de mediação no Tribunal Regional do Trabalho – TRT, o desembargador do Tribunal apresentou a seguinte proposta: a) 8,5% de reajuste salarial linear sobre os salários vigentes em 31/10/2013; b) compensação de 50% dos dias parados pelos empregados e pagamento dos 50% restantes pelas empresas; c) manutenção das normas e condições de trabalho constantes do último instrumento normativo. 

A greve foi mantida e se estendeu à região do Belvedere, onde concentram-se obras de luxo e as empresas anunciam coberturas à venda por até R$ 10 milhões. Lá também chegaram as bombas e as palavras de ordem. Operários pediram a palavra e saudaram o Marreta, conclamando os trabalhadores para aderirem ao movimento e ampliarem a luta.

Só então, quando já amargavam 13 dias de prejuízo e obras paradas, os representantes do Sinduscon decidiram aparecer para negociar. Os empresários propuseram 8,5% de reajuste apenas para os trabalhadores que recebem até R$ 2.499,99, reduzindo esse índice para os que recebem salários acima desse valor e propõem que os operários compensem 50% dos dias parados.

Essa proposta foi levada à assembleia geral da categoria no dia 15 de dezembro. Diretores do Marreta, operários que compõem as comissões de negociação representando as obras paradas e trabalhadores submeteram a proposta patronal ao debate e a avaliaram que como muito ruim, muito abaixo do que a categoria exige. A greve já ultrapassava as duas semanas e a vontade dos operários que seguem mobilizados é não aceitar essa proposta e seguir com a luta.

A assembleia decidiu autorizar a diretoria do Marreta a assinar o acordo em próxima reunião no TRT apontando correções que devem ser feitas no texto apresentado pelos patrões para que não haja dúvidas do que deverá ser cumprido. Também foi decidido que nas obras que encontram-se mais mobilizadas, caso assim decidam os trabalhadores, seguirão as paralisações e as negociações para buscar superar a proposta do Sinduscon e arrancar o máximo de reinvindicações.

Detonando o oportunismo

Com a direção classista do Sindicato dos Trabalhadores da Construção de BH e região – o Marreta – e da Liga Operária, os operários da construção de Belo Horizonte vêm arrancando nos últimos anos, através de greves e muita resistência, reajustes acima da inflação. Ainda que isso não signifique muito em termos de conquistas econômicas, têm grande significado quando se trata da luta classista que se dá na contramão do peleguismo das centrais sindicais que vendem os trabalhadores em acordos lesivos, aliando-se aos patrões para impor medidas anti-operárias como banco de horas e outras armadilhas para retirar direitos.

Lutando contra toda essa maré de conciliação de classes difundida sistematicamente por PT/CUT em confabulação com todo oportunismo, contra os agentes patronais (encarregados, “cachimbos”, “gatos” e puxa-sacos de todo tipo) verifica-se nestas lutas sindicais que as posições classistas têm que enfrentar também no seu próprio meio as vacilações e traições. Numa das obras onde a greve foi mais ativa e firme um dos diretores do sindicato foi denunciado pelos trabalhadores por furar a greve, além de espalhar temores visando desmobilizar a luta. No campus da UFMG, o senhor Gabriel foi execrado nas assembleias dos operários grevistas que o desautorizaram a falar em nome do Marreta.

Segundo diretores do sindicato, durante a assembleia de 15 de dezembro os trabalhadores decidiram, com o apoio da direção classista do Marreta, tomar as medidas cabíveis, de acordo com o estatuto da entidade, para que esse fura-greve seja afastado definitivamente da diretoria do sindicato e substituído por trabalhadores comprometidos com a luta e com os interesses da classe.

O que colhemos da última assembleia, como testemunhas e representantes da imprensa democrática e popular, é que essa batalha representa um pesado golpe da classe operária e sua direção classista e combativa na patronal, colocando novos e grandes desafios para a classe. Durante toda a greve os operários fizeram referência à grande greve de 1979, a maior rebelião operária da história de Belo Horizonte, apoiando-se em seus ensinamentos. Em todo momento os trabalhadores fizeram referências às jornadas de junho e julho de 2013, seguindo o exemplo da juventude combatente.

