Colômbia: paz ou legitimação da guerra?

A- A A+
http://www.anovademocracia.com.br/124/18.jpg
Soldados das FARC aguardam para fazer deposição de armas.

“A verdade é que todo mundo sabe, isto não tem nada de novo, que temos uma cooperação forte, muito forte com o USA”. Esta foi a declaração do ministro da defesa colombiano quando foi divulgado, no jornal Washington Post do dia 22 de dezembro, um “acordo” secreto entre o Estado do país andino e o Estado ianque para combater a insurgência, especialmente, das FARC. O cínico ministro Juan Carlos Pinzón, como representante da medula reacionária do velho Estado colombiano, mais uma vez naturalizou o controle direto da guerra reacionária no país vizinho por parte do USA.

Este “acordo” secreto consiste na execução direta do imperialismo ianque, através da CIA, de atividade de inteligência e a direção de bombardeios de alta precisão contra a guerrilha, apontando principalmente contra o secretariado desta. O assassinato no Equador, de Raúl Reyes, então segundo no comando das FARC, junto a mais de vinte pessoas (incluindo a estudantes mexicanos), é um resultado concreto da chamada “cooperação”. A participação do USA na guerra da Colômbia realmente não é “nada novo” e, pelo contrário, especialmente desde os anos de 1990, tem se convertido em um dos destinos principais da sua ajuda militar. Para o ano 2006, durante o início deste programa secreto, o Estado colombiano recebia o terceiro maior pacote de orçamento de guerra depois de Egito e Israel.

Este programa se dá junto ao controle ianque de bases militares, um complemento ao Plano Colômbia, desenhado sob a suposta bandeira de combater o chamado “narcoterrorismo” e alcançar a paz. Mas na realidade fazem parte, seguramente ao lado de outros tantos programas secretos, da estratégia de Guerra de Baixa Intensidade1 que se desenvolve no mencionado país.

O objetivo da Guerra de Baixa Intensidade não é acabar com o “narcoterrorismo”, como se justifica abertamente. Pelo contrário, existem estudos com suficiente documentação que demonstram como desde a aplicação do Plano Colômbia a produção de cocaína aumentou e com seu orçamento tem financiado grupos paramilitares que têm desatado a expulsão de camponees de suas terras numa escala sem precedentes2. O objetivo real deste plano é aprofundar o controle econômico, político e militar do imperialismo ianque sobre a nação colombiana, assim como sua estabilidade e controle em toda região, incluindo o Brasil. Apesar de que o imperialismo ianque segue levando suas garras a mais parte do mundo, não é possível acreditar que perdeu seu “quintal” na América Latina. Lembremo-nos do que Nixon questionou, “Se não podemos controlar a América Latina, como poderemos controlar o mundo?”

Este programa secreto da inteligência combinada, com enormes bombas com dispositivo GPS, foi de conhecimento público em plenos “Diálogos de Paz” com as FARC. Diálogos que, apesar das aparências, estão ligados também estreitamente com a Guerra de Baixa Intensidade. Esta estratégia contempla os Acordos de Paz como parte de sua estratégia militar, inclusive definindo operações para a manutenção da “paz”3. Seguindo a compreensão de Abimael Guzmán, “A chamada pacificação é parte da chamada guerra de baixa intensidade do imperialismo ianque, por isso procuram participação social e acordo nacional e legitimação”.

Conteúdo exclusivo para assinantes do jornal A Nova Democracia

Neste sentido, em dezembro passado, o Presidente da Colômbia, J. M. Santos, reiterou publicamente o espírito destes acordos, “Os inimigos da paz4 estão dizendo que lá se está negociando nosso Exército, que lá está se negociando nosso sistema político, que lá se está negociando nosso sistema econômico: Mentira! A única coisa que se está negociando é uma transição para que esta gente deixe as balas, deixe as armas e as troque por votos, por argumentos, e ponham fim ao conflito”. Não se pode ser mais claro: depois dos Acordos de Paz, essencialmente, nada vai mudar na Colômbia fora a decomposição das FARC enquanto força armada e consequentemente o fortalecimento do exército reacionário. Os acordos de paz são o bombardeio definitivo a essa guerrilha, são o componente da legitimação que a guerra contra o povo colombiano necessita para seguir desenvolvendo-se, e não para acabar, como poderia acreditar-se. Sob esta perspectiva, a contradição entre os amigos e os inimigos da paz dentro das classes dominantes não é realmente tal; são só formas não antagônicas de seguir desenvolvendo a guerra contra o povo.

Dentro dos “amigos da paz” encabeçados pela dupla do governo Santos/FARC, também se expressam contradições que uma observação panorâmica nos impede particularizar. Entretanto, a “grave ameaça” contra os diálogos por parte dos “inimigos” do processo é um elemento condicionante que convém para manter-se sentando na mesma mesa. Suas contradições podem ter solução sem tocar no fundamental do Estado burocrático e latifundiário colombiano, tal qual deixa claro o principal dirigente das FARC ao caracterizar suas demandas: “(...) reformas que seriamente abrem espaço a deliberação política aberta do povo colombiano, que implicam alterar pelo menos um pouco os crescentes lucros do grande capital e do latifúndio” (Timoshenko, 30/12/13). Vemos assim uma diferença e uma convergência com a declaração citada de Santos. Diferença: Santos diz “o único que se está negociando”, Timoshenko diz “alterar pelo menos um pouco”. Convergência, conservar o fundamental da ordem de exploração e opressão.

Apesar destes desejos de legitimação que primam hoje, outro aspecto que não vai mudar após um possível acordo de paz é o descontentamento e resistência do povo colombiano. Sua chamada “legitimação” não pode ocultar a realidade que o povo vive diariamente. O imperialismo ianque é odiado a nível mundial, pois, ainda que fale de paz, democracia e direitos humanos, na prática é a pior organização criminosa do mundo. É uma realidade que nem a manipulação das pesquisas pode ocultar. Segundo um levantamento publicado no final de 2013 pela empresa Win/Gallup em 65 países, o USA é considerado, com ampla vantagem, a pior ameaça para a paz mundial.

Assim, cada dia são mais vigentes as seguintes palavras de Mao Tsetung: “Só poderá haver paz quando for eliminado o imperialismo. Chegará o dia em que o tigre de papel será destroçado. Mas não desaparecerá por si mesmo; para isso falta o golpe do vento e da chuva”.

________________
Notas:

1 - A Guerra de Baixa Intensidade é fruto da experiência de guerra do imperialismo ianque pelo domínio das nações oprimidas e contra sua resistência, especialmente após sua derrota no Vietnã. Esta estratégia eleva a importância da inteligência e busca combinar ações militares e não militares (brigadas de saúde, construção de escolas, etc.) em função de desenvolver sua guerra, mas mantendo maior possível sua “legitimidade”. É por isso que o controle imperialista se encobre com “ajuda” e “cooperação”, e, se desenvolvem constantemente ações secretas diretas e indiretas do imperialismo sob a aparência de ações “heroicas” dos exércitos semicoloniais, tal qual foi a “operação Fénix”, que assassinou Raúl Reyes, e a farsa hollywoodiana chamada “operação xeque”, que libertou, entre outros, a ex-candidata presidencial franco-colombiana Ingrid Betancourt.

2 - Ver: O lado escuro do Plano Colômbia, Teo Ballvé, disponível na internet.

3 - Ver: Manual de campo do exército ianque, Operações militares no Conflito de Baixa Intensidade /Military operations in Low Intensity Conflict.

4 - Sob esta dominação, Santos se refere aos grupos das classes dominantes liderados pelo ex-presidente Álvaro Uribe, grupo que está contra os diálogos de paz e a favor da derrota completa da guerrilha através da “via militar”.

LEIA TAMBÉM

Edição impressa

Endereços

Jornal A Nova Democracia
Editora Aimberê

Rua Gal. Almério de Moura 302/4º andar
São Cristóvão - Rio de Janeiro - RJ
Tel.: (21) 2256-6303
E-mail: anovademocracia@gmail.com

Comitê de apoio em Belo Horizonte
Rua Tamoios nº 900 sala 7
Tel.: (31) 3656-0850

Comitê de Apoio em São Paulo
Rua Silveira Martins 133 conj. 22 - Centro
Reuniões semanais de apoiadores
toda segunda-feira, às 18:45

Seja um apoiador você também!

Expediente

Diretor Geral 
Fausto Arruda

Editor-chefe 
Mário Lúcio de Paula
Jornalista Profissional
14332/MG

Conselho Editorial 
Alípio de Freitas (In memoriam)
Fausto Arruda
José Maria Oliveira
José Ramos Tinhorão 
José Ricardo Prieto
Henrique Júdice
Hugo RC Souza
Mário Lúcio de Paula
Matheus Magioli
Montezuma Cruz
Paulo Amaral 
Rosana Bond

Redação 
Ellan Lustosa
Mário Lúcio de Paula
Patrick Granja