Avizinha-se uma nova jornada de lutas, aproxima-se a copa da Fifa. Os inimigos do povo, os grandes burgueses, os patrões, os latifundiários e os imperialistas afiam suas garras e o povo se prepara para novas batalhas. As organizações populares, sindicais e estudantis, os trabalhadores do campo e cidade, os estudantes, todos terão que decidir de que lado estão e que trincheira ocuparão na luta classes.


Revolta latente nos corações operários

Gerson Lima, membro da Liga Operária

A greve nos diversos canteiros de obras da construção de Belo Horizonte é um grito de revolta dos operários contra a situação de exploração e opressão a que estão submetidos os trabalhadores. É uma prova contundente da disposição de luta da massa operária contra o peleguismo, a traição e a cooptação que domina o movimento sindical atualmente. Os operários promoveram passeatas, paralisaram avenidas e a Praça Sete. no Centro de BH. Realizaram combativos piquetes e arrastões nas obras.

Contra a justa greve dos operários da construção de Belo Horizonte foram acionados mecanismos de opressão do Estado burguês-latifundiário e seu gerenciamento de turno do partido dito “dos trabalhadores”, que também promove uma manipulação grosseira dos índices que incidem no reajuste de salários. A truculenta repressão da PM e a parcialidade do Tribunal Regional do Trabalho e do Ministério do Trabalho foram mecanismos usados pela patronal para preservar a política de arrocho salarial.

A greve expôs o cativeiro a que são submetidos os operários, onde as condições de trabalho são muito precárias com constantes “acidentes” de trabalho com mortes e mutilações. Desse sangue operário são erguidas as inúmeras obras que se expandem por todo o país e extraídos lucros fabulosos que turbinam os cofres das construtoras, as campanhas eleitorais dos políticos de turno que retribuem o favorecimento para as empresas e toda campanha diversionista dos pelegos do governo e das entidades sindicais que dizem que ‘está tudo a mil maravilhas’, fazendo pactos falaciosos como o funesto pacto entre pelegos, governo e empreiteiras intitulado “Compromisso Nacional da Construção”.

As combativas paralisações destes dias e que ainda prossegue nas obras do campus da UFMG, nas obras da construtoras Via, OAS e no hospital Mater Dei são a sinalização do espírito de luta da classe e da grande revolta latente no coração dos operários contra todo esse sistema de exploração e opressão!


Fifa e governo assassinam operários

Romulo Radicchi

Em menos de um ano, somente em Manaus (AM), nas obras da “Arena Amazônia”, três operários da construção foram assassinados. O primeiro foi o trabalhador Raimundo Nonato Lima da Costa, 49 anos, que na madrugada do dia 29 de março de 2013, durante trabalho noturno, teve morte instantânea causada por traumatismo craniano ao sofrer queda de altura, ao tentar passar de uma coluna para o andaime.

Outro trabalhador, José Antônio da Silva Nascimento, também de 49 anos, sofreu um infarto no Centro de Convenções do Amazonas, que está sendo construído ao lado do estádio. Todos operários da obra alegaram que José Antônio estava há vários dias sem folga, exausto e trabalhando sob enorme pressão.

No dia 16 de dezembro ocorreu o assassinato do terceiro trabalhador. Marcleudo de Melo Ferreira, de 22 anos, caiu de uma altura de 35 metros, quando um cabo se rompeu. Ele trabalhava às 4 horas da madrugada na instalação da proteção lateral dos refletores do estádio, trabalhando em horário noturno, há quase 20 horas ininterruptamente e sem se alimentar devidamente.

As causas são visíveis, todas oriundas dos interesses e ganância da Fifa, governo e construtoras. Imposição do trabalho noturno, pressão para entrega da obra, trabalho em local com risco de queda sem equipamentos de segurança coletivo, aberturas no piso sem isolamento ou identificação com o risco de queda e pessoas circulando em área de circulação de cargas sem que a mesma esteja devidamente sinalizada e/ou isolada.

A pressão da Fifa para que os prazos sejam cumpridos é escandalosa e assassina.

